Julio Cesar Guimarães / COB
Julio Cesar Guimarães / COB

Richarlison era o 'Lamparina' na várzea de Nova Venécia e agora ilumina o caminho do ouro em Tóquio

Ex-vendedor de picolé na infância, o atacante da seleção olímpica ganhou o apelido do técnico Tião Borboleta por clarear as jogadas de ataque

Toni Assis, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 03h00

Richarlison fez história nesta quinta-feira, ao fazer três gols nos 4 a 2 do Brasil sobre a Alemanha, na estreia das duas seleções no torneio de futebol masculino da Olimpíada de Tóquio. Foi a primeira vez que ele marcou três vezes em uma partida e mais um grande momento para alguém que já foi vendedor de picolé em Nova Venécia, cidade capixaba onde nasceu, e que tinha o apelido de Lamparina quando estava atuando na várzea.

Aos 24 anos, Richarlison se firma cada vez mais. Um dos preferidos de Tite na seleção principal, quis jogar a Olimpíada - conseguiu que o Everton o liberasse -, pediu a camisa 10 ao técnico André Jardine e teve uma estreia dos sonhos nos Jogos. “Estou muito feliz, um sonho realizado. Quando pedi a liberação no Everton foi para isso, honrar a camisa. Espero continuar assim, hoje vai ser uma noite inesquecível’’, disse,  após a partida com os alemães.

Nada mal para o Lamparina, apelido que lhe foi dado por Tião Borboleta, um dos primeiros treinadores de Richarlison, ainda na infância do atacante. “Ele (Tião) gostava de chamá-lo assim por clarear as jogadas. Achava sempre um jeito de facilitar os lances. Além de saber fazer gols também”, recordou ao Estado o comunicador Edvaldo Alves, da Rádio Cidade de Nova Venécia.

Edvaldo também falou um pouco do cotidiano daquele que hoje é um ilustre filho do município capixaba. “O Richarlison teve uma vida muito simples. Era de uma família pobre e vendia picolé para ajudar em casa. Sempre foi uma pessoa generosa e ligada às raízes. E, desde cedo, sempre gostou muito de jogar futebol.”

Richarlison se destacou pelo Leão de São Marcos. Mas, antes disso, chegou a despertar suspeitas de que não levava muito jeito para o futebol em seus primeiros chutes na bola. “Isso foi quando ele jogou no Palestra, time que fazia parte de um projeto social. Talvez por timidez, o Richarlison não tenha se destacado. Depois, ele evoluiu de tal forma que ninguém mais segurou. Esse projeto, que ainda existe, é muito importante para tirar os garotos da criminalidade”, comentou o radialista.

Ativo nas redes sociais, Richarlyson não deixa de se posicionar sobre temas como racismo e desigualdade e é solidário com pessoas em dificuldades - em janeiro, por exemplo, doou 10 cilindros de oxigênio para hospitais de Manaus.

Envolvido em questões sociais em sua cidade natal, o atacante sempre procura ajudar as regiões carentes do município com algum tipo de auxílio e a sua popularidade no futebol. Entre os seus empreendimentos na localidade está o Nova Venécia Futebol clube, onde aparece como padrinho.

A equipe, que disputa a Série B do Campeonato Capixaba, tem 100% de aproveitamento nas três primeiras rodadas. As cores do time são o verde e o amarelo e o mascote é um Leão.

“A equipe é recém-formada e o treinador é o Cassio, que foi lateral esquerdo do Vasco nos anos 90. O grupo é composto por atletas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais e a estrutura é bem legal. No início, houve dificuldade para reunir um elenco e disputar o campeonato. Com a boa campanha, vários jogadores já estão interessados em jogar aqui.”

Antonio Marcos, 45 anos e pai de Richarlison, faz parte do elenco do Nova Venécia. No último confronto, em que o time local bateu o Aster por 4 a 0, o patriarca entrou em campo nos minutos finais. “Mas foi bem no finalzinho e acho que ele nem chegou a tocar na bola”, comentou Edvaldo. Outro parente a figurar no plantel é Elton, tio do atacante, que tem 37 anos.

No projeto do clube, está a construção de um estádio. A previsão é que ele esteja concluído em 2022. Com capacidade para três mil pessoas, o campo levará o nome do avô do jogador, que já é falecido: Armindo Francisco da Silva. “O Richarlison foi criado pelos avós e tem muito carinho por eles. A homenagem é justa”, disse Edvaldo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.