Matt Hazlett/Divulgação
Matt Hazlett/Divulgação

Presidente do CPB diz que meta do Brasil é chegar em 5º na Paralimpíada

Andrew Parsons reconhece que desafio é grande, mas está confiante

Entrevista com

Andrew Parsons

Marcio Dolzan, enviado especial ao Rio, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2016 | 05h00

Uma das principais forças do paralimpismo mundial, o Brasil inicia os Jogos Paralímpicos do Rio-2016 na próxima semana com uma meta ousada: terminar a competição no quinto lugar do quadro de medalhas. O objetivo, estabelecido ainda em 2009, é considerado “duro e agressivo” pelo presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), Andrew Parsons, mas o dirigente acredita que o País está preparado. “A gente sabe para onde está indo, qual o objetivo e como chegar”, afirmou na quarta-feira ao Estado.

Parsons se tornou presidente do CPB em 2009, mesmo ano em que o Rio foi escolhido como sede dos Jogos de 2016. Em 2013, ele foi reeleito por aclamação. A meta de ser Top-5 no quadro de medalhas foi capitaneada pelo dirigente. Agora, às vésperas da Paralimpíada, ele reconhece que o desafio é enorme, mas confia em fechar a competição entre as principais potências.

Por que o Brasil é uma potência paralímpica?

São várias razões. Uma delas é que temos um planejamento muito eficiente, que faz sentido dentro da nossa realidade e que é compreendido por aqueles em que a gente busca apoio para efetivar esse planejamento. A gente sabe para onde está indo, qual o objetivo e como chegar. Conseguimos construir um sistema que vai desde a base até o alto rendimento. Ano passado conseguimos efetivar um programa de transição de carreira, que é um projeto que vai capacitar os atletas paralímpicos para seguirem uma carreira quando se aposentarem. Nossos patrocínios nunca tiveram um grande salto: a gente foi conseguindo entregar os resultados combinados. Tem ainda o talento do atleta brasileiro. Temos uma geração brilhante. E conseguimos encontrar um caminho em que todos remam para o mesmo lado, o comitê paralímpico, os atletas, as confederações. Isso fez com que o meio externo – governo, patrocinadores – entendesse e comprasse essa ideia. Hoje temos um círculo virtuoso.

 

O CPB estabeleceu como meta ser Top-5 no quadro de medalhas. Considerando esse ciclo paralímpico, a meta está perto de ser alcançada?

É uma meta factível, mas uma meta dura, agressiva. Se pegarmos os resultados de Londres-2012, estamos falando em ultrapassar Estados Unidos e Austrália, que são potências esportivas. Temos que pensar que os seis que ficaram na nossa frente em Londres, tudo o que a gente conquistou neste ciclo de legado, eles já têm há muito tempo. Estamos muito felizes com o nosso centro de treinamento novo, que é um dos melhores do mundo, mas Grã-Bretanha, Ucrânia, Rússia, Austrália e Estados Unidos têm isso há muito tempo. A gente está se propondo um desafio muito grande, e numa meta lançada em 2009. (Naquele ano), para chegar em quarto lugar você precisava ganhar 24 medalhas de ouro. Em Londres, foram 34, então o buraco ficou mais embaixo. Mas a gente continua com essa meta. Vamos ter que nos superar mais do que de costume. Muita coisa vai ter que dar certo.

 

No Olímpico, os Estados Unidos têm sido inalcançáveis no quadro de medalhas. Como é no Paralímpico? Há uma hegemonia?

China é inalcançável de longe. Se pegar os Jogos de Londres, pode somar o segundo e o terceiro lugares que fica longe dos ouros da China. A Rússia vinha como segunda potência, e depois vinha esse grupo intermediário com Grã-Bretanha, Ucrânia, Estados Unidos e Austrália, e logo atrás o Brasil. Com a saída da Rússia, esse grupo deu uma mexida, mas é difícil prever. Não é tão simples, achar que porque a Rússia saiu sobre todo mundo. Quem ganhava as pratas nas medalhas de ouro na Rússia não era um país só. Isso afeta todo mundo.

 

A exclusão da Rússia influencia como?

Acho que traz mais incertezas do que certezas. Por mais que você tivesse um rival muito grande, era um rival que pouca gente esperava alcançar. Quando tinha um russo competindo com um inglês, a gente torcia para o russo, porque imaginava que era um país que não tinha como alcançar. Traz muita incerteza no quadro de medalhas para todo mundo, exceto à China.

 

Excluir a Rússia foi uma medida adequada?

Acho que sim, e fiz parte dessa decisão como vice-presidente do Comitê Paralímpico Internacional. Você tinha na Rússia um sistema que não só era patrocinado pelo estado, como os atletas tinham ciência. Tinha atletas que tiravam fotos dos frascos e encaminhavam para o ministério do Esporte russo, para o laboratório de Moscou (a fim de identificar as amostras). Quando você tem um sistema em que os atletas sentem que têm uma rede de proteção é porque o sistema está completamente corrompido.

 

Diferentemente dos Jogos Olímpicos, nos Paralímpicos a gente percebe que o maior número de medalhas do Brasil se concentra justamente nas de ouro.  Por que isso?

Faz parte da nossa estratégia. Vou dar um exemplo: das Paralimpíadas de Pequim para Londres, o Brasil ganhou menos medalhas – a gente saiu de 47 para 43. Mas subimos de 16 para 21 de ouro. Claro que não queríamos ter diminuído, mas como nossa estratégia é baseada nas medalhas de ouro, a gente escolheu nosso investimento de acordo com nosso objetivo. Demos uma fortalecida nos investimentos naqueles atletas que tinham condições reais de medalhas de ouro. Não é questão de privilegiar, mas de reforçar.

