Protestos olímpicos forçam França a dialogar com a China

Nicolas Sarkozy quer evitar que os problemas da tocha olímpica se tornem uma crise econômica e política

Katrin Benhold, The New York Times

21 de abril de 2008 | 18h12

Após os vários protestos anti-França na China, o presidente Nicolas Sarkozy vai enviar três políticos de alto escalão ainda este mês numa ofensiva missão diplomática para evitar uma precipitação política e a econômica diante da controversa situação nos preparativos para a Olimpíada de Pequim. Milhares de manifestantes foram às portas dos supermercados Carrefour na China neste mês, demonstrando tudo aqui o que não consideram simpáticos nos franceses, tendo o suporte dos agitadores pró-Tibete.A França está no topo do foco dos protestos na China, notabilizada após o esforço de um atleta chinês cadeirantes na proteção da tocha olímpica durante a problemática passagem por Paris neste mês e que o transformou em um herói nacional e estrela de programas de entrevistas. Junto com os três dirigentes, o presidente do Senado francês, Christian Poncelet, estará atento nesta segunda a Xangai, para onde vai o primeiro ministro, Jean-Pierre Raffarin, na quarta.Na sexta, quando voltará ao assunto o chefe diplomático de Sarkozy, Jean-David Levitte, ele tentará tranqüilizar os líderes chineses de que a França não tem a intenção de distanciar as relações.Na vigília sobre a mão firme chinesa sobre os protestos pelo Tibete em Lhasa, a capital tibetana, e em toda a região no último mês, alguns dos governantes do Ocidente aumentaram a pressão para que a população e a imprensa usem os Jogos Olímpicos como forma de arrancar concessões de Pequim pelos direitos humanos e o Tibete.Jose Manuel Barroso, presidente da União Européia, quer verificar todos os itens que envolvem os direitos humanos na vista a Pequim na quinta, concedendo entrevista no Domingo. Poncelet enviou uma carta a Sarkozy e ao presidente chinês Hu Jintao apoiando o evento em Paris e convidando o atleta chinês, Jin Jing, que protegeu a tocha durante os protestos na França a ir visitar o Palácio Elysée.Cerca de uma hora após a reunião em Paris na quinta entre Sarkozy e Zhao Jinjun, enviado especial de Hu, o visitante oficial chinês se tornou o último sinal de que a França que cada vez mais concorda com o protecionismo econômico e os interesses da China.Sarkozy disse no passado que ele só iria à cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos em agosto na China quando começassem um diálogo oficial com o Dalai Lama, o exilado líder espiritual tibetano. A China tem refutado qualquer possibilidade de abrir esse diálogo.No domingo, o gabinete de Sarkozy reforçou que esta condição continua de pé. "Este é um dos elementos que considerandos determinante para que o presidente vá à cerimônia de abertura", disse Franck Louvrier, diretor de comunicação do presidente.Mas Louvrier reconhece também que a França tem mais interesses em vista do que apenas o fim do mal-estar com a China. "O presidente tem a intenção de fechar ou abrir negócios diariamente", ele diz.O Carrefour, que tem 112 hipermercados e mais de 2 milhões de consumidores na China, disse na segunda que ainda é cedo para avaliar se houve alguma perda financeira com os protestos em suas lojas. Os oficiais franceses jogam para cima os riscos do boicote dos chineses, argumentando que Pequim é mais dependente que os consumidores franceses e que isso é bom para ambos. A China exporta para a França quatro vezes mais do que os franceses exportam para os chineses.Muitos analistas franceses dizem que os bons produtos chineses estão chegando como nunca no Ocidente e que a corrente popular anti-China pelo Tibete não deve se refletir na Europa. "Acima da nobre defesa dos valores universais, sempre temos o cheiro ruim do racismo que acaba contrariando os princípios que pretendemos encarnar", escreve o centro-direitista Le Figaro no editorial de segunda. A mobilização pró-Tibete "é muito pesada porque ela carrega o medo do 'made in China'". A situação francesa se contrasta com a da Alemanha, uma grande economia européia que tem muitos negócios com a China. A chanceler Angela Merkel despertou a ira chinesa ao iniciar uma escalada de negócios e contatos políticos após ter recebido o Dalai Lama no seu escritório em Berlim no último outono.Agora, como sempre, os analistas dizem que Merkel olha com classe - ela cobra transparência sobre os direitos humanos na China, e tem o senso de perceber que precisa ajudar a desviar toda a raiva que agora os negócios alemães possam ter com os chineses. A Volkswagen, historicamente, é um dos maiores patrocinadores dos Jogos Olímpicos de Pequim.A chama olímpica tem tido uma tortuosa jornada em muitas das cidades que visitou em seu passeio pelo mundo. Em Atenas, Grécia, no começo do revezamento mundial, os protestos da ONG Repórteres Sem Fronteiras renderam muitas linhas, e em Londres milhares foram às ruas para pedir mais abertura política e religiosa no Tibete.Pela crise que Merkel procura evitar e pelo fato que a Alemanha não tem qualquer envolvimento no revezamento da tocha olímpica, a Alemanha é sortuda em relação ao problema, e torce para continuar assim. Merkel, uma democrata cristã, tem muito claro que ela não vai à Olimpíada, mas ela tem a expectativa de visitar a China logo depois disso.Entretanto, o primeiro ministro alemão Frank Walter Steinmeier aparentemente está mexendo levemente para evitar qualquer crise. Ele sempre torna público que telefona aos companheiros chineses a qualquer hora do dia após os protestos em Lhasa. O conteúdo dessas conversas não foram divulgados.Steinmeier, que tinha sido chefe do grupo que antecedeu Merkel, Gerhard Schoeder, como chanceler, rebate com dureza, alegando que tem elevado os negócios com a China envolvendo os direitos humanos, ao iniciar um programa de intercâmbio com chineses para que estudem na Alemanha. (tradução de Milton Pazzi Jr.) 

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