Previsão inflada

A realidade dos Jogos desmente cálculos otimistas do COB em relação a conquista de medalhas

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2016 | 03h00

Empresas fazem projeções de metas a alcançar – para tanto, armam-se de estudos e traçam estratégias para garantir sucesso. Com bases em cálculos e hipóteses, ponderam as perdas e os lucros, baseiam os investimentos, preveem o futuro. No esporte, não é muito diferente quando se trata de competições de alto nível. Atletas, times, clubes, federações têm estimativas a respeito de onde podem chegar.

O Comitê Olímpico Brasileiro seguiu a tendência e, antes da largada dos Jogos, distribuiu mensagens de otimismo. Em inúmeras entrevistas preparatórias, que serviram como tira-gosto para a festa do Rio, dirigentes da entidade despejaram previsões entusiasmantes. Na avaliação da cúpula, a tropa de mais de 460 atletas iria conquistar número de medalhas suficiente para colocar o País entre os 10 melhores na edição da qual é anfitrião – 25, contra 17 de Londres. Por ora, são 6. Está difícil, embora não impossível.

Passada a primeira metade, a realidade faz desinchar a empolgação. A prática desmentiu a boa cotação de muitos patrícios, que encerraram as participações sem nada. Não significa que sejam perdedores ou fracassados. Diversos avançaram no desempenho, em comparação com Olimpíadas anteriores, mostraram evolução e sentiram potencial para pódio no ciclo de 2020 em Tóquio.

Não à fracassomania, portanto. Tem gente de qualidade a honrar diversas modalidades por aí. Merece carinho, apoio e respeito. O problema está na ânsia da cartolagem de vender a ideia de potência de uma nação que, no dia a dia, despreza o esporte, a começar pelo desdém com que se trata, na escola, a disciplina de Educação Física, encarada como espécie de apêndice de lazer.

Para provar a tese do crescimento esportivo como legado olímpico, e justificar a grana gasta, etc. e tal, fechou-se o foco em algumas categorias que tradicionalmente já nos garantem medalhas. Aposta no certo e vamos em frente. E, de quebra, se aproveitou para dar uma inflacionada em certas expectativas e aumentar a dose de chance onde se esperava uma atuação discreta.

Mesmo onde houve atenção especial, a colheita foi magra até o momento. O judô contribuiu com três medalhas, uma de cada cor. Mas eram esperados cinco pódios. A natação, há muito com patrocínio forte (e presidência “eterna” na Confederação), não colocou ninguém no alto. O atletismo pena diante de portentos internacionais.

Acima disso, há o maldito imponderável, o imprevisto que desdiz até estudos científicos. Sim, existem barbadas – havia chance de quase 100% de afirmar que Michael Phelps iria ostentar no peito mais um punhado de medalhas de ouro. Na mosca! O gigante norte-americano ganhou cinco. E, mesmo para ele, praticamente invencível, ocorreu a surpresa de uma reles prata.

Imagine, então, a margem de erros para nossos atletas, submetidos às vezes a pressão e cobrança desmedidas. A tentativa de transformá-los à força em semideuses leva da euforia e ufanismo ocos às críticas, quantas exageradas, como no caso de Joanna Maranhão, para citar exemplo ruidoso.

A maré baixa por pouco não varreu esperanças nacionais em alguns esportes coletivos. As moças do futebol chutaram um caminhão de pênaltis para avançar para as semifinais. Os rapazes do futebol toparam com sustos nas duas rodadas iniciais, antes de engrenarem e despacharem dinamarqueses e colombianos. Estão, portanto, na rota de medalhas, para não esculhambar de vez com as estimativas do COB. Assim como fizeram bonito rapazes da ginástica.

O basquete feminino foi para o espaço – e dela não se esperava grande coisa mesmo. Já o masculino está por um fio e define a vida nesta segunda-feira. Precisa bater a Nigéria e torcer por combinação de resultados nos outros jogos da chave.

Contas também são feitas pelo vôlei masculino, vejam só! A turma de Bernardinho tem obrigação de bater a França para não ser ultrapassada pelos EUA. Como nem tudo são sobressaltos, o vôlei feminino vai bem, obrigado, e com jeito de medalha.

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