Denis Balibouse/Reuters
Serge Huguenin trabalha sozinho na Fonderie Blondeau, uma minúscula fábrica situada num dos rincões mais afastados da Suíça Denis Balibouse/Reuters

Rito centenário no atletismo, sino é produzido em minúscula fábrica na Suíça

21 sinos foram produzidos e enviados ao Brasil mantém caráter humano da competição

Jamil Chade, enviado especial ao Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2016 | 05h00

É das profundezas dos vales suíços que um dos sons mais esperados no Rio virá. Feitos da mesma forma por séculos, os sinos usados para marcar o tempo no atletismo e ciclismo saem de moldes únicos e criados especialmente para o evento. Assim como nas montanhas dos Alpes, seu objetivo no Rio é o de garantir que seu som chegue a todos os cantos. 

O sino é usado nos Jogos Olímpicos desde sua primeira edição, em 1896. Sua função é a de alertar aos atletas e torcedores de que uma competição está entrando em sua volta final. A partir do momento que soam os sinos, torcedores ficam de pé, treinadores prendem suas respirações e atletas colocam suas carreiras em jogo.

 Se no final do século XIX o sino era talvez uma das formas mais eficientes para marcar esse momento, a realidade é que, mais de cem anos depois, a tecnologia poderia permitir que dezenas de outras metodologias ou instrumentos fossem usados tal função. 

Mas a tradição foi mantida. Sua resistência ao tempo e o contraste à tecnologia de ponta o transformaram em um símbolo do caráter humano da competição.

Para o Rio de Janeiro, um total de 21 sinos foram produzidos e enviados ao Brasil pela Fonderie Blondeau, uma minúscula fábrica situada num dos rincões mais afastados do país alpino: La Chaux-de-Fonds. 

Quem irá operar os sinos será a empresa Omega que, desde 1932 nos Jogos de Los Angeles, tem um contrato com o COI para cronometrar atletas e os eventos. A partir dos Jogos de Moscou, em 1980, a companhia com sede também na Suíça passou a encomendar seus sinos aos fabricantes locais, acostumados a fornecer os produtos a granjeiros nos Alpes para que possam identificar onde, entre tantos vales, estavam suas vacas.

Os sinos amarrados nos pescoços dos animais se transformaram em um dos símbolos da Suíça. Mas se por décadas a empresa garantia suas vendas com o fornecimento ao setor pecuário, hoje ela garante sua sobrevivência principalmente com grandes eventos, cerimônias e festas.

Para cada sino, um molde diferente e único é produzido. A empresa, passada entre membros da família desde meados do século XIX, chegou a ter oito funcionários em seu auge, há mais de 25 anos.  Hoje, seu dono Serge Huguenin trabalha sozinho e, às vezes, com a ajuda de seu filho. Mas a produção resiste, sempre sob encomenda. 

Os instrumentos que estarão no Rio usaram areias com mais de 50 anos de idade, levadas ao local de fundição especialmente da região de Paris. Ali, são peneiradas, colocadas em um molde e então aquecidas a 1200 graus. Com ferramentas rudimentares são gravadas as palavras: RIO 2016 – JOGOS DA XXXI OLIMPÍADA

"Os sinos escaparam das iniciativas perigosas do progresso”, diz a Omega. Para a marca, o sino é talvez um dos poucos itens que acompanha a olimpíada desde sua criação e, se depender dela, a tradição vai continuar. A marca de relógios tem um contrato até 2020 e não pretende se desfazer da parceria.  

"Embora os técnicos que desenvolvem a tecnologia de ponta do equipamento de cronometragem devam se manter a frente das rápidas mudanças, pouca coisa mudou para o produtor do sino na era digital", constata a Omega. 

Das profundezas da Suíça, a fundição dos sinos se une à mitologia grega das Olimpíadas. Mitologia essa que dava justamente aos gigantes imortais que trabalhavam como ferreiros - os ciclopes - a função de forjar os raios usados por Zeus para marcar seu poder e tempo.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.