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Raio no Rio

Domingo especial, Dia dos Pais e dia de ver o fenômeno Usain Bolt em ação nos 100 metros

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2016 | 03h00

Olimpíada é acontecimento extraordinário, oportunidade de ver reunido, a cada quatro anos, o que há de melhor nos esportes. Tem para todos os gostos – do tiro com arco (“arco e flecha” era tão bonito, remetia a Robin Hood) ao golfe; do futebol à luta olímpica (gostava mais quando se chamava “greco-romana”); do hipismo ao tênis de mesa (ao qual o vulgo se refere como pingue-pongue); da esgrima à canoagem; da vela ao levantamento de peso (o velho halterofilismo, dos sujeitos fortões).

Mas, para este veterano batucador de crônicas esportivas, a essência, o charme maior, a alma dos Jogos está no atletismo e suas diversas variações. A modalidade soberana, que sintetiza (assim como as lutas) os embates épicos dos gregos no festival que, diz a lenda, foi criado por Héracles, semideus filho de Zeus e Alcmena, 2.800 anos atrás. Héracles passou para a posteridade conhecido pela alcunha de Hércules, o dos 12 trabalhos.

E, no atletismo, o auge se concentra na prova dos 100 metros rasos masculino. Nela se juntam os homens mais velozes da Terra, que já há algum tempo percorrem a breve distância abaixo dos 1o segundos. Coisa tão rápida que, se você se virar para pegar o copo de refrigerante ou de cerveja na hora da largada, corre o risco de só ver o vencedor cruzar a linha de chegada. Não dá tempo de espirrar e assoar o nariz. A mínima distração faz com que se perca a evolução dos competidores na pista. Um espanto!

Pois muito bem, os 100 metros consagraram muitos fenômenos. Assim, de memória, um nome clássico que aparece na hora é o de Jesse Owens, o negro norte-americano que escandalizou Adolf Hitler na Olimpíada de Berlim, em 1936, na fase que antecedeu à 2.ª Guerra. Nos tempos modernos, os norte-americanos Carl Lewis, Justin Gatlin, Trayvon Bromell, Tyson Gay, Maurice Greene, Mike Rodgers; o britânico Linford Christie; o francês Jimmy Vicaut; os jamaicanos Michael Frater, Asafa Powell, Yohan Blaker. 

Nesse encadeamento se chega a um jamaicano especial, diferente, arrebatador. Pensou em Usain Bolt? Acertou. O rapaz completa 30 anos no domingo que vem, e desde Pequim, em 2008, faz o mundo arregalar os olhos com as vitórias fulminantes. Na China, arrebatou o ouro nos 100m, nos 200m e no revezamento 4 x 100m; dividiu com o nadador Michael Phelps (com as oito medalhas de ouro) a condição de estrela daquela edição. Repetiu a dose, em 2012, em Londres, nas mesmas provas. 

Bolt, o Raio, o Relâmpago, passou a ser associado com espetáculo, prodígio e magia, pela maneira com que vence os desafios. Corre como se brincasse na raia, conquistou medalhas, troféus, estabeleceu recordes mundiais e olímpicos como se não despendesse esforço fora do normal. Houve ocasiões em que chegou tão à frente que deu a impressão de que os concorrentes tinham perdido a hora da largada.

Bolt diverte-se e diverte. Carismático, como se viu pela reação da plateia nas eliminatórias de ontem. Faz caretas, após as provas, repete o gesto das mãos estendidas, dedos apontando para o alto. Ritual que virou marca registrada por onde se apresenta. E distribuiu simpatia do tamanho das passadas. Cativa plateias pela arte, e pela simplicidade, ora pois. Um mito dos Jogos, dos que ilustram, nos manuais esportivos, as galerias dos grandes campeões – e que assim se mantenha para sempre.

Para que isso ocorra, nada como a coroação no Brasil, na despedida da carreira como atleta olímpico. Bolt deve exibições de gala para o público daqui. Que a saideira seja em estilo monumental, arrasador, devastador e adjetivos equivalentes. Ou seja, com vitórias de cair o queixo, se possível nas três provas de que é especialista. Se não der, nos contentaremos com os 100m. O Engenhão deve ser o palco da última façanha.

O domingo do Dia dos Pais será mais especial com Bolt. Felizes os que estiverem nas arquibancadas para vê-lo em ação. Os demais... bem, os demais nos consolaremos em acompanhar pela telinha. Vale.

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