Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Que venham (daqui a 100 dias) os Jogos!

Desafio é que o Time Brasil sofra o menor impacto possível com a pandemia

Paulo Wanderley *, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2021 | 05h00

Há exatos 265 dias, o Comitê Olímpico do Brasil iniciou uma importante contagem regressiva: faltava um ano para o início da Olimpíada de Tóquio, que acabara de ser adiada por conta da pandemia do até então "novo" coronavírus. Naquela ocasião, tínhamos 12 meses pela frente de grandes desafios que precisaríamos enfrentar diante do desconhecido. Infelizmente, o novo já virou velho inimigo. Tantos dias depois, ainda persiste entre nós e continua adiando e modificando tantos planos.

Lembro que enxergava uma luz no fim do túnel faltando tantos dias, e a esperança de ver uma cerimônia de abertura em um estádio lotado, cheio de pessoas vindas de todas as partes, era muito forte. Queria que os Jogos fossem o palco da celebração do fim dessa dolorosa batalha mundial. Imaginava no meu íntimo que os valores olímpicos de superação, união e persistência tinham tudo a ver para que este fosse o cenário ideal e simbólico para a celebração desta vitória.

Cortemos para realidade: hoje estamos a exatos 100 dias dos Jogos. As coisas caminharam de uma forma muito diferente, e o sonho olímpico com certeza não terá o mesmo gosto de tantos outros. A organização dos Jogos anunciou que não permitirá visitantes de outros países – atitude compreensível e responsável. Essa é apenas uma de tantas outras alterações que deverão ser anunciadas a fim de garantir a segurança e integridade de todos os envolvidos.

Não há muito o que comemorar, mas há pontos a serem destacados e exaltados neste período tão desafiador. Querendo ou não, o momento mais importante da vida dos que se dedicam durante quatro, oito, doze suados anos aos esportes olímpicos está chegando. São atletas, mães, pais, clubes, treinadores, profissionais de todas as áreas que batalham duro para alcançar resultados e realizar seus sonhos neste ciclo.

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Desde o início, trabalhamos incessantemente na busca por alternativas que amenizem os danos causados com este cenário
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Paulo Wanderley, presidente do COB

Apesar de todos percalços, é preciso olhar para trás com orgulho de tudo o que o COB e todas essas partes conseguiram fazer diante de uma situação atípica para o esporte. É hora de fazermos uma nova contagem regressiva, desta vez um pouco diferente: considerando as nossas vitórias e dando a força final de que os nossos atletas precisam. É aquela velha e sábia história de olharmos para o "copo meio cheio" em vez dele "meio vazio".

Muitas coisas fogem do nosso controle, mas, nas que estão ao nosso alcance, avalio que estamos conseguindo dar a volta por cima. É importante ressaltar: ainda temos um caminho duro a percorrer durante os próximos 100 dias. Continuamos dando o máximo de nossa atenção e recursos para que o nosso Time Brasil sofra o menor impacto possível com toda essa situação.

Desde o início, trabalhamos incessantemente na busca por alternativas que amenizem os danos causados com este cenário. Desenvolvemos 15 medidas para apoio ao sistema olímpico nacional, com o grande objetivo de garantir a sustentabilidade deste movimento através das Confederações Brasileiras, propiciando a melhor preparação e condições de classificação para os nossos atletas.

A Missão Europa e a reabertura do CT Time Brasil, com rigorosos protocolos, em meados de 2020, foram ações que deram a oportunidade a mais de 200 atletas de 28 modalidades de retomarem seus treinamentos e rotinas de forma segura. Todos os esforços para que o nível de competição seja cada vez mais elevado estão sendo feitos. Criamos situações que permitem que esses atletas superem as adversidades, promovendo intercâmbios e os encaixando em lugares com boas condições de treinamento. Desde março, começaram  as principais competições pelo mundo, com vagas em disputa. Estamos criando, junto com as Confederações, caminhos para que os atletas entrem nesse ritmo a todo vapor – com toda atenção que o momento pede.

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Hoje, o Brasil tem 200 vagas garantidas para os Jogos Olímpicos, e temos a expectativa de classificar de 70 a 100 atletas mais
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Paulo Wanderley, presidente do COB

No atletismo, por exemplo, cerca de 40 pessoas, entre atletas e treinadores, embarcaram para um treinamento de campo em Chula Vista, nos EUA. O surfe está na Austrália disputando etapas iniciais do Circuito Mundial. Atletas do vôlei de praia, tênis de mesa e maratona aquática competiram no Catar; atletas de vela estão buscando evoluir em competições em Portugal e Espanha, atletas do taekwondo, estão na Sérvia; do karatê, na Turquia; do boxe, na Bulgária e na Alemanha; do judô, na Geórgia; do handebol, em Montenegro; e do hipismo, nos EUA, dentre outros. Os resultados obtidos, como a classificação da seleção masculina de handebol para os Jogos, os ouros de Valéria Kumizaki, Maria Portela, Martine e Kahena, de Ana Marcela Cunha e Bia Ferreira, e as medalhas de Ágatha/Duda e Evandro/Guto, Ícaro Miguel e Milena Titoneli, mostram que as ações estão funcionando.

Neste momento, segundo números gerais do COI, existem entre 35% e 40% de vagas ainda em aberto para a participação em todos os eventos dos Jogos de Tóquio. Hoje, o Brasil tem 200 vagas garantidas para os Jogos Olímpicos, e temos a expectativa de classificar de 70 a 100 atletas mais.

Enfrentamos grandes desafios em 2020, mas conseguimos, por meio de uma gestão de recursos financeiros responsável, economizar na atividade do meio para incrementar o aporte na atividade do fim, que é o esporte. Se não fosse a política de austeridade implantada na prática, não estaríamos nessa situação de poder apoiar todas as modalidades e os atletas neste momento de crise mundial.

O desafio de estar em Tóquio não se restringe apenas aos brasileiros. Estamos buscando estratégias para neutralizar todos os riscos, mas não está sendo tarefa fácil. Nossa obrigação, entretanto, é seguir trabalhando duro para que proporcionemos as melhores condições possíveis para que nossos atletas performem em suas totalidades. A preservação da saúde e da integridade física de todos os integrantes da Missão norteará o planejamento da entidade para os próximos Jogos.

Todas as nossas decisões precisam passar pelo aval médico, e os protocolos terão de ser seguidos por todos os participantes. Diante de tantas incertezas, precisamos do comprometimento, de responsabilidade, flexibilidade e serenidade para criarmos um ambiente seguro aos integrantes do Time Brasil. E nós, como bons amantes de uma competição, estamos prontos para encarar o que vier.

Que venham (daqui a 100 dias) os Jogos!

* Presidente do Comitê Olímpico do Brasil

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