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Reflexões do ouro

Alição mais importante deixada pela conquista da medalha de ouro é a que nos ensina a separar o resultado do contexto da vitória. A defesa do goleiro Weverton, na última cobrança de pênalti da Alemanha, validou as ideias de Rogério Micale e fez da seleção olímpica uma esperança para o futebol brasileiro.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2016 | 03h00

É a cultura do resultado em ação, na qual apenas o placar é capaz de nos dizer se o trabalho foi bom ou ruim. Seria um exagero atribuir a vitória apenas a individualidades, ignorando o todo, o desafio e a organização coletiva.

Mas foram dois lances bem definidos, pontuais, da mais pura qualidade individual que desataram o nó que separava o Brasil da medalha de ouro no futebol: o gol de falta de Neymar e a bola defendida por Weverton.

Na cultura do resultado, se o goleiro tivesse saltado para o canto oposto e a decisão por pênaltis tomado outro rumo, tudo que se lê e se ouve sobre a extraordinária conquista se transformaria numa pancadaria sem dó, salvo raríssimas exceções.

Mesmo assim, por uma questão de bom senso, seria obrigatório dizer, mesmo com a prata, que o trabalho desta seleção foi muito bom depois do início preocupante. O problema seria encontrar alguém disposto a acreditar nisso. Rogério Micale seria demitido e todo o conteúdo perdido.

No embate entre o conhecimento e a crendice, existe no mundo do futebol um raio mais rápido que Usain Bolt. Com pensadores de 140 caracteres cada vez mais ativos, a raiva tomaria o lugar da felicidade. E a ideia de dar continuidade ao que foi desenvolvido até agora seria uma loucura.

A medalha de ouro não é a revanche dos 7 a 1 da Copa do Mundo e não representa a recuperação do futebol brasileiro diante da história. Ela é o resultado de um grupo talentoso e da transformação em meio ao massacre físico e mental bancado pelo torneio olímpico de futebol, com seis partidas em 17 dias. Ajustes na escalação, no sistema tático e no comportamento dos jogadores conduziram a seleção ao ouro.

Méritos para a comissão técnica, a prova cabal do acaso como timoneiro de algumas de nossas conquistas. No plano original da CBF, o comandante da expedição ao ouro olímpico seria Dunga, campeão mundial de futebol em 1994 e um ponto de interrogação como arquiteto de modelos futebolísticos. A demissão do treinador e a substituição por Tite evitaram o estresse que certamente tomaria conta do dia a dia da seleção.

Micale é um sujeito tranquilo, criado pela urgência do futebol que todos os dias enfrenta o atraso. Há quem se espante com seu futebolês técnico e o defina como acadêmico, teórico, termos geralmente utilizados pela preguiça para diminuir um treinador.

Entendê-lo, porém, é mais simples do que parece, afinal, ele fala a língua do futebol que se especializou em nos derrotar. Não há nada de estranho nisso, o perigo é desprezar o jogo que evolui todos os dias e tem aposentado precocemente muitos figurões parados no tempo.

Se a cultura do resultado ainda é o que nos orienta, o momento é perfeito para fazer dela algo positivo. A ideia da manutenção de uma equipe de jovens se encaixa perfeitamente ao trabalho de Tite, pois nem todos estão prontos para vestir a camisa da seleção principal.

O entrave está no calendário. Como a CBF não respeita as datas destinadas pela Fifa a jogos oficiais e amistosos, alguns times brasileiros poderiam ser seriamente prejudicados pelas duas convocações.

As marcas do vexame no Mineirão jamais serão apagadas. Enquanto as causas não forem enfrentadas seriamente, as feridas continuarão abertas, sangrando, em busca de um motivo para converter cartolas vilões em heróis. Que a medalha de ouro possa ajudá-los a refletir e, finalmente, tomar decisões corretas.

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