Mike Blake/Reuters
Mike Blake/Reuters

Rebeca Andrade: 'Estou fazendo o hino do Brasil tocar numa Olimpíada'

Em depoimento ao 'Estadão', ginasta fala da experiência de conquistar duas medalhas (ouro e prata) nos Jogos Olímpicos de Tóquio

Rebeca Andrade, especial para O Estadão

06 de agosto de 2021 | 15h00

Eu fiquei honrada e feliz por ter sido escolhida a porta-bandeira do Brasil na cerimônia de encerramento dos Jogos de Tóquio. Sei que não foi uma decisão fácil porque temos atletas incríveis aqui. Estou até nervosa porque nem sei o que precisa fazer, se é para sacudir, se só segura a bandeira. Vai ser algo que não vou esquecer nunca e as pessoas estarão me vendo e lembrarão para sempre.

Ganhar duas medalhas foi uma coisa muito boa. Eu lembro que na hora do pódio pensei assim: "Estou fazendo o hino do Brasil tocar numa Olimpíada". Para a ginástica era algo bem difícil, como se fosse algo distante. A sensação foi espetacular. Coloquei muita gente para chorar naquele dia e isso me dá muita felicidade. Eu transmiti minha emoção no meu sorriso, nos meus olhos. O meu jeito de demonstrar era na alegria, não nas lágrimas.

Eu lembro que ficava olhando do alto do pódio para o pessoal do Brasil, porque eles estavam muito felizes por mim, e eu senti que todo meu trabalho tinha valido a pena. Eu estava lá no primeiro lugar, era a mais alta de todas as meninas, e era uma sensação incrível. Mas isso não me torna melhor do que ninguém. Eu sempre me vi como todas as outras meninas. Na ginástica tudo pode acontecer e só pensava que tinha de fazer minha parte e dar meu máximo. Quando estava em cima do pódio pensei: "Parabéns Rê, você conseguiu".

Acredito que ganhei as medalhas porque trabalhei muito, junto com meu treinador e minha equipe. Eu mereci. As pessoas que estavam no pódio também trabalharam muito para que o resultado viesse. Acho que a medalha veio porque as pessoas me escutaram muito, eu também as escutei, e nos respeitamos bastante. Comecei na ginástica aos 4 anos de idade e só agora consegui essas medalhas, foi um processo de mudança de criança para adolescente, depois adulta, tive meu amadurecimento. E também teve o merecimento, porque dei tudo de mim e deu certo.

Até por isso gosto das duas medalhas. A primeira, de prata, trouxe a sensação de que tudo valeu a pena, de que a expectativa de todo mundo foi alcançada. Foi minha primeira medalha olímpica. E a de ouro deixei todo mundo feliz, pois é um aparelho que eu amo muito, adoro fazer salto, e a dedico para meu treinador Francisco Porath Neto, que trabalhou demais. Eu o tenho como meu pai, ele entende os processos e sabe como são importantes para mim.

Estou vivendo esse momento da medalha, estou curtindo um pouco, e confesso que não sentia peso nenhum, pois não sou obrigada a voltar com medalha. Queria apenas dar meu melhor. Sei que a expectativa é muito grande porque todo mundo sabe do meu talento, mas se eu ficar me cobrando desta forma, coloca uma pressão ou uma ansiedade desnecessárias em mim. Sei que as pessoas me admiram, que querem mais medalhas, mas sempre me respeitando e nunca querendo me pressionar. Porque a gente não precisa disso. O atleta, assim como qualquer pessoa, tem sentimento, não é um robô. Ele precisa se tranquilizar, ter uma cabeça boa e um corpo bom.

Na primeira lesão grave que tive, eu era muito crua. Era adolescente, tinha 15 anos, deu um desespero porque queria muito participar da Olimpíada, estar lá. Em 2017, tive outra e deu um medo porque era ano de Mundial e tinha todas as chances para ser uma das melhores do mundo. E em 2019 aconteceu a mesma coisa. Mas sempre eu voltava melhor, aceitando o tempo que meu corpo precisava. Descobri que não pode fazer tudo que quer, precisa escutar o corpo e a mente. Não vejo as lesões como algo negativo, aprendi muito com elas. Até por isso não mudaria nada. Tudo que passei me fez chegar aqui e me fez sentir a alegria que tive e o orgulho das pessoas.

Hoje em dia as pessoas estão vendo e valorizando muito mais o poder da mulher. As oportunidades são maiores, o que a gente fala está sendo ouvido. Se sentir valorizada é uma sensação que te faz querer ainda mais. É uma conquista minha que sinto que dividi com todo mundo. Gosto de fazer parte dessa porcentagem de mulheres guerreiras e fortes que hoje estão sendo ouvidas. Eu tive meus modelos e foram muito importantes. Agora posso ser espelho para alguém e inspirar outras pessoas.

Para mim, minha mãe é meu maior espelho a seguir. Uma mulher guerreira e batalhadora que fez tudo por mim e meus outros sete irmãos. Ela tinha dois empregos, era muito difícil para ela, e mesmo assim ela entendeu que eu tinha algo a mais. Imagina abrir mão de estar todos os dias com a sua filha para ela seguir um sonho? Minha família sempre foi minha base e é para eles que vou correr sempre que precisar. Espero um dia ser como ela e quando voltar quero dar um abraço muito forte nela e nos meus irmãos. Senti muito a energia das pessoas, que vinha de todos os lados. São pessoas que às vezes nem conheço e estavam torcendo. É uma sensação muito boa, pois as pessoas querem o seu sucesso. Então vai ser um abraço de alívio, carinho e amor. Com a sensação de dever cumprido e gratidão!

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.