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Lâminas Blade Runner, de fibra de carbono, foram inventadas no ano de 1997 Divulgação|Ossur

Paratletas apostam na tecnologia para superar seus limites

Entenda como funcionam as próteses e cadeiras de última geração

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2016 | 05h00

Se, nos esportes olímpicos, a tecnologia já tem um papel fundamental no alto rendimento dos atletas, nos esportes adaptados (ou paralímpicos), este tipo de recurso tem ainda mais importância. Aliada à superação e ao mérito dos paratletas, a tecnologia visa, além de aprimorar o desempenho, a deixar o usuário cada vez mais confortável e mais bem adaptado para render o máximo nas competições e voltar a realizar as tarefas do dia-a-dia normalmente. As próteses, por exemplo, utilizadas em uma série dessas modalidades, ajudam a atingir esses objetivos.

Elas podem ser utilizadas em qualquer modalidade que se encaixa na categoria "ALA" (de amputados e outros) dos esportes paralímpicos, como, por exemplo, atletismo, ciclismo, hipismo, levantamento de peso, vela, tiro, entre outros. A exceção fica por parte da natação, que não permite o uso de próteses.

Tido por muitos como o maior atleta paralímpico de todos os tempos, o sul-africano Oscar Pistorius contou com uma tremenda ajuda de suas próteses para ser o primeiro biamputado a disputar os Jogos Olímpicos contra atletas sem deficiência. Hoje, porém,  o atleta se encontra preso em seu país de origem, acusado de assassinar sua ex-namorada. Independentemente disso, as próteses de Pistorius acabaram se tornando referência, sendo batizadas de "Blade Runner" (ou lâminas de corrida). Os primeiros modelos surgiram em 1997.

Hoje, a principal fornecedora de próteses para atletas é a Össur, multinacional sediada na Islândia. Jairo Blumenthal, protesista formado pela California State University, nos EUA, é o diretor da empresa no Brasil. “As primeiras versões surgiram em 1997 e eram muito parecidas com os que hoje, utilizamos para caminhadas. A fibra de carbono tem a vantagem de ser muito leve, resistente e de absorver energia e retorná-la. É o material ideal para isso. Porém, a única grande desvantagem é justamente o alto custo”, explica.

“Acho que o bacana nessa história é explicar que as Paralimpíadas estão para as pessoas normais como um carro de Fórmula 1 está para um carro de passeio. Ou seja, as grandes inovações, situações mais extremas, são postas à prova em um cenário de Paralimpíadas. Tudo o que se provar benéfico naquela situação, será adaptado para as próteses do cotidiano e será incorporado”, conclui Jairo.

As próteses foram desenvolvidas por Van Phillips, também amputado quando tinha 21 anos. Fabricadas em fibra de carbono e utilizadas principalmente nas provas de velocidade, ela "imita" a ação do tornozelo durante uma corrida, ao se comprimir contra o chão e armazenar energia cinética, liberada pelo atleta no momento da descompressão da lâmina. Hoje, os pés de fibra de carbono podem ser utilizados até mesmo no cotidiano, com um desenho menos ‘agressivo’ do que o dos atletas.

Porém, a "Blade Runner" não é o único tipo de prótese disponível para paratletas. Para os esportistas amputados acima do joelho, existe uma forma de manter o movimento natural das pernas por meio de joelhos mecânicos, melhorando ainda mais o desempenho de atletas do salto em distância, por exemplo, em que a flexibilidade e a boa impulsão dos joelhos são fundamentais.

Assim como as próteses de Pistorius, esse outro tipo de acessório também consiste em lâminas fabricadas em fibra de carbono para o lugar dos pés, por conta do pouco peso e da flexibilidade desse material. Porém, o grande segredo se encontra dentro do joelho mecânico, onde pequenos cilindros, que funcionam à base de hidráulica, dão estabilidade e minimizam a perda de energia do atleta, assegurando que toda a força gerada por ele seja empregada em sua impulsão.

