Paulo André luta para fazer história no atletismo brasileiro

Paulo André luta para fazer história no atletismo brasileiro

Atleta mais cotado para quebrar a barreira dos 10s nos 100m corre no Troféu Brasil de Atletismo nesta sexta-feira

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2018 | 05h00

Aos 20 anos, o velocista Paulo André Camilo de Oliveira vive duas realidades diferentes. Nas pistas, ele tenta quebrar um tabu histórico: correr os 100m abaixo dos 10s. Com a marca de 10s06, obtida em julho, ele é o favorito para superar Robson Caetano, que correu a prova mais nobre do atletismo em 10s em 1988. Foi a melhor marca do Brasil na história. No resto do dia, Paulo vive os dilemas de quem acabou de sair da adolescência. Só colocou brinco quando fez 18 anos. Antes, o pai não deixou. Até hoje, a mãe liga para saber onde ele anda (ou corre). Mas a história não precisa ser resumida tão rapidamente só porque ele é o mais rápido do Brasil. Existem detalhes que merecem mais atenção.

Paulo é a ponta mais afiada de um tridente que vem trazendo esperança nas provas de velocidade para o Mundial do ano que vem e os Jogos de Tóquio. As outras pontas são Jorge Henrique Vides e Derick Souza, que registram as marcas de 10s08 e 10s10, respectivamente. Os três estarão competindo nesta sexta-feira no Troféu Brasil de Atletismo, em Bragança Paulista.

Paulo André construiu sua carreira e ainda treina em Vila Velha, no Espírito Santo. Embora represente o Esporte Clube Pinheiros nos torneios, ele treina longe dos principais centros de atletismo. É proposital. Ele e seu pai, Carlos Camilo, criaram um projeto social de iniciação esportiva que procura desenvolver o esporte em um estado sem tradição no atletismo. É uma bandeira. Hoje, 30 crianças treinam no projeto chamado "Campeões do Futuro". Tudo é improvisado: os cones são emprestados e os dardos para arremesso são feitos de bambu. Paulo começou a correr no projeto e se tornou o exemplo para os mais novos. Sim, é possível.

O pioneirismo trouxe desafios adicionais. Até dois anos atrás, Paulo treinava em uma pista de terra em Vila Velha. Sofria com lesões. Agora corre em uma pista de boa qualidade da Universidade Federal do Espírito Santo. Só ele treina lá, pois a demanda é baixa. A equipe de três profissionais que o acompanha foi formada na base da parceria. Eles não ganham nada. Faltam patrocinadores.

O nome do seu pai não pode passar batido. Velocista de sucesso na década de 1980, Carlos Camilo é o trampolim para o sucesso do filho. Embora tenha sido cortado dos Jogos de 1984 por uma lesão, ele correu no Mundial dois anos depois ao lado de lendas como Carl Lewis. Ao longo da carreira, aprendeu os atalhos para um atleta de ponta. Literalmente. “Às vezes, o lado externo tem tanta influência quanto os treinamentos para um atleta. É preciso tranquilidade para não sentir essa pressão por resultados”, diz.

Os dois tiveram dificuldade para separar os papéis de pai, atleta, filho e treinador. Para transmitir as orientações de treinador, Camilo se valia da autoridade de pai. As coisas melhoraram neste ano.

A trajetória de Paulo André mostra um equilíbrio entre a herança genética e a influência do meio. Tudo ajudou para que fosse corredor. Na infância, seu apelido era Foguete. Ganhava todas as corridas e era impossível fugir dele no pega-pega. Ele ganhou três bicicletas nas corridas nos Jogos Escolares. O talento nato foi lapidado pelo pai. Mas as coisas não vieram prontas. Paulo quase foi jogador de futebol. Depois de ser aprovado para atuar nas categorias de base do Bahia, sua mãe pisou no freio da carreira antes mesmo que ela começasse. Não queria que seu filho de 13 anos saísse de casa tão cedo. Ele esperneou, mas não foi.

Ele não se arrepende. Continuou correndo, mas sem a bola. Dentro e fora das pistas. Foguete fala rápido, quase atropela as palavras. Agitado. Transmite uma energia boa, aquela eletricidade dos jovens, que querem tudo para ontem, e uma centelha de campeão. Seu nome já está na história como recordista sul-americano. Agora, pensa em correr na casa dos 9s. Os planos estão na ponta da língua do pai/treinador: chegar à final olímpica em 2020 e brigar por uma medalha em 2024. “Seis centésimos não são nada, mas, ao mesmo tempo, é muito tempo. Exige treino e atenção aos detalhes. Estou tão longe, mas estou tão perto”, diz Paulo André. 

 

 

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