Stoyan Nonov/Reuters
Stoyan Nonov/Reuters

Rússia arquitetou megafraude de doping no Rio-2016

Investigação da Wada aponta que meta do esquema iniciado em 2011 era ter o ápice na Olimpíada; russos mascaram doping com álcool

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2016 | 06h00

A delegação russa, com a ajuda do governo de Vladimir Putin, preparou uma fraude em grande escala para ser colocada em prática na Olimpíada do Rio, falsificando amostras de urina e manipulando testes de doping. É o que revelam e-mails obtidos pelos investigadores da Agência Mundial Anti-Doping (Wada), que estiveram entre os mais de 4 mil documentos usados para concluir que mