Lindsey Wasson/Reuters
Lindsey Wasson/Reuters

Rebeca é um exemplo a ser seguido

Rebeca Andrade é uma vencedora na vida e agora uma medalhista olímpica

Mônica dos Anjos, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 05h00

Quando vi a Rebeca Andrade ganhando a primeira medalha feminina da ginástica artística brasileira nos Jogos Olímpicos de Tóquio, um filme passou pela minha cabeça. Lembrei daquela menininha que a tia trouxe para eu avaliar se tinha jeito para a ginástica. Voltei ao passado.

Sou técnica de Ginástica Artística no Ginásio Bonifácio Cardoso que fica em Guarulhos. Sempre recebemos crianças para avaliar o biótipo, se elas apresentam ou não potencial para se desenvolver nesse esporte. Em algumas ocasiões, descobrimos alguns talentos que podem se tornar atletas de ponta na modalidade. Ou não. Existem inúmeros fatores que influenciam na carreira de um atleta. Um desses talentos descobertos em Guarulhos foi a Rebeca Andrade.

Conheci a Rebeca quando ela tinha 5 anos. Foi em 2005. Sua tia, Cida, que trabalhava na área de alimentação do ginásio de ginástica artística, a levou para um teste. Logo de cara, percebi que ali estava uma nova Daiane dos Santos, que foi a primeira ginasta brasileira a conquistar medalha de ouro em Campeonatos Mundiais. Dava para ver que ela tinha futuro pelo seu biótipo.

Era rápida, tinha a musculatura definida e os braços fortes. Tinha muita potência de perna e era explosiva. Nas primeiras corridas e saltos, percebi que tinha um talento natural para a ginástica. Aconselhei a mãe dela, Rosa, a mudar o horário da escola da filha para que ela pudesse iniciar os treinos com as outras meninas. Em duas semanas, Rebeca entrou para o grupo que eu treinava.

No começo, não se interessava muito pela ginástica. Era uma menina de 5 anos pensando em brincar. Mas tinha muita facilidade para aprender. Evoluiu muito rápido e começou a se destacar entre as outras meninas. Ficou um ano e meio comigo. Em meados de 2006, os professores Kelly Kitaura e Francisco Porath, o Chico, passaram a treiná-la. Trabalhavam aqui no ginásio. 

Em 2009, eles foram para Curitiba trabalhar no Clube Cegin (Centro de Excelência de Ginástica do Paraná). Em 2010, levaram a Rebeca para treinar com eles. E foi assim. Algum tempo depois o Chico foi para o Flamengo, levando a Rebeca Andrade com ele.

Como treinadora e árbitra vejo várias qualidades na Rebeca. Tem muita potência e altura nos saltos e aterrissagem firme. No solo, vem apresentando vários elementos de muita dificuldade, além de estabilidade e postura. O forte dela são as cravadas das acrobacias e a facilidade para ligar movimentos. A parte artística também é forte.

O funk Baile na Favela favorece a apresentação por causa da musicalidade. Isso conta muito na apresentação. A Rebeca provou que é uma ótima ginasta nos quatro aparelhos do individual geral (salto, paralelas assimétricas, trave e solo). Apesar da dificuldade de praticar a modalidade neste País, ela evoluiu e amadureceu muito. A gente percebe que é confiante e determinada.

Todo atleta de alto rendimento treina no limite do corpo. Não é diferente com Rebeca, que teve várias contusões, passou por três cirurgias, o que leva algum tempo para se recuperar física e emocionalmente. Mas é uma guerreira! Foi em frente com o apoio de sua mãe e dos treinadores. Parece que seu emocional está muito bem equilibrado.

Rebeca Andrade é uma vencedora na vida e agora uma medalhista na Olimpíada de Tóquio. Ela é um exemplo a ser seguido. Vamos torcer para que seja só o começo. Que nossa Rebeca traga outras medalhas!

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