José Patrício
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Paraense bate vice-líder do ranking e vira esperança para 2016

Taynna Cardoso, que treinava numa laje no Jardim São Luís, em São Paulo, cresceu no mundo do boxe orientada pelo pai

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2014 | 17h00

A modesta academia de boxe da sede de Jundiaí do Nacional Atlético Clube é, para Taynna Cardoso, um belo centro de treinamento. É lá que o sonho da família toma forma. De volta à seleção brasileira, a pugilista paraense conquistou o título do Campeonato Continental, no México, no mês passado, com direito a vitória, na final da categoria até 57kg, sobre a segunda colocada no ranking da Associação Internacional de Boxe Amador (AIBA), a norte-americana Tiara Brown.

Nos fundos da academia, o serralheiro Luiz Cardoso Ferreira, pai e treinador de Taynna, ganha a vida construindo ringues. Nas paredes estão pregadas várias medalhas, acompanhadas por letrinhas coloridas que informam em quais campeonatos foram conquistadas. No outro lado, em dormitórios improvisados, mora a família. A precária estrutura é um grande avanço em relação às condições que os Cardoso tinham antes de se mudar para o Nacional. Quando a família chegou a São Paulo, Luiz dava treinos na laje de um sobrado alugado para sete boxeadoras, incluindo Roseli Feitosa, que se tornou campeã mundial em 2010.

Taynna foi reintegrada recentemente à seleção brasileira, que empreendeu uma malsucedida tentativa de renovação depois da Olimpíada de Londres. Com ela voltou outra veterana: Adriana Araújo, que conquistou a medalha de bronze na categoria até 60kg. Como a categoria até 57kg não é olímpica, Taynna vai ter que disputar com a amiga vaga na seleção brasileira para os Jogos Olímpicos de 2016. No último Campeonato Brasileiro, Taynna derrotou Adriana na final.

A medalhista olímpica dá a entender que sofreu a derrota por ter, na época do Brasileiro, voltado recentemente ao boxe, após dois anos de afastamento por divergências com a direção da confederação brasileira. 

“Eu engordei 12 quilos durante esse período. Agora estou trabalhando bastante forte para retomar a forma. O corpo já voltou”, diz a pugilista baiana.

Taynna aposta em suas chances. Determinada, a lutadora pratica a modalidade desde os 15 anos de idade, quando passou a frequentar um projeto social ligado ao esporte mantido pelo pai em Belém, o “Discípulos da Vida”. “Fui ver os meninos lutarem e senti um frio na barriga. Desde então, nunca mais quis largar o boxe”.

O resultado no México reforçou a convicção dos Cardoso de que estão no caminho certo. Curiosamente, ao subir no ringue para a decisão, Taynna nem sabia que sua adversária era a segunda do ranking mundial.

“Fiquei muito feliz quando soube. É sinal de que o nosso trabalho está dando resultado”.

O grande teste será o Mundial de Jeju, na Coreia do Sul, que será disputado de 13 a 25 de novembro. Luiz pretende viajar para lá, apesar de não poder orientá-la no ringue, função que cabe a seus treinadores oficiais, os da seleção brasileira. Luiz viajou para o México, e acha que sua presença ajudou a filha. “Às vezes, trocando um olhar, consigo passar alguma informação para ela”.

O pai de Taynna, no entanto, ainda não sabe se vai viajar, pois receia que sua presença possa provocar alguma “ciumeira” entre os treinadores da seleção.

O técnico-chefe da seleção feminina, o ex-boxeador Claudio Ayres, elogia a aplicação da paraense. “É uma garota bem dedicada, está sempre procurando estudar as adversárias”.

Curiosamente, a grande referência de Taynna não é nenhum boxeador famoso - trata-se do também paraense James Dean Pereira, que conquistou bronze nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, em 2003.

“Eu gostava do estilo dele, de não desperdiçar energia e procurar os momentos certos para pontuar”.

Metódico, o pai de Taynna busca praticamente todos os dias, na internet, vídeos e informações sobre boxe para orientar a filha. Luiz aprendeu a boxear no Clube do Remo, em Belém. A capital paraense, aliás, já forneceu muita mão de obra para a seleção brasileira, bem como a Bahia, outro polo importante do boxe nacional.

“Acho que a falta de opções dos lutadores pobres desses lugares os leva a abraçar o boxe de outra maneira. Não é à toa que há sempre tantos baianos e paraenses na seleção brasileira”.

E é justamente o duelo entre uma baiana - Adriana - e Taynna, uma paraense, que vai apontar a dona da vaga olímpíca brasileira em 2016.

Claudio Ayres, aliás, vê com bons olhos essa disputa interna. “Eu acho muito saudável essa competição. Vai agregar muito ao boxe brasileiro”. 

Taynna não acha que seja viável baixar para a categoria 51kg para escapar da concorrência. 

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