Henrique Pinheiro/Estadão
Renan Jansen Lopes mostra preocupação, mas acredita em legado na mobilidade Henrique Pinheiro/Estadão

Periferia mostra insegurança com o legado dos Jogos do Rio

População teme o fantasma do desemprego após Olimpíada

Leonencio Nossa, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2016 | 05h00

Sem ingressos para os Jogos Olímpicos, moradores das comunidades próximas às arenas oscilam entre a crítica ao torneio que bloqueia o trânsito e interrompe linhas de ônibus e a preocupação com uma ressaca pós-Olimpíada. Até aqui, a Rio-2016 tem mantido empregos e contribuído com o megapoliciamento, para uma certa contenção da criminalidade e do tráfico de drogas, que volta a dar sinais de força em meio à falência das UPPs, as unidades de polícia pacificadora.

Dono de uma academia na Cidade de Deus, complexo de favelas a poucos quilômetros do Parque Olímpico, na região de Jacarepaguá, zona oeste, Renan Jansen Lopes de Farias, de 32 anos, afirma que o maior temor não é o desemprego a partir da conclusão dos terminais dos ônibus do BRT e outras grandes obras olímpicas, mas a queda de movimento no setor de serviços. “A maioria dos meus alunos trabalha em limpeza, padarias e restaurantes”, disse.

A Olimpíada só está no início e o fantasma da redução da oferta de trabalho começa a aparecer. Farias conta que manteve o valor da mensalidade em R$ 50 para atender alunos que perderam emprego com carteira assinada e buscam renda na informalidade.

“Em termos de mobilidade, acertando as arestas, vai ficar um legado importante. Mas a Olimpíada está passando do outro lado. Aqui a gente vive com os problemas de falta de segurança e de aumento do desemprego.”

Formado em educação física, Farias montou a academia há quatro anos, na mesma época da implantação de uma UPP na entrada do bairro. Os primeiros três anos foram de preocupação com o orçamento, a compra de máquinas e a campanha para formar uma rede de cerca de 150 clientes. Neste ano, ele deixou de abrir a academia em duas ocasiões em razão de tiroteios na rua.

“Quando cheguei aqui, há quatro anos, estava muito bom. Nos últimos meses, a comunidade voltou a ter conflitos.”

A poucos metros da academia, a UPP está depredada e suja. Os policiais dizem desconhecer confrontos nas últimas semanas, mas se adiantam em explicar que não podem dar certeza, pois revezam o trabalho com outras equipes. Ao lado, latões de lixo e carcaças de carros foram pichados com as iniciais “CV”, uma referência à facção criminosa Comando Vermelho, e as palavras “gana” e “fé”.

CONTRASTES

Quem percorre a zona oeste pode ter a impressão que o complexo olímpico na área do antigo autódromo de Jacarepaguá é uma espécie de nave estrangeira estacionada temporariamente numa área de avenidas largas, condomínios de classe média e especulação imobiliária. É uma parte do Rio quase sem alma, especialmente para o turista acostumado ao movimento da orla da zona sul.

Marcada por shoppings e um traçado urbano voltado a automóveis, a região dos Jogos não tem morros. O cinturão de favelas a poucos quilômetros parece estar distante. Lá, porém, moram dezenas de milhares de pessoas que trabalham nos prédios de comércios e residências.

Do outro lado da cidade, no morro Santa Marta, em Botafogo, zona sul, a pequena empresária Luana Mendes, 31 anos, mantém há sete anos um salão de beleza que funciona num espaço de dois por três metros. Enquanto faz as unhas, uma cliente assiste pelo televisor ao jogo da seleção feminina de futebol contra a China, disputado na quarta-feira passada.

Luana, que mora em Duque de Caxias, cidade na Baixada Fluminense, observa que a Olimpíada só não significa para ela apenas um evento de TV porque, nestes dias, tem saído mais cedo de casa para chegar ao serviço. Linhas de ônibus foram suspensas. Bloqueios policiais tornaram-se frequentes.

Ela relata que a UPP e as obras e projetos do governo melhoraram as condições de vida dos moradores da favela. Lamenta, contudo, que a segurança voltou a demonstrar “falhas” e o custo de vida triplicou.

