Alexander Zemlianichenko/AP
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Relatório revela tráfico de influência na Agência Antidoping da Rússia

Nos últimos anos, entidade já foi acusada de manipular ou encobrir testes de atletas

Tariq Panja, The New York Times

20 de fevereiro de 2020 | 10h00

Uma auditoria na Agência Antidoping da Rússia, que anos atrás esteve no centro de um escândalo esportivo internacional, parece ter descoberto um novo problema: centenas de milhares de dólares (e talvez ainda mais) pagos a empresas vinculadas a ex-executivos da agência.

Os pagamentos, documentados por consultores financeiros da Baker Tilly em um relatório encomendado pelo diretor-geral da agência, foram para equipamentos de teste de drogas e outros bens e serviços. De acordo com um resumo do relatório de 54 páginas analisado pelo jornal The New York Times, a agência, conhecida como Rusada, chegou a pagar até 50% a mais do que os preços de mercado nas compras.

"As compras não foram feitas por meio de licitações, mas por decisão dos principais gerentes da organização", segundo o relatório, que apontou um ex-diretor da agência como um dos envolvidos.

A acusação de autocontratação por ex-executivos da Rusada é apenas o mais recente escândalo envolvendo a agência, que, nos últimos anos, foi acusada de manipular ou encobrir testes de drogas que deveriam ter barrado atletas russos e, depois, de sabotar uma investigação de fiscais antidoping internacionais sobre sua conduta.

A auditoria das finanças da Rusada foi encomendada pelo atual diretor-geral da agência, Yuri Ganus. Ex-executivo do setor ferroviário, Ganus jamais havia trabalhado com administração esportiva antes de assumir o cargo, em 2017, mas tinha experiência em resolver problemas de organizações em crise.

Uma de suas primeiras tarefas, disse ele, foi examinar as finanças da Rusada. Quando os custos com equipamentos e outras despesas pareceram muito mais altos do que o esperado, ele contratou a Baker Tilly para analisar todas as contas da agência. "Eu vi os documentos", disse Ganus em uma entrevista por telefone. "E vi grandes diferenças entre o que foi proposto e os preços que eles pagaram".

Ganus esperava que as autoridades russas tomassem alguma medida depois de receberem as conclusões do relatório. Uma investigação foi aberta e alguns funcionários foram entrevistados, disse ele, mas o caso foi encerrado subitamente. Acreditando que sua agência foi vítima de fraude, ele escreveu ao escritório do promotor público em Moscou, para exigir a reabertura da investigação. "Confio nesse relatório", disse Ganus. "Fui contra quando o comitê de investigação interrompeu os trabalhos".

Os detalhes das transações financeiras da Rusada são apenas a mais recente preocupação com a agência e a credibilidade do esporte russo. No final do ano passado, a Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês) baniu a Rússia de esportes internacionais por quatro anos – incluindo a Olimpíada de Tóquio – depois de descobrir que os principais dados laboratoriais relacionados a um escândalo de doping anterior haviam sido manipulados. A Rússia recorreu da proibição junto ao Tribunal de Arbitragem do Esporte, que deve ouvir o caso no final de abril ou no início de maio.

A análise da Baker Tilly identificou várias empresas que pareciam ter apenas um cliente, a Rusada, e outras das quais eram investidores ou coproprietários várias pessoas descritas como "ex-executivos do primeiro escalão" da agência antidoping. O relatório também encontrou exemplos de transações com as chamadas “empresas de um dia”, que operam por um curto período de tempo, ou por apenas um pequeno número de transações, antes de desaparecer.

"Solicitamos que se preste atenção a essas compras como um possível caso de abuso financeiro por parte da gerência da organização", afirmou o relatório da Baker Tilly. O relatório alertou que quantias significativas de dinheiro foram gastas com fornecedores com "níveis potencialmente altos de risco".

Segundo o relatório, entre os funcionários envolvidos nas empresas estava Ramil Khabriev, que renunciou ao cargo de diretor da Rusada em dezembro de 2015. Sua saída ocorreu depois que a Wada suspendeu a agência devido ao que se considerou uma operação de doping em escala industrial com atletas russos.

A suspensão da Rusada foi cancelada em setembro de 2018, quando a Rússia prometeu entregar detalhes sobre dados de laboratório que permitiriam que as organizações esportivas finalmente determinassem as identidades dos atletas dopados. Mas a retomada das atividades da Rusada teve curta duração: no ano passado, a Wada concluiu que os dados de laboratório fornecidos pela Rússia foram propositalmente alterados ou ocultados. A Rusada foi suspensa mais uma vez em dezembro, como parte do banimento mais amplo imposto ao esporte russo. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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