Jairo Blumenthau explica como se formou o Team Össur, equipe de paratletas de alto rendimento apoiados pela empresa: “Em cada centro de ortopedia, de cada cidade, de cada país, há um paciente diferenciado, batalhador, que faça coisas legais mesmo após a amputação. Isso merece todo o apoio. Chegou uma hora que todo mundo estava usando os pés da Össur para correr e praticar esportes e o mundo inteiro pediu ajuda, contando cada um a sua história. Daí, nasceu o Team Össur.” Alan Fonteles, brasileiro campeão paralímpico nos 200m rasos, é um dos atletas da equipe.

“Hoje, para alguém fazer parte do time de elite, precisa ser recordista mundial ou medalhista olímpico. Eles serão, eventualmente, até patrocinados para ganhar algum tipo de apoio e de auxílio. Além disso, existem o que chamamos de embaixadores. Se ele não é recordista mundial ou medalhista olímpico, mas se é um ícone importante para os seguidores, ele faz parte do time de embaixadores. Eles serão um modelo a ser seguido e terão algum tipo de apoio da Össur”, explica Jairo.

OUTROS TIPOS

Há, ainda, outros tipos de próteses específicas. No ciclismo paralímpico, por exemplo, o desenvolvimento é mais recente. Utilizada pelo ciclista britânico Jody Cundy na Paralimpíada de Londres-2012, um novo modelo dispensa a necessidade de tênis, pois se encaixa perfeitamente ao pedal adaptado. Dessa forma, o atleta fica "anexado" à  bicicleta. Com aerodinâmica reforçada, a peça foi feita manualmente visando aos Jogos de 2012.

Jairo Blumenthal explica a diferença entre os diversos modelos: “O grau de especialização está tão alto, que um atleta que corre os 100 metros rasos terá uma prótese diferente daquele que vai correr uma maratona. A tecnologia nos permite customizar tanto que conseguimos desenvolver produtos específicos para a modalidade que o atleta irá desempenhar. Existem as que chamamos de ‘sprint’, as de longa distância, esportes de impacto e de rotação (tênis, golfe ou lançamento de disco)... Cada modalidade exige um biotipo diferente, e os componentes da prótese também serão diferentes para cada um deles.”

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Após Pistorius, saltador Markus Rehm quer disputar uma Olimpíada

Paratleta tem números melhores do que o atual campeão olímpico

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2016 | 05h00

Na última edição do Mundial de Atletismo Paralímpico, que aconteceu em Doha, no Catar, no ano passado, o alemão Markus Rehm se tornou o centro das atenções e reacendeu uma velha discussão. Ele, que não tem a perna direita desde a adolescência (vítima de um acidente de barco), conseguiu o ouro na prova de salto em distância ao atingir impressionantes 8,40m, marca que o daria o ouro na Olimpíada de Londres, em 2012. Na ocasião, o britânico Greg Rutherford saltou 8,31m para ficar com o título olímpico.

A reação foi inevitável: rapidamente, iniciou-se uma campanha para que Rehm participasse dos Jogos Olímpicos do Rio, para disputar medalhas com atletas sem deficiência. Em 2014, Markus chegou a ser campeão alemão de atletismo na prova do salto em distância. Mesmo assim, continua desconsiderado pelo Comitê Olímpico Alemão e pela IAAF, a Federação Internacional de Atletismo, quando se trata de uma possível participação no Rio-2016.

"Eu quero competir contra atletas sem deficiência, mas eu não queria ter que enfrentar os tribunais. Eu só quero trazer uma maior proximidade entre os paratletas e os atletas olímpicos. Eu olho para o ranking mundial, e no quanto eles podem ir longe e até onde eu consigo ir, que é definitivamente o que eu estou procurando", disse Rehm à agência AFP logo após a marca de 8,40m no Mundial Paralímpico de Doha. Na hora de saltar, ele se apoia justamente na perna direita, que possui a prótese.

Markus também é um atleta que faz parte do Team Össur e tem suas próteses desenvolvidas pela empresa. O diretor da fabricante no Brasil, Jairo Blumenthal, por sua vez, se mostra otimista com a possibilidade do alemão de disputar os Jogos Olímpicos: “O Markus é o possível próximo atleta paralímpico a poder competir com os atletas sem deficiências. Ele está na fase de tentar ganhar o direito que o permitiria disputar com os demais. Ele é dono de marcas absolutamente impressionantes, um fenômeno, assim como o Alan e o Oscar. Isso ajuda muito a desmistificar essa questão do deficiente físico, mostrando que ele nada mais é do que um atleta em potencial que, com o equipamento adequado, tem chance de competir em igualdade com os demais”, afirma.

De qualquer forma, Rehm sabe que não pode deixar esta indefinição atrapalhar sua preparação para os Jogos Paralímpicos de 2016, em que ele espera quebrar seu recorde: "Os próximos seis meses serão de muito trabalho, treinar duro e pensar nos Paralímpicos", afirmou o alemão em fevereiro ao Comitê Rio-2016, quando esteve na cidade para um evento na Praça Mauá, em que venceu os atletas sem deficiência. Atualmente, Markus trabalha com sua equipe em argumentos a serem apresentados à IAAF.

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Leveza e velocidade: conheça as cadeiras adaptadas da Paralimpíada

Equipamentos são testados em túneis de vento antes de aterrissarem no Rio

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2016 | 05h00

Não é apenas na questão das próteses que a tecnologia nos esportes paralímpicos se destaca. Na maioria das modalidades, inovações estão constantemente aprimorando os aparelhos e aumentando o nível de competitividade dos esportistas. Até mesmo os esportes que se praticam sentados, como no atletismo sobre cadeira de rodas e no basquete paralímpico.

Determinadas categorias do atletismo de pista e de rua são dedicadas a amputados e paraplégicos que competem em cadeira de rodas. Para desenvolvê-las e aprimorar o tempo dos atletas, foram feitos uma série de testes, inclusive em verdadeiros túneis de vento. Isso acabou aperfeiçoando a aerodinâmica os assentos.

A equipe britânica utiliza as cadeiras fabricadas pela empresa BAE Systems. No laboratório, localizado em Warton, na Inglaterra, as cadeiras são testadas em um túnel de vento que, acredite, também é usado para testar aviões-caça que viajam a mais de 300km/h. Nas experiências, foi aprimorada a ideia de como os atletas interagem com o ar, evidenciando mudanças até mesmo na postura dos atletas.

No caso das cadeiras do basquete adaptado, a aceleração não é a prioridade, mas sim a leveza e a facilidade de manuseio. O time britânico conta com o apoio da fabricante de automóveis BMW na produção dos assentos.

Comparando com a cadeira utilizada pela mesma equipe em Pequim-2008, o equipamento usado em Londres-2012 já era 2kg mais leve. Para o Rio, é esperado que o peso diminua ainda mais, facilitando a movimentação dos atletas. Já que é comum que as cadeiras tombem em quadra, também foi desenvolvida uma mecânica para que os atletas se levantem mais rapidamente.

As cadeiras que foram usadas pelos britânicos em 2012 já eram geradas em modelos computacionais e escaneadas em 3D. A fabricação foi feita por termoformação, que molda resinas por meio de pressão e temperatura.

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A tecnologia no preparo do paralímpico mais rápido do mundo

Alan Fonteles fala sobre importância do equipamento adequado e revela vontade de disputar a Olimpíada

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2016 | 05h00

Uma das maiores potências paralímpicas do planeta, o Brasil tem, desde 2012, um novo ídolo: há quatro anos, o então desconhecido Alan Fonteles surpreendia o mundo do esporte ao bater o ícone Oscar Pistorius nos 200m da Paralimpíada de Londres. De lá para cá, Alan se consagrou como o atleta paralímpico mais rápido da atualidade. Nos Jogos do Rio, ele buscará a medalha de ouro em quatro provas diferentes e, como não poderia deixar de ser, também conta com o apoio da tecnologia para continuar quebrando marcas e se aprimorando cada vez mais.

