Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Aumenta a pressão para as empresas condenarem as violações de direitos humanos na China

Executivos dos patrocinadores, no entanto, dizem que os Jogos de Inverno em Pequim, que começam nesta sexta-feira, não devem ser politizados; para os apoiadores, "a China é uma exceção"

Alexandra Stevenson e Steven Lee Myers, The New York Times

02 de fevereiro de 2022 | 20h00

Na parte inferior da encosta onde os snowboarders competirão nas Olimpíadas de Pequim 2022, um outdoor eletrônico passa anúncios de empresas como Samsung e Audi. As latas da Coca-Cola estão adornadas com anéis olímpicos. A Procter & Gamble abriu um salão de beleza na Vila Olímpica. Visa é o cartão de crédito oficial do evento.

O presidente Joe Biden e um punhado de outros líderes ocidentais podem ter declarado um “boicote diplomático” aos Jogos de Inverno, mas, mesmo assim, algumas das marcas mais famosas do mundo estarão lá.

A proeminência dessas empresas multinacionais, muitas delas americanas, tirou o peso político dos esforços de Biden e outros líderes para punir a China por seus abusos de direitos humanos, incluindo uma campanha repressiva na região de Xinjiang que o Departamento de Estado declarou como genocídio.

O patrocínio olímpico reflete a dura escolha das empresas multinacionais que trabalham no país: comprometer o acesso a uma China cada vez mais sensível ou lidar com o risco de reputação associado a fazer negócios no país. No caso das Olimpíadas de Pequim, a decisão foi clara.

Embora os patrocinadores tenham enfrentado protestos de ativistas de direitos humanos de vários países, eles os deixaram de lado, optando por privilegiar a China e sua classe emergente de consumidores.

As empresas argumentam que as Olimpíadas não são políticas e que gastaram centenas de milhões de dólares em acordos que abrangem vários Jogos, não apenas os de Pequim. Em conjunto, os 13 principais patrocinadores olímpicos têm contratos com o Comitê Olímpico Internacional que somam mais de US$ 1 bilhão.

“Eles parecem estar agindo normalmente”, disse Mandie McKeown, diretora executiva da International Tibet Network, um grupo que ajudou a organizar protestos de mais de 200 grupos de direitos humanos pedindo um boicote às Olimpíadas. “É como se eles estivessem tentando tapar o sol com a peneira”.

Para as empresas, porém, os riscos de irritar os consumidores chineses ao criticar as políticas da China são altos. Exércitos de vozes patrióticas nas mídias sociais chinesas denunciaram furiosamente as marcas estrangeiras por aquilo que consideraram ser desrespeito, um ódio muitas vezes amplificado pelo governo e pela mídia oficial.

Adidas, Nike e outras empresas de moda enfrentaram boicotes em todo o país depois de expressarem preocupação com relatos de trabalho forçado em Xinjiang, a região onde o Partido Comunista fechou milhões de muçulmanos uigures em campos de detenção e reeducação em massa. Quando a varejista de moda H&M prometeu parar de comprar algodão de Xinjiang, um boicote dos consumidores chineses custou cerca de US$ 74 milhões em vendas perdidas em um único trimestre.

Mesmo um dos principais patrocinadores olímpicos, a Intel, enfrentou uma reação negativa no mês passado depois que a empresa postou uma carta pedindo aos fornecedores internacionais que evitassem comprar produtos de Xinjiang. Diante da fúria, a Intel reescreveu a carta em poucos dias para remover a referência a Xinjiang.

“O espaço para agradar os dois lados evaporou”, disse Jude Blanchette, pesquisadora do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington. “Na hora de escolher quem desagradar, você pensa em uma ou duas semanas ruins na imprensa americana versus um medo muito concreto e justificado de perder acesso ao mercado chinês”.

Os principais patrocinadores evitaram perguntas, às vezes de maneira desajeitada, sobre se seu apoio efetivamente mascara o regime autoritário do Partido Comunista. As Olimpíadas, argumentam os executivos, não devem ser politizadas, apontando para a Carta Olímpica, que diz exatamente a mesma coisa, apesar de uma longa história de intrigas políticas em torno dos Jogos.

Apenas quatro grandes patrocinadores - Omega, Intel, Airbnb e Procter & Gamble - responderam aos pedidos de comentários. A Omega, cronometrista oficial e empresa responsável pelo processamento dos dados dos Jogos Olímpicos, disse que desde que iniciou sua parceria com os Jogos Olímpicos, em 1932, “tem sido nossa política não nos envolvermos em certas questões políticas porque isso não faria avançar a causa do esporte, que é o centro do nosso compromisso”.

O Airbnb e a Procter & Gamble disseram que estavam focados em atletas individuais e enfatizaram seu compromisso com cada Jogos Olímpicos, e não só com Pequim especificamente. Um representante da Intel disse que a empresa “continuará a garantir que nosso fornecimento global esteja em conformidade com as leis e regulamentos aplicáveis nos Estados Unidos e em outras jurisdições onde operamos”.