 

Que tipo de reforço?

Investimento. A gente conseguiu ampliar bastante a nossa receita, e com isso tomamos a decisão de investir mais em quem tem potencial de medalha de ouro. É diferente falar em investimento em atleta ou modalidade. A gente vê a modalidade, aumenta a base de praticantes, melhora o nível dos profissionais. Mas outro ponto é pegar atletas de alto rendimento e lapidá-los. A eles, a gente acaba oferecendo um maior nível de serviços. E eles têm respondido.

 

Em quais paratletas brasileiros a torcida precisa ter especial atenção?

O Daniel Dias é um espetáculo à parte. Na natação ainda tem o André Brasil, a Joana Neves, os mais novos como o Talisson (Glock) e o Ítalo (Gomes Pereira), o Matheus Rheine... No atletismo temos uma geração muito forte, a Silvania, a Lorena, a Thalita, a Gerusa. O drama do Alan (Fonteles), ele vai voltar a ser o que foi em 2012? A gente espera que sim. Temos campeão mundial na canoagem, campeão de etapa da Copa do Mundo no ciclismo, o goalball brasileiro é atual campeão mundial, o vôlei sentado masculino brigando pelo ouro, o judô é sempre muito forte. Na esgrima o Jovane ainda vem muito forte depois do ouro em Londres, na bocha o Brasil é o país que teve o melhor resultado de qualquer país na história dos Jogos. Tem o hipismo voltando a ter chances de medalha, e o Futebol de 5, no qual o Brasil é o time a ser batido.

 

Algum esporte que vai surpreender?

O halterofilismo, o tiro, o voleibol e o goalball feminino, além da canoagem.

 

O CPB optou em escolher o porta-bandeira em votação entre os atletas. Por quê?

Pelo fato de a Paralimpíada ser em casa, a gente achava que significava mais ser porta-bandeira aqui do que em outras edições de Jogos, e achamos que os atletas é que deveriam escolher quem eles queriam. Em edições passadas escolhemos entre dirigentes, chefia de delegação. A gente nunca fez um concurso público, como foi o caso do Comitê Olímpico do Brasil, e que foi bacana também, porque afinal os caras vão levar a bandeira do nosso país. Mas queríamos ouvir a voz dos atletas que vão participar.

 

Qual o legado que vocês esperam que estes Jogos deixem para o País?

São dois. Um é que a gente conseguiu um centro de treinamento que vai nos deixar em pé de igualdade com outras potências. Mas para ter um centro de treinamento você precisa de manutenção. Ele custou R$ 300 milhões vindos de diferentes níveis de governo, e obviamente que a manutenção é um desafio. Ano passado, no Congresso Nacional, desencavaram o Estatuto da Pessoa com Deficiência, que no final acabou virando Lei Brasileira da Inclusão (LBI). Ela fala de vários aspectos, e a gente conseguiu dialogar com a Câmara e com o Senado um dispositivo que aumentava a Lei Agnelo-Piva para o Paralímpico. A gente saiu de 0,3% da arrecadação das loterias para 1%. Mais do que triplicamos esse dinheiro. Em números, saímos de R$ 38 milhões para cerca de R$ 130 milhões. Com isso, conseguimos administrar o centro de forma tranquila. É um legado que complementa o outro.

 

Então, até em função dessa lei, o CPB não tem o receio de que no próximo ciclo paralímpico haja queda de receita?

Não, não temos esse receio. Um dos maiores legados que adquirimos nos últimos anos foi a credibilidade. A gente chega para o parlamento, para os patrocinadores, para o governo, e a gente é levado a sério. A gente sai muito fortalecido.

 

Há algum legado intangível?

Ele vem com os Jogos, quando as pessoas vão assistir, seja pela TV ou comprando ingresso. Ninguém consegue ver uma prova dos Jogos Paralímpicos e ficar impassível ou aquilo não mexer com ele de alguma forma. Isso muda a forma como você percebe as pessoas com deficiência. Você vê aí muito mais as coisas que eles conseguem fazer do que as coisas que eles não conseguem fazer. Isso mexe na forma como você os encara e transporte isso para fora do esporte.

 

Na semana passada houve uma polêmica naquela campanha paralímpica que foi estrelada por dois atores sem deficiência. O CPB apoiou a campanha. Considera que foi um erro?

Não, não vejo erro algum, tanto que fiz questão que eles (Cléo Pires e Paulo Vilhena) estivessem aqui conosco hoje. Acho que alguns setores não estão preparados para alguns tipos de abordagem, e aí até alguns segmentos de pessoas com deficiência. Nossa mensagem estava muito clara. Não era uma propaganda dos Jogos Paralímpicos; propaganda de Jogos Paralímpicos a gente mostra imagem de competição. Aquilo era uma campanha exatamente para provocar discussão. Ali basicamente a gente chama atenção que todo mundo tem as suas deficiências, algumas visíveis e outras não, algumas que te tornam elegíveis para ser atleta paralímpico ou não. Era essa mensagem, debater isso. Foi também uma homenagem da Cleo e do Paulo, de pessoas que não tem deficiência, e inspirar pessoas que têm deficiência. Não acho que foi um erro, a gente segue firme e achando que a campanha veio na hora certa. Ninguém aí estava emulando: era uma provocação e uma homenagem. Os atletas gostaram disso. Quando aconteceu a polêmica, a gente chamou todos os atletas lá em São Paulo e conversou com eles. Foi quase uníssono (o apoio), com uma ou outra voz discordante.

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