Clayton de Souza|Estadão
Clayton de Souza|Estadão

'Quero ir à final olímpica contra o Teddy Riner'

Judoca brasileiro sonha chegar à decisão dos Jogos do Rio contra o maior nome da categoria dos pesados

Entrevista com

Rafael Silva

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2015 | 17h03

No Mundial de judô de 2013, no Rio, o brasileiro Rafael Silva perdeu na decisão para o francês Teddy Riner, que manteve sua hegemonia no peso pesado neste ano ao conquistar seu oitavo ouro na categoria. Mas Baby, como o atleta do Clube Pinheiros é conhecido, não participou do Mundial por estar lesionado. Em processo final de recuperação da lesão no ombro, o atleta de 2,03 m de altura e 160 kg promete retorno no Grand Prix de Havana, em janeiro, e vai brigar até o fim para representar o País nos Jogos Olímpicos e, quem sabe, reeditar a final de 2013 contra Riner.

Como tem sido sua recuperação?

Estou me sentindo bem. No início tive de ter bastante paciência, pois o foco fica muito na recuperação. Na verdade, tive de reaprender os limites e mudar bastante a maneira de pensar o treinamento.

Pelo seu cronograma, como será daqui para frente?

Os três primeiros meses foram focados em recuperar a estrutura muscular. Esse mês já estou trabalhando no fortalecimento do local que machuquei. É um período bastante dolorido, estou fazendo força para voltar o tônus muscular e me recuperar para em janeiro já disputar o Grand Prix de Havana.

No Brasil, quando um judoca para, sempre tem outro de qualidade pedindo passagem. O David Moura vem numa fase boa. Como você vê essa disputa pela vaga olímpica?

É sempre uma situação desconfortável quando você tem uma vaga para dois ou três atletas. A rivalidade existe, mas acho que a maneira como é montado o ranqueamento ou como a confederação avalia o atleta que vai representar o País numa Olimpíada é bem tranquila e verdadeira. Quem estiver melhor naquele período vai disputar os Jogos. Além disso, quando ele vai lutar lá fora, o resultado é dele, não consigo interferir nisso, então tenho de melhorar o meu judô e minha recuperação, prestar atenção no que preciso fazer para competir melhor no ano que vem, e aí as coisas acontecem. Quem estiver melhor na época vai para a Olimpíada.

O Teddy Riner é hegemônico na categoria dos pesados. O que dá para dizer desse atleta francês?

Ele é diferenciado, ele ditou as mudanças na categoria, que ficou mais dinâmica, mais acelerada, com mais golpes. O Riner foi o precursor disso. É muito forte, tem tudo para ganhar o segundo ouro olímpico aqui no Rio e eu vou tentar atrapalhar. Todos estão perseguindo e querendo ganhar dele, estão treinando muito, mas é um atleta dificílimo de bater. Acho que nenhuma categoria do judô tem um atleta que se isolou na liderança por tanto tempo.

Ganhar dele é uma obsessão?

É um dos objetivos, mas não posso esquecer dos outros adversários. Claro que treinando para ganhar do Riner eu estou treinando para ganhar dos outros também. É sim o atleta a se bater na categoria. Entre os 20 mais bem colocados do mundo, ele é o único que não venci. Quero ganhar e treino forte para realizar isso.

Como você está fisicamente?

No começo do ano fiz um trabalho de perda de gordura e ganhei massa magra, foi uma mudança de composição corporal. Mas me machuquei e isso atrapalhou um pouco, pois fiquei sem treinar. Preciso recuperar esse peso em massa magra, para estar numa condição boa.

Como tem sido o seu trabalho de manutenção do peso?

Por ser do pesado, como mais que os atletas das outras categorias. Mas procuro fazer uma ingestão de alimentos de qualidade, com prescrição nutricional e suplementação. Todo mundo acha que o pesado, por não ter limite de peso, come de tudo. Mas eu tenho de ser bem regrado para que essa massa magra volte de maneira correta.

Você começou tarde no judô. Como foi esse início?

Eu comecei aos 15 anos no interior do Paraná. Como foi tarde, foi bem complicado. Até hoje eu preciso treinar mais do que o normal, principalmente os fundamentos. Quando um atleta começa pequenininho, as coisas são mais naturais. Tive de treinar muito para conseguir suprir as necessidades. Aí, aos 17 anos mudei para São Paulo, para treinar judô e fazer faculdade de educação física. Em 2008, vim para o Clube Pinheiros.

Você tinha apoio da família?

Minha mãe engravidou com 15 anos, foi mãe solteira, e se separou do meu pai nessa época, então foi uma criação bem complicada, com a ajuda dos meus avós. Eu tinha eles como pais. Eles me incentivavam bastante a praticar atividade física. Meu avô faleceu no ano passado, mas minha avó está em Rolândia (PR). Ela é torcedora fanática, tem minhas tias também, sempre que tem uma brecha vou para lá e curto um pouco a família.

Você mantém contato com seu pai?

Eu tenho contato agora, fui conhecer ele com 12 anos. Converso, mas não somos íntimos.

Como você foi descoberto no judô?

Em 2005, um técnico de São Paulo me convidou para fazer um teste no Projeto Futuro. Vim para cá sozinho, ficava numa república de atletas, era obrigado a estudar e treinar. Fiz isso durante seis anos da minha vida. Eu já era grandão e o tamanho ajudou.

Foi nesse período que você ganhou o apelido de Baby?

Sim, surgiu lá. Não sei se foi por causa da “Família Dinossauro”. Era novinho e grandão, e pegou. As crianças gostam bastante.

Qual sua expectativa para os Jogos do Rio, numa modalidade que o Brasil costuma ter sucesso?

Eu tive a experiência de disputar em 2013 o Mundial no Rio, acho que a torcida ajuda bastante, então estou motivado para me recuperar primeiro e depois definir essa vaga para a Olimpíada. A expectativa é melhorar minha marca de Londres, quando fui bronze. Quero fazer uma final e enfrentar o Teddy Riner. Esse é o principal objetivo.

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