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Atletas terão refeição brasileira nos Jogos de Tóquio COB

Pré-temporada é trunfo do Brasil para os Jogos Olímpicos de Tóquio

Aclimatação no Japão, com comida brasileira e estrutura personalizada, pode ajudar o País a conquistar mais medalhas

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2020 | 04h38

Todo atleta sabe que a conquista de uma medalha olímpica começa no início de sua carreira. Mas há outros fatores que contribuem. No caso dos Jogos de Tóquio, passará inevitavelmente pela aclimatação no Japão, que tem culinária e cultura diferentes das que os brasileiros estão acostumados e um fuso horário de 12 horas de diferença.

Pensando nessa reta final, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) negociou a instalação de nove bases que servirão aos atletas durante os Jogos de Tóquio, que serão disputados entre 24 de julho e 9 de agosto. Em comum, todas têm semelhanças e uma estrutura mínima, mas também cada uma foi personalizada de acordo com as modalidades que vão receber.

“Trabalhamos com um conjunto de informações. Vamos pelo planejamento das confederações e procurando saber como se adaptam ao clima da vila olímpica. Para algumas modalidades é importante chegar mais cedo, para outras é interessante chegar mais tarde. Aí vamos juntando informações e organizando um planejamento de aclimatação”, explica Sebastian Pereira, gerente de alto rendimento e Jogos e Operações Internacionais do COB.

Só para se ter uma ideia, ao todo 333 atletas e comissões técnicas passaram pelas bases de aclimatação no Japão para treinamentos e simulações das operações nos locais entre 2018 e 2019. Os quartéis-generais serão instalados em Hamamatsu (que também receberá a delegação brasileira para os Jogos Paralímpicos semanas depois e que conta com uma grande colônia de brasileiros), Saitama, Sagamihara, Ota, Chiba, Enoshima, Miyagase, Koto e Chuo.

Nesse período de preparação, diversas modalidades usufruíram das sedes. As seleções de handebol estiveram em Ota, em 2018, e passaram pelas outras cidades atletismo, judô, caratê, maratona aquática, natação, vela e vôlei. Segundo o COB, no total foram realizadas seis ações em 2018 e oito em 2019 em cinco bases exclusivas para o Time Brasil e uma instalação oficial dos Jogos de Tóquio.

“É importante frisar que o COB foi uma das primeiras entidades a visitar o Japão com vistas ao planejamento olímpico, no ano de 2014. Com isso, conseguimos realizar em conjunto com o Comitê Olímpico do Japão uma troca de experiências e ajuda mútua, assim como ajudamos o COJ a se instalar para os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016”, conta Paulo Wanderley, presidente do COB.

Para além da questão de fuso horário e alimentação com comidas brasileiras, existe uma situação que requer uma logística perfeita durante a Olimpíada. A Vila dos Atletas, local de estadia dos esportistas durante o momento em que estão competindo no Japão, tem uma lotação máxima por delegação. Com isso, cada país precisa organizar direitinho quando uma modalidade dá entrada na vila no lugar da outra que encerrou sua participação.

“No início dos Jogos tem espaço suficiente para todo mundo. Já na segunda semana de competição não tem espaço. Funciona no esquema de ‘cama quente’, ou seja, uma modalidade precisa sair e dar espaço para a outra. É um xadrez que a gente faz e, principalmente para as modalidades da segunda semana, precisamos oferecer uma boa estrutura de treinamento para aclimatação”, afirma Sebastian Pereira.

Lar doce lar

Pensando no bem-estar dos atletas, o COB terá em suas bases no Japão alguns serviços comuns a todas elas. Entre as facilidades estão refeições com comidas brasileiras, espaços para fisioterapia, massoterapia e atendimento médico, lavanderia e salas de reunião. Em Ota, pertinho de Tóquio, o COB montará sua base de operação. Lá fará a entrega das malas de uniformes. O espaço é grande, para comportar 60 mil peças.

Além das nove bases, o COB vai ajudar seus atletas em duas subvilas. A primeira é Izu, distante 140 km, que vai receber o ciclismo de pista e o mountain bike. A expectativa é ter três atletas e quatro membros de delegação. Outra localidade é Sapporo, distante 1.100 km por carro e 900 km por avião, que vai receber a maratona e a marcha atlética. A mudança, para tão longe de Tóquio, ocorreu por causa do calor na sede dos Jogos. A estimativa é que quatro atletas estejam nesta subvila, com seis membros de delegação. “Estamos empenhados em ter uma excelente preparação final para Tóquio”, conclui Paulo Wanderley, esperançoso por um bom resultado em Tóquio.