Alan perdeu as duas pernas abaixo do joelho ainda bebê, quando tinha 21 dias de vida, por uma falha congênita na formação de seus membros inferiores. Porém, em nenhum momento a deficiência atrapalhou a força de vontade e determinação do atleta, que, aos oito anos, já demonstrava interesse justamente pela corrida. Ele iniciou sua vida no atletismo aos 10 anos e, aos 13, já se sagrava campeão brasileiro. Apesar do sucesso de hoje, Alan não esquece das dificuldades que enfrentou para realizar o sonho de ser atleta.

“Todos os atletas usam próteses de fibra de carbono, e eu só fui conseguir este modelo no ano de 2008, ou seja, seis anos após meu início no atletismo. É fundamental. Sem elas, não consigo correr”, conta. Ele ainda lembra do obstáculo que era correr com seus equipamentos antigos: “Antes, eu tinha uma prótese feita de madeira. Bem rústica mesmo, um modelo bem simples. Prejudicava bastante, era uma prótese dura, que não tinha retorno, não tinha absorção de energia… Era muito complicado. Também machucava bastante, sentia muita dor na perna e isso ainda limitava meus treinamentos. Treinava dois dias e tinha de ficar fora no terceiro. Além de tudo, isso atrapalhava minha semana de treinos.”

As próteses adequadas são indispensáveis para fazer um paratleta correr em igualdade com os demais, porém, Alan garante que o treinamento e o rendimento individual são o fator-chave para que o esportista tenha sucesso: “O diferencial sairá do treino e da capacidade de cada um. Não é só colocar a prótese e sair correndo achando que terá os melhores resultados”

Atualmente, no entanto, Alan já conta com todo suporte necessário para um atleta de alto nível. “Hoje, eu treino no NAR (Núcleo de Alto Rendimento do Esporte), em São Paulo. Lá, temos todos os laboratórios à disposição. Testes de salto, de supra-velocidade, ultra-velocidade... Todos os testes são captados para melhorar nosso desempenho. Haverá toda a análise, a conversa com o treinador, os apontamentos de onde deve ser trabalhado para que o atleta possa melhorar. É o uso da tecnologia nos treinos nos ajudando a melhorar dentro das pistas.”

Alan ainda conta que treina 8 horas por dia, de segunda a sábado, em períodos de 4 horas, entre a prática na pista e o trabalho de academia. Principal membro brasileiro do Team Ossur, ele também ajuda nos testes e nos ajustes das próteses desenvolvidas pela empresa: “A Ossur tem uma representante que fica em Porto Alegre, onde a prótese chega para poder estar testando encaixes e outras coisas. Eu participo muito. Eles me deixam ficar lá dentro, olhando tudo, observando como funciona enquanto eles mexem e fabricam. Sou eu quem dou este feedback para eles e digo se é boa, se é ruim, se aperta, se é macia, se tem bom retorno, se é confortável… É um trabalho em conjunto”.

Em 2007, o sul-africano Oscar Pistorius quebrou os antigos recordes mundiais paralímpicos nos 100m e 200m, marcando 10s91 e 21s58, respectivamente. Hoje, estes dois recordes são de Alan Fonteles, que detém impressionantes 10s77 e 20s66, além de ter derrotado o próprio Pistorius nos Jogos Paralímpicos de Londres. Levando isso em conta, existe muita expectativa para que Alan seja o próximo corredor amputado a disputar uma Olimpíada. O brasileiro garante foco total na Paralimpíada do Rio, mas também admite a vontade de competir entre os atletas que não possuem limitações.

“Penso em Olimpíada, sim. Porém, meu foco total está nesta próxima Paralimpíada, já que será no Brasil. Quem sabe daqui a quatro anos eu possa estar participando e fazendo história no esporte olímpico também”, afirma o atleta paralímpico mais rápido do mundo, que finaliza traçando suas próprias expectativas para os Jogos do Rio.

“A expectativa é a melhor possível: tentar conseguir o maior número de medalhas de ouro, defender meu título dos 200m dentro de casa… Enfim, o objetivo é fazer história, dar alegria para o povo e correr o mais rápido possível. Ainda tenho algumas Paralimpíadas para disputar, portanto, quero continuar construindo a minha história.” No Rio, Alan Fonteles está confirmado para as disputas de 100m, 200m, 400m e do revezamento 4x100m.

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