“Esqui e esporte não têm nada a ver com política”, disse Justin Downes, presidente da Axis Leisure Management, uma empresa do ramo de hotelaria que está trabalhando com o Comitê Olímpico Canadense e outros para ajudar com logística e suprimentos.

Quase todos os patrocinadores olímpicos têm códigos de ética ou um compromisso de responsabilidade social corporativa para honrar os direitos humanos, mas esses Jogos testaram até que ponto eles irão se manifestar contra violações amplamente reconhecidas.

Na China, essas violações incluíram a repressão em Xinjiang, bem como a repressão contínua do Tibete, a erosão das liberdades políticas em Hong Kong e as ameaças de afirmar a reivindicação territorial sobre Taiwan.

Downes assinou contratos com instalações olímpicas para garantir que as pessoas que ele emprega não levantem tópicos politicamente sensíveis. Se algum membro de sua equipe, que inclui socorristas, fizer uma declaração política sobre assuntos como Xinjiang, Downes pode ser responsabilizado, disse ele. “Somos instruídos a não falar sobre certos tópicos nem postar fotos nas redes sociais”, disse Downes sobre os contratos. “Eles não querem que as pessoas saiam por aí dando declarações. É uma questão de bom senso”.

Os críticos da China dizem que os patrocinadores se associaram a um evento que pode manchar suas marcas. Alguns compararam estes Jogos às Olimpíadas de Verão de 1936 em Berlim, que a Alemanha nazista usou para apresentar o regime fascista de Hitler.

“Sempre repetimos essas palavras: ‘Nunca mais’”, disse Tenzyn Zöchbauer, um tibetano que se juntou a protestos na Alemanha contra a Allianz, a gigante de seguros e serviços financeiros que também é uma das principais patrocinadoras olímpicas. “O genocídio deveria ser uma linha vermelha”, acrescentou, referindo-se à repressão da China em Xinjiang.

Para muitas empresas internacionais, no entanto, os Jogos Olímpicos de Inverno são uma oportunidade de atrair a atenção de mais de um bilhão de consumidores em todo o mundo, bem como dentro do enorme mercado consumidor da China.

Além dos patrocinadores principais, inúmeras empresas internacionais promoveram seus produtos em campanhas com temas olímpicos. Em um shopping center de Pequim, a Adidas ergueu uma pista de esqui com manequins esquiando. Em uma unidade da Pizza Hut, um panda, mascote oficial dos Jogos, acena da vitrine.

O esquiador Bing Dwen Dwen, como o panda é conhecido na China, também está espalhado pelas caixinhas do KFC. A proeminência de tais campanhas publicitárias arrisca atrair uma atenção indesejada nos Estados Unidos.

Executivos da Coca-Cola, Airbnb, Intel, Procter & Gamble e Visa foram levados ao Congresso em julho e acusados de colocar os lucros acima da ética com seus patrocínios nas Olimpíadas. Todos eles foram atacados em cartas públicas. Parlamentares europeus e americanos os criticaram por participar do evento.

Mesmo assim, a questão das violações dos direitos humanos na China não gerou protestos suficientes para ameaçar os lucros das empresas multinacionais, ao passo que consumidores chineses irritados vêm promovendo boicotes dolorosos. “Vamos ser honestos - ninguém, absolutamente ninguém se importa com o que está acontecendo com os uigures, ok?”, Chamath Palihapitiya, o investidor bilionário e coproprietário do Golden State Warriors da NBA, disse este mês. Palihapitiya foi criticado pelo comentário, e os Warriors depois minimizaram seu envolvimento com a equipe.

Dos principais patrocinadores olímpicos, sabe-se que apenas a Allianz se reuniu com ativistas que pediram boicote aos Jogos. Mas a empresa não se manifestou. Um protesto na semana passada nas portas de seu escritório em Berlim atraiu apenas sete pessoas.

Muitos dos principais patrocinadores parecem esperar que passem pelas Olimpíadas sem chamar muita atenção. Ativistas dizem que os patrocinadores e o Comitê Olímpico Internacional têm poder econômico suficiente para influenciar as autoridades chinesas, mas são muito tímidos na hora de usá-lo.

“Se qualquer outro governo no mundo fizesse o que os chineses estão fazendo em Xinjiang ou mesmo em Hong Kong, muitas empresas simplesmente pular fora”, disse Michael Posner, ex-funcionário do Departamento de Estado que agora está na Stern School of Business da Universidade de Nova York.

Ele citou decisões de empresas de desinvestir em lugares como Mianmar e Etiópia, bem como as campanhas para boicotar a África do Sul quando o governo do apartheid enviou equipes totalmente brancas para as Olimpíadas. “A China é uma exceção”, disse ele. “É tão grande, como mercado e também como gigante da indústria, que as empresas sentem que não podem se dar ao luxo de entrar na mira do governo, então ficam de boca fechada”./TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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