Pioneiro da canoagem brasileira vendeu videocassete por seletiva olímpica

Jefferson Lacerda defendeu o Brasil nos Jogos de Barcelona em 92

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 17h00

Em 20 minutos de conversa com o ex-atleta Jefferson Lacerda pelas margens do rio de Contas, ele foi cumprimentado seis vezes. O integrante da primeira delegação brasileira da canoagem em uma Olimpíada (Barcelona-92) e responsável pelo pontapé inicial para colocar Ubaitaba no mapa da canoagem é uma celebridade na Bahia.

Aos 54 anos, Lacerda exibe com orgulho os “gominhos” da barriga, resultado de uma vida inteira dedicada ao esporte. Antes da canoagem, ele praticou handebol e caratê.

Nascido em Ubaitaba – hoje, ele vive em Itabuna, também no sul da Bahia –, ele tem todos os detalhes da aventura de 30 anos atrás na ponta da língua. Conta que, no começo, precisava usar remos remendados e toras de bananeira para aperfeiçoar o equilíbrio. Em 1987, os atletas treinavam no rio com caiaques de passeio, os chamados “surfinhos”. Destaque nas competições locais, Lacerda teve de vender um videocassete JVC, quatro cabeças, uma raridade na época, para financiar a viagem para a seletiva olímpica na raia da USP.

Com a vaga garantida, o baiano era um dos destaques do time. Disputou os Jogos no K2 (caiaque de dupla) nas provas de 500 e 1.000 metros, ao lado de Álvaro Kolowski, mas não se classificaram para as provas decisivas. Realizou o sonho, mas voltou frustrado. “O resultado poderia ter sido melhor, mas eu mostrei que era possível chegar à Olimpíada”.

Em 1996, quase conseguiu um repeteco. Em sua melhor fase, conseguiu a classificação para Atlanta e era uma esperança de medalha. Uma lesão no ombro impediu sua viagem.

A única coisa que faria diferente seria começar a canoagem mais cedo. Ele iniciou aos 27, chegou aos Jogos com 30 anos. Ao todo, são 70 medalhas de ouro em disputas individuais, duplas ou quádruplas. Ele participou de dois mundiais, conquistou seis sul-americanos e tem três medalhas de pan-americanos.

Foi técnico da seleção brasileira entre 1998 e 2006 e, por meio de cursos de intercâmbio, principalmente em Cuba, lançou as bases da modalidade na Bahia. Quando deixou o cargo, formou o técnico atual Figueroa Conceição, que foi seu aluno. Ele é um símbolo para os novos atletas e tem participação ativa na escolinha da Associação Cacaueira de Canoagem, entidade que ajudou a fundar lá atrás.

Por falta de incentivo e patrocínio – ele conta que não havia Bolsa-Atleta na época em que foi atleta –, ele sempre teve dois empregos. Há 28 anos, ele é avaliador judicial e oficial de justiça em Ubatã, cidade vizinha a Ubaitaba.

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