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Política é o subtexto dos grandes filmes sobre os Jogos Olímpicos

Confira produções que retrataram a competição

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2015 | 07h00

Eles correm na praia, os atletas de Carruagens de Fogo. E sobre suas imagens eleva-se a partitura eletrônica de Vangelis, que ganhou um dos quatro Oscars atribuídos ao drama do inglês Hugh Hudson. Melhor filme, roteiro, figurinos. E trilha. Tendo virado sinônimo de excelência esportiva, o tema de Vangelis tornou-se também favorito em festas de formatura e bailes de debutantes. Dois velocistas, o missionário católico Eric Liddell e o estudante judeu de Cambridge Harold Abrams, correm pela glória de Deus. O judeu contrata um treinador ítalo-árabe. A disputa na Olimpíada de 1924 não é só esportiva ou religiosa. O antissemitismo está no ar e a luta de classes é feroz nos bastidores.

Carruagens de Fogo é um drama poderoso que comporta múltiplas leituras. Poderia ter vencido o Oscar de direção de 1981, mas, em plena era Ronald Reagan, a Academia preferiu contemplar o ator e diretor Warren Beatty, por Reds. Nada mais avesso ao espírito de Reagan que aquela celebração do comunismo. Com certeza não foi mera coincidência.

Nas muitas vezes em que o cinema se voltou para os Jogos Olímpicos, havia sempre, ou quase sempre, uma intenção política. Em 1936, Berlim sediava a Olimpíada, programada para celebrar o super-homem ariano. Leni Riefenstahl, que já dirigira o documentário sobre o congresso do Partido Nazista que avalizou o projeto insano de Adolf Hitler - o Reich que iria durar mil anos -, foi chamada para, de novo, comandar a operação.

Leni, anos mais tarde, se defenderia dizendo que fazia arte, não política, mas os dois filmes são épicos de exaltação nazista. Hitler é endeusado em O Triunfo da Vontade e ganha destaque em Olympia. A única coisa que se pode dizer em defesa de Leni é que seu filme documenta provas importantes que os atletas nazistas perderam. O maior insulto ao mito ariano foi que um negro norte-americano, Jesse Owens, ganhou a prova de velocidade. E Leni reconhece a beleza, onde está. Sua câmera capta o esforço dos músculos e o êxtase no rosto de Owens. São imagens inesquecíveis.

Em 1960, apesar da nouvelle vague francesa, o cinema italiano era o mais avançado do mundo, graças a três grandes filmes - A Aventura, de Michelangelo Antonioni; A Doce Vida, de Federico Fellini; e Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. Os três colocavam na tela a complexidade da sociedade italiana pós-neorrealismo. Naquele ano, Roma sediou a Olimpíada. Romollo Marcellini, que havia sido um nome importante do cinema fascista, voltou à ativa e fez um belíssimo documentário. Filmou os atletas. O esforço, o sofrimento, o êxtase.

Se alguma vez celebrou o regime de Mussolini, o diretor aqui expiou a culpa exaltando o homem universal, sem fronteiras. Quatro anos mais tarde, o mestre japonês Kon Ichikawa fez o documentário sobre a Olimpíada de Tóquio. Grandes companhias japonesas haviam desenvolvido novas técnicas e instrumentos de captação de imagens e sons. O filme de Ichikawa é mais uma celebração dessa técnica que do esforço humano. Por isso mesmo, é o menos emocionante, o mais ‘frio’ dos filmes sobre Olimpíada.

Em 1972, a Alemanha sediava a Olimpíada, em Munique. Oito grandes diretores (Arthur Penn, Milos Forman, Mai Zetterling, Kon Ichikawa, etc) foram chamados para documentar o evento. O filme chamou-se Visions of Eight. Só que os Jogos Olímpicos, que o Barão de Coubertin ressuscitara na era moderna para estimular, por meio do ideal esportivo, o respeito à diversidade, mancharam-se de sangue naquele ano. Em 5 de setembro, onze atletas israelenses foram feitos reféns e massacrados por integrantes do grupo terrorista palestino Setembro Negro. O fato bárbaro e cruel originou um documentário dirigido por Kevin Macdonald, Um Dia em Setembro, em 1999. Também está na base da ficção de Munique, com a qual, em 2005, Steven Spielberg encerrou sua trilogia informal sobre o 11 de Setembro, também integrada por O Terminal e Guerra dos Mundos. 

O tema de Spielberg em Munique é o comprometimento moral. O que ocorre quando a obsessão de vingança conduz à cegueira ética? A próxima Olimpíada começa em menos de um ano. Fernando Meirelles vai fazer o show de abertura. Ele dirigiu o vídeo de promoção para que o Rio sediasse o evento. Está no YouTube, no qual também está outro vídeo, sobre a desocupação de uma favela para instalação da Vila Olímpica. Na contracorrente da Cidade Maravilhosa exaltada por Meirelles, as imagens são do mais puro horror. Que ele fique só por aí, e já terá sido demais.


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