Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

‘Picasso com Dali’, bar do Bin Laden acolhe atletas

Próximo à Vila Olímpica, boteco atrai jogadores e cartolas e até banheiro suspeito recebe elogios

Monica Manir, enviada especial ao Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2016 | 17h00

Amazing! Sentado na mureta trincada, o levantador de peso Briken Calya, categoria 69 kg, amaciava a vida levantando mais um copo de cerveja. “Amazing”, repetia, piscando para uma brasileira volumosa e mirando em seguida o mirrado Bin Laden, que enchia dois copos de vodca e vendia mais um maço de cigarro. 

Como vários ali, Briken é cliente assíduo da birosca que virou point dos atletas e dirigentes olímpicos. “Se você quer ser feliz, vem pra cá”, diz Izmir Smajlay, saltador em distância, albanês como Briken, criando um slogan involuntário para o bar. Alheio a elogios e brindes, Bin Laden tirava do bolso um maço desarranjado de notas, a maioria de R$ 10 e R$ 20, e as esparramava no balcão.

A Original de 600 ml é R$ 10, a Heineken de 600 ml é R$ 10, a Antarctica e a Itaipava de 1 litro são R$ 10. Fazia o troco e enfiava tudo de novo no bolso esquerdo, enquanto arrastava o chinelo bar adentro desviando de Sebastian, o cão, que espichava o corpão na cozinha empilhada de caixas, garrafas e mais um sem-fim de coisas. 

Bin Laden, de 62 anos, nasceu José Felipe de Araújo, na Paraíba, mas virou árabe postiço depois da queda das Torres Gêmeas e da ascensão de um moço barbudo como ele. Há uma década abriu o bar na Rua Abraão Jabour, na Barra, bar que já foi sentado abaixo pela Prefeitura. “A gente ficou tudo na rua”, lembra Amaral, de 29 anos, o filho do meio entre cinco, que se agita entre as mesas servindo pizzas de borda catupiry e fazendo selfies. Um marroquino diz que quer comprar o vinagre que está sobre uma das mesas de bilhar. Amaral volta com um vasilhame cheio e diz que é free. “Esse é o cara”, diz o marroquino. 

Reerguido, o bar ganhou o nome de Pizzeria Specialle e alçou certa saliência durante o Pan, em 2007. Mas bombou mesmo na Olimpíada. “Em dia normal, eram 20 caixas de cerveja por dia; hoje são de 40 a 60”, contabiliza Amaral. A clientela diz que Bin Laden, cerca de 15 minutos a pé da Vila, é um oásis na região. Oásis pelo preço do farto PF (R$ 14) e da pizza família (R$ 40, em média). Mas também pelo que os gringos chamam de veracidade. “Ele representa de fato um bar carioca”, afirma o venezuelano Andrés Tavares, que trabalha na Vila dos Atletas, sedento de algo autêntico à volta. 

Abdellaziz Brahimi, de 69 anos, dirigente argelino, era dos mais entusiasmados. “Quer saber, eu adoro esse banheiro”, confessava, vindo de uma latrina verde entupida de sedimento marrom nos fundos do bar. “Conheço o mundo todo, isso, sim, é natural.” Para os fisioterapeutas espanhóis Angel Basas e Manuel Roman, o estabelecimento está mais para um chiringuito, bar de praia. “Mas, na Europa, pelas condições de higiene, ele já estaria fechado”, analisa Angel, bebendo sua primeira cerveja depois de 25 dias de Rio.

Os dois comiam a granola que trouxeram, mas se deleitavam com a atmosfera. “É uma coisa cosmopolita e regional, Picasso com Dali”, teoriza Angel. Na TV tubo, o Brasil avançava no vôlei. No balcão, Bin Laden não entendia patavina o que pedia um atleta galalau alemão, que fugia da foto. Bin Laden levantou a mão, abrindo bem entre os dedos. “Vodca? R$ 5. Duas?” E botou a mão no bolso. 

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