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INFOGRÁFICO - Brasil terá nove bases para aclimatação nos Jogos de Tóquio

O meu relógio biológico é um Rolex. Não, brincadeira. Nós todos temos um relógio dentro de nós que sempre "sabe" exatamente que horas são, embora nem todo mundo saiba que ele sabe, ou confie nele. O relógio biológico funciona mais ou menos como uma portaria de hotel, à qual você pede para ser acordado a certa hora. Ou como um despertador, que você marca para acordá-lo. O relógio interior pode falhar - as portarias de hotel e os despertadores também falham -, mas sempre que não acreditei no meu me arrependi. O que aconteceu mais de uma vez foi que o relógio biológico me acordou e fiquei na cama, aflito para saber se a portaria iria se lembrar ou o despertador funcionar, e acabei me atrasando. E minha tese é que quando o relógio biológico não nos acorda é porque, no fundo, não queremos acordar. Algum outro instrumento instintivo que carregamos sem saber prevaleceu e neutralizou o relógio.

ENTREVISTA - Paulo Wanderley, presidente do COB

Presidente do COB revela que bases do Time Brasil no Japão não terão custos financeiros para a entidade

Entrevista com

Paulo Wanderley

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2020 | 04h37

Faltando pouco mais de seis meses para os Jogos de Tóquio, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) já utiliza suas instalações que servirão para aclimatação da delegação nacional. Desde 2014 a entidade faz visitas rotineiras ao Japão e nesta entrevista exclusiva o presidente do COB, Paulo Wanderley, conta detalhes do planejamento.

Como surgiu a ideia de ter nove sedes diferentes no Japão?

Pelas características locais, não havia disponibilidade de uma instalação única que atendesse integralmente ao nosso planejamento, como tivemos em 2008, 2012 e 2016. Existem universidades muito boas no Japão, mas algumas estavam com um custo alto ou apresentavam impedimentos de datas. Existe um grande Centro de Treinamento em Tóquio e vários outros pequenos centros específicos, por modalidade, que obviamente já estavam com a equipe japonesa. E existem vários espaços educacionais e esportivos ao redor do país, que foram indicados e apresentados ao Brasil pelo Comitê Olímpico Japonês (COJ), em conjunto com as prefeituras responsáveis. Essas são as opções que o Time Brasil está usufruindo desde 2018.

Como foi a negociação por esses espaços?

Realizamos uma negociação interessante para o Brasil para que a utilização desses espaços não gerasse custos financeiros ao COB. Existe um acordo para que, em troca da utilização desses espaços, realizemos ações sociais de promoção do esporte, dos Valores Olímpicos e de integração com a comunidade e as escolas locais. Essas iniciativa se mostrou muito positiva para o COB, para as equipes, para os atletas brasileiros e para as prefeituras locais.

Após os Jogos do Rio, os recursos no esporte diminuíram. Como o COB tem se virado diante desse cenário?

O Comitê Olímpico do Brasil teve de realizar, assim como praticamente todas as entidades esportivas do país, um trabalho de readequação orçamentária e de ações. O COB reduziu custos internos, reorganizou áreas e escopos de trabalho, reduziu custos com programas, projetos e recursos humanos. Dessa forma, tivemos de priorizar projetos e ações. Soma-se a isso uma crise econômica no país e a retração dos investimentos privados no esporte pós-2016 - cenário que já tinha sido alertado pelo Comitê Olímpico inglês que enfrentou isso pós-2012. Ao longo de todo o atual ciclo olímpico buscamos otimizar investimentos, o que nos permitirá investir em 2020 cerca de 84% de todos recursos recebidos através das Loterias Esportivas na atividade fim da entidade, que é o apoio ao esporte olímpico.

Quanto custará a operação para os Jogos de Tóquio?

O projeto ainda está em andamento. O custo final da operação será divulgado ao final dos Jogos. Temos contato direto com Comitês Olímpicos de outros países, como Austrália, Canadá e EUA, e acompanhamos os custos relacionados às suas equipes a fim de comparar com nossas ações e estimativas. Ao longo dos últimos dois anos fizemos também uma reserva financeira para cobrir essa missão, pois alta do dólar naturalmente eleva o custo final.

Por causa da distância e do fuso, acaba sendo um evento caro?

Temos sempre de considerar o tamanho da equipe brasileira, a necessidade de permanência de no mínimo 10 dias prévios à competição para a aclimatação às condições ambientais de clima e fuso horário no Japão e os custos relacionados à alimentação extra que ofereceremos aos atletas e ao transporte aéreo em um deslocamento longo de nossa equipe para o Japão.

Esse investimento pode se reverter na melhor campanha?

Não podemos garantir que teremos o melhor resultado da história. Podemos garantir que estamos trabalhando muito para alcançar resultados condizentes com o potencial do país no mundo olímpico, similares aos resultados que o Brasil obteve nos Mundiais realizados nesse último ciclo olímpico. Nossos objetivos são confirmar nosso potencial e termos surpresas mais positivas do que negativas.

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