PREÇOS 'SURREAIS'

“O preço do aluguel de uma quitinete pulou de R$ 300 para mais de R$ 1 mil. Tive que me mudar com meu marido para Duque de Caxias. Fui expulsa pelo aumento de preços. Só estou aqui porque sou dona do salão”, contou ela.

Dados do IBGE mostram que Duque de Caxias tem uma taxa de desemprego em torno de 10%, índice pouco abaixo do nacional, de 11%. A crise no setor de petróleo e as poucas obras no Estado impactam os municípios.

A exceção é justamente a capital, que mantém uma taxa de desemprego de cerca de 5%. A previsão é que a conclusão de grandes obras tire o trabalho de pelo menos 30 mil pessoas e um número ainda não contabilizado no circuito de hotéis, restaurantes, supermercados e lojas. “As pessoas perderam a noção de preços. A gente vive geograficamente na zona sul, mas socialmente na periferia”, disse Luana.

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Aumento dos aluguéis faz classe média subir o morro no Rio

Gentrificação atinge Chapéu Mangueira e Babilônia

Leonencio Nossa, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2016 | 05h18

Uma boa parte das casas do morro da Babilônia tem vista para o trecho de areia de Copacabana que abriga a arena do vôlei de praia. A estrutura de serviços oferecida aos 5 mil moradores dessa área elevada do circuito da Rio-2016 deixa a desejar não apenas em saneamento, saúde e educação, mas também em transporte e comunicação.

Só depois da chegada do aplicativo Uber que motoristas de táxi aceitaram subir as ladeiras. Os carteiros ainda resistem. Uns alegam falta de segurança. Outros, a falta de CEP nas ruelas. Assim, as cartas são deixadas em escaninhos da Associação de Moradores.

Nos últimos anos, albergues e pousadas foram abertos no bairro e na comunidade ao lado, o morro do Chapéu Mangueira, para atender estrangeiros interessados na vista panorâmica. Dona de um bar no ponto mais alto do Chapéu Mangueira, a comerciante Débora Zerbenato observa que no mesmo período do ano passado as mesas estavam cheias no horário do almoço.

Não é só a crise econômica que afeta o negócio. Agências e autoridades estrangeiras têm recomendado aos turistas olímpicos que fiquem distantes das favelas. “Espero que os Jogos tragam movimento não apenas para a cidade lá embaixo”, disse.

Os antigos moradores da Babilônia passaram a enfrentar um novo desafio. Em razão do aumento dos preços dos aluguéis, muitos têm deixado a comunidade, que acolhe agora uma classe média expulsa, por sua vez, de áreas mais nobres da cidade. É a gentrificação, termo da moda, que chegou ao morro que serviu de cenário para Rio Babilônia, um filme do cineasta Neville de Almeida, de 1982, que mostra as contradições da cidade.

O presidente da Associação de Moradores da Babilônia, André Luiz Abreu de Souza, avalia que o perfil humano da comunidade tem sido alterado pelo boom imobiliário, que provocou o aumento dos preços dos aluguéis das quitinetes (até R$ 1.200 por mês) e da energia.

“O nordestino está voltando para o Nordeste ou sendo expulso para municípios distantes daqui. É o choque de ordem, uma asfixia. Agora, além de empresários, quem também sobe aqui é a classe média, que não consegue pagar para morar nas áreas planas. Em pleno século 21, tenho que discutir saneamento básico na zona sul. A verdade é que o morador da Babilônia não recebe nem carta em casa. O legado desses Jogos é a militarização dos morros”, disse o líder comunitário.

Souza lembra que o governo anunciou o projeto Morar Carioca Verde, para melhorar as casas em áreas de risco nas comunidades da Babilônia e do Chapéu Mangueira. Orçado em R$ 43 milhões, o projeto já consumiu R$ 60 milhões. Apenas um terço das casas foi entregue. O esfacelamento da UPP traz de volta o pesadelo da criminalidade.

“Para nossa sorte e nossa falta de sorte, a UPP acabou”, afirmou ele, que associa o Rio do prefeito Eduardo Paes (PMDB) à cidade de grandes intervenções urbanas do prefeito Pereira Passos (1902 a 1906) e do governador da antiga Guanabara Carlos Lacerda (1960 a 1965), criticados por remoções violentas de “cabeças de porco”, cortiços e favelas da área central. “Eduardo Paes vai ganhar a medalha de ouro em remoção. Já superou seus antecessores.”

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