Adenor Gondim
Adenor Gondim

Rebeca é o país que queremos

Itamar Vieira Junior é escritor e autor do livro 'Torto Arado' e de contos, como 'Doramar ou a odisseia'

Itamar Vieira Junior, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h00

Certa vez ouvi a escritora Conceição Evaristo dizer que escreve porque não sabe dançar. Estávamos numa mesa virtual falando sobre literatura e ela concluiu dizendo uma frase que recrio aqui com a devida licença poética: "Quando dançamos, o movimento do corpo é capaz de comunicar tudo o que é importante com beleza e liberdade."

Recordei de suas palavras nestes dias. Por algumas breves horas tenho deixado de lado as notícias pessimistas sobre a pandemia e a política nacional, acompanhantes destes meses infindáveis, para olhar com esperança a jornada de nossos jovens atletas do outro lado do mundo. Dentre todos os que participaram com os mais belos ideais do chamado "espírito olímpico", levando o corpo, a concentração e os mais insondáveis desafios aos limites do humano, destacaram-se nas minhas manhãs a força e a graça dos movimentos de Rebeca.

Rebeca Andrade já era conhecida do público que acompanha a ginástica artística pelos feitos que vem acumulando desde os 13 anos. Mas eu, como um bom desatento ao mundo que pulsa vivo à minha volta, só vim descobri-la nessas manhãs. O magnetismo de sua apresentação de solo ao som do funk “Baile da Favela” foi capaz de agitar meus pensamentos, por tudo aquilo que o esporte pode representar, e também porque o corpo de Rebeca carrega a trágica história de um país. As dificuldades enfrentadas desde 1500 pelas pessoas negras e periféricas se repetiram em sua vida, ainda que nascida no alvorecer de um novo século, um novo tempo. Um tempo que aponta para nossa sociedade com “muito por fazer”: com muitas barreiras a serem removidas - e não ultrapassadas -, com muitas redes de proteção que garantam oportunidades aos jovens de nossas periferias, com muita vontade de transpor de fato as destinações que nos foram dadas no passado e pelo passado - isso mesmo! - que se ilumina à nossa frente, como diria Millôr Fernandes, para ser definitivamente superado.

Ver os movimentos precisos de Rebeca adentrar as casas e as manchetes da imprensa inspirando a realidade de inúmeros jovens é um imenso conforto.

Nestes dias de pessimismo generalizado, quando nos perguntamos se faz sentido fazer parte dessa comunidade imaginária que é nosso país, forjado também na violência histórica e na nostalgia da elite política “casa grande e da senzala” que ocupa os palácios, é preciso agarrar os fiapos de esperança que, com atenção, conseguiremos encontrar. Ver seu corpo girando preciso através do ar, desafiando a gravidade e aterrissando em pé é uma excelente metáfora do futuro que nos espera. Queremos girar, dançar, ser livres ao som do funk e ainda assim poder permanecer de pé. Porque Rebeca é o futuro de nossos ancestrais, é o sonho de dona Rosa dos Santos, sua mãe, de seus avós e irmãos. Sua força nos atravessa dizendo que cada jovem de nossa periferia guarda a potência de um sonho, e cabe a cada um de nós envolvê-los, irmanados e solidários, para garantir a possibilidade de realizá-los.

O pensamento visionário de Milton Santos nos indicou que o futuro seria marcado por um “período popular da história.”

Em linhas gerais, esse período é caracterizado pelas redes solidárias nascidas das camadas mais desfavorecidas da humanidade em contraposição à tirania do dinheiro. Rebeca é cria da periferia e assim deve ser lembrada. As periferias do Brasil são um mundo de potência criativa e por isso devem ser protegidas. Aos poucos e arduamente seremos capazes de aprender.

Cumprindo a analogia da Conceição Evaristo entre o movimento do corpo e a escrita, Rebeca, com sua performance encantatória, escreveu mais um capítulo da história do Brasil. Mais um capítulo onde nos reconhecemos inteiros por revelar o país de beleza e liberdade que queremos.

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