Para as Ilhas Marshall, a estréia no palco mundial nestes Jogos

Arquipélago formado por ilhas e atóis manda cinco atletas, sendo um classificado por índice e outros convidados

Jere Longman, The New York Times

06 de agosto de 2008 | 01h20

As Ilhas Marshall, arquipélago formado por ilhas e atóis (incluindo o de Bikini) localizado na metade do caminho entre Austrália e Havaí, apresentarão umas das menores delegações entre as 205 que competirão nos Jogos Olímpicos em Pequim. As ilhas ganharam visibilidade primeiramente como palco de testes nucleares após a Segunda Guerra Mundial, e não como lar de competidores das modalidades de corrida, salto e natação. Os atletas olímpicos do país, como os seus bens de consumo e alimentos, são em sua maioria importados.As pistas de atletismo do país são de grama e apenas quatro ou cinco ginásios abrigam quadras de basquete cobertas, de acordo com Terry Sasser, secretário-geral do Comitê Olímpico Nacional das Ilhas Marshall, cujo site na internet não contém listas de recordes nacionais e cujo telefone está fora de serviço. Um dos atletas olímpicos marshaleses, recém-formado no ensino médio do estado de Washington, EUA, jamais esteve na minúscula nação insular."O nosso grande feito nas Olimpíadas será mostrar às pessoas que nós existimos", disse Anju Jason, lutador de tae kwon do que passou a maior parte da vida no Havaí. "Ninguém ouviu falar a nosso respeito."O reconhecimento olímpico veio em 2006, permitindo às Ilhas Marshall que recebessem financiamento e bolsas de treinamento oferecidos pelo Comitê Olímpico Internacional. Os cerca de US$ 100 mil recebidos antes dos jogos de Pequim correspondem essencialmente a todo o orçamento do Comitê Olímpico marshalês, disse Sasser. Ao final, ele espera que entre US$ 300 mil e US$ 400 mil sejam enviados anualmente para ajudar a desenvolver programas esportivos e treinar técnicos e funcionários. "Não poderíamos existir sem o COI", disse Sasser.Um acordo foi assinado recentemente com a televisão da Nova Zelândia para trazer os jogos de Pequim às Ilhas Marshall. Espera-se que as pessoas se reúnam para assistir em grandes telas. Os esportes organizados ainda são um empreendimento nascente no país. Somente no ano passado foram realizados os primeiros Jogos Nacionais Marshaleses. Atletas foram trazidos de áreas distantes do território para a capital Majuro, a bordo de navios de transporte do governo.As autoridades esperam que as Olimpíadas ajudem a estimular um movimento pelo emprego dos esportes como diversão saudável num país de 63 mil residentes onde a média de idade é de 21 anos, o desemprego é 30%, o PIB per capita é de US$ 2.900 anuais e a ajuda do governo dos Estados Unidos é o sangue vital que mantém a economia pulsando. Em julho, o governo marshalês declarou um estado de "emergência econômica", dizendo que o preço cada vez maior do combustível ameaçava provocar o desligamento dos geradores de energia e desestabilizar o país."A grande migração para os centros urbanos resultou numa demanda por educação, emprego, saúde e serviços sociais que excede em muito aquilo que a economia, a infra-estrutura atual e as instituições são capazes de suprir", de acordo com o relatório anual de 2006 do Comitê Olímpico das Ilhas Marshall.Os jovens do país sentem raiva, frustração e incerteza, disse o relatório, acrescentando que pesquisas e estudos indicam que "a presença de esportes nas comunidades é um grande fator de afastamento em relação ao comportamento destrutivo, e provoca uma drástica redução na criminalidade."Jason, o lutador de tae kwon do, é o único dos cinco atletas marshaleses participando da Olimpíada a ter se classificado para os jogos. Os demais competidores, que possuem laços familiares com o país, foram presenteados com vagas nas modalidades de atletismo e natação. Alguns criticaram esta prática, chamando-a de "turismo olímpico," mas o COI e as federações esportivas internacionais dizem que o apelo universal dos jogos pode ser ampliado ao serem incluídas pequenas nações, mesmo que os seus atletas não tenham atingido os índices olímpicos de desempenho."Não vejo problema nisso, em certas circunstâncias, como por exemplo no caso de um pequeno país", disse Jason. "Acho que seria melhor que os atletas tivessem obtido sua classificação por mérito próprio, para mostrar que têm direito às vagas."Nascido nas Ilhas Marshall, Jason deixou o país rumo ao Havaí quando tinha 6 anos de idade, acompanhado da irmã mais velha e encorajado por um pai que pensou poder oferecer em Oahu a chance de uma educação e uma vida melhores para os filhos. Jason aprendeu a gostar de assistir aos Power Rangers na televisão e, quando chegou pelo correio o anúncio de uma academia de tae kwon do, os chutes e socos pareceram atraentes para o menino de 9 anos de idade.Ele chegou a vencer campeonatos locais e estatais de tae kwon do, mas representar os EUA nos Jogos Olímpicos ainda estava fora do alcance de Jason, porque ele nunca se tornou um cidadão do país.Então, em novembro último, ao voltar para casa após um campeonato em Oklahoma, Jason recebeu um telefonema de seu instrutor. As Ilhas Marshall estavam planejando competir nas Olimpíadas de Pequim. "É alguma piada?" perguntou Jason. Não era. Ele competiu num campeonato qualificatório na Nova Caledônia, derrotou um concorrente de Samoa e tornou-se o primeiro atleta marshalês a se classificar para as Olimpíadas."É algo capaz de mudar sua vida", disse Jason. "Antes disto, eu não tinha nada na vida que me estimulasse para o futuro, nada que me inspirasse a fazer o meu melhor. Isto me transformou. Fez com que eu realmente quisesse encontrar maneiras de me aperfeiçoar."Depois das Olimpíadas, ele diz que planeja visitar as Ilhas Marshall pela primeira vez desde 2005. As crianças em idade escolar têm escrito para ele: Você tem namorada? Pode vir tomar café da manhã comigo? Jogar basquete?"Não havia me dado conta da importância atribuída a mim", disse Jason. "Isto me fez querer treinar mais, para fazer o meu melhor por eles."

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