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Rogério Micale apresenta um perfil diferente da média dos treinadores brasileiros

Em entrevista, técnico expôs suas ideias para a seleção olímpica e se emocionou

Almir Leite, enviado especial a Goiânia, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2016 | 13h53

Rogério Micale tem um perfil bem diferente da média dos treinadores do futebol brasileiro. É franco, não fica na defensiva nem apela para respostas padrão, coloca claramente suas ídeias, não faz força para controlar a emoção. E também despreza o estilo “sabe-tudo''. Nesta sexta-feira, véspera do amistoso com o Japão em Goiânia, ele deu entrevista, novamente expôs suas ideias para a seleção olímpica e se emocionou, a ponto de ficar com os olhos marejados, ao falar sobre o momento difícil por que passa o Brasil. A seguir, os principais trechos.

 

APRENDIZADO

A busca de conhecimento é constante porque o futebol requer a busca incessante de ver o que está acontecendo. Os sistemas mudam quando aparece uma equipe expoente no mundo, que chama atenção. Aí você busca saber o que está sendo feito, por que consegue ter êxito. 

IMITAÇÃO

Isso é uma coisa que nós, brasileiros, temos de tomar cuidado, não querer copiar 100% o que acontece no mundo, mas foge das nossas características. Foi assim quando a Itália foi campeã do mundo, quando a Espanha foi campeã e na última Copa (2010), com a Alemanha. Fizemos uma reflexão, vimos o modelo da Alemanha, que é muito competente, mas tenho dizer que tenho orgulho do futebol brasileiro, dos nossos jogadores, eles têm uma qualidade no último terço que o mundo admira. Por que não adequarmos isso a um modelo de jogo a uma intensidade que é mundial?

'PRODUÇÃO' PRÓPRIA

Eu não criei nada, só peguei algo que é bom em algum lugar e tento colocar no meu trabalho. Temos de explorar a qualidade nos nossos jogadores do último terço. Não sei se vamos ter sucesso (na Olimpíada), mas tem de ter convicção no trabalho.

COMO SERÁ A SELEÇÃO

Vamos tentar colocar em prática o que fizemos nos treinamentos, os conceitos, forma de jogar. Mas, mais do que isso, vamos tentar passar a vontade que a seleção tem de jogar futebol e ganhar essa medalha. O espírito de entrega, a coletividade... Queremos mostrar que estamos sensíveis ao clamor por uma seleção que luta, briga e compete a todo momento. Minha expectativa é em cima disso, tenho certeza que os jogadores estão preparados e vão dar a resposta neste jogo. 

TÉCNICO FACILITADOR

Quem vai desenvolver o jogo é o jogador, ele vai fazer a coisa acontecer. O feedback dele se o treino é bom ou não é importante para o treinador. Há individualidades, um gosta da marcação por zona, outro individual, um está acostumado ao sistema do Barcelona, outro do Santos. Unir tudo isso tem certa dificuldade. Quero ser um facilitador, longe de mim querer atrapalhar.

QUATRO ATACANTES

É possível ser equilibrado com quatro atacantes se houver entendimento do momento de mudar a chave. Se todo mundo entender a importância de jogarmos com 11 em todo momento do jogo, não vejo nada que agrida essa forma de jogar. Quanto mais jogadores em campo com qualidade técnica acima da média, qualidade ofensiva forte, que gere desequilíbrio no adversário, não vejo problema.

 FATOR HUMANO

Acredito muito no ser humano, quando olhamos no olho de outra pessoa e sabemos que ali existe uma pessoa de caráter. Existe uma ansiedade muito grande aqui por uma medalha de ouro, um metal que vamos colocar no peito e representa algo muito grande para nossa história, mas mais que isso, o futebol pode falar de outras coisas.

MENSAGEM AO POVO

Nosso país vive tantas coisas, um povo que sofre tanto. Nós, que temos oportunidade de trabalhar numa competição com tantas atenções, podemos falar ao nosso povo sem palavras, com trabalho nos pés, que existem homens comprometidos aqui, sensíveis ao que acontece no Brasil, às mudanças políticas, com repúdio muito grande à corrupção. Nossa contribuição é de entrega total.

CHANCE DE DISPUTAR A OLIMPÍADA

Isso representa mais do que uma medalha de ouro. Não prometemos a medalha, mas vamos nos entregar para mostrar ao povo que é possível com trabalho, honestidade, olho no olho, relacionamento, abraço (em seguida, Micale abraçou o zagueiro Marquinhos, que estava a seu lado na coletiva). Podemos demonstrar afetividade e que nos preocupamos com algo maior, com nosso povo. A única forma que temos de representar isso é jogar futebol sem olhar pro nosso umbigo." 

TIME PRONTO

Estamos prontos como homens, seres humanos que têm sentimentos, vamos nos entregar de corpo e alma. Nunca existe pronto no futebol, mesmo na melhor equipe que se conheça, sempre há algo aberto. Em espírito, alma, sentimento, sabemos bem claramente o que queremos. Se a medalha virá ou não, é um jogo de futebol, mas estamos entregues a essa causa.

DUNGA E TITE

Tite é dessas pessoas que citamos do relacionamento humano. Você olha no olho e vê que é do bem. Temos conversado muito, temos coisas em comum, queremos o melhor para nosso futebol, trabalhamos intensamente para isso. E gostaria de citar o professor Dunga, que respeito muito, um atleta que conseguiu um título de grande expressão e merece respeito dos brasileiros pela luta. Dunga passou por um momento muito difícil na carreira, superou, é uma pessoa que nos dá inspiração por tudo que passou. Gostaria de deixar essas duas reverências, ao Tite, que está entrando, e ao Dunga, que participou efetivamente de uma das estrelas que temos no peito.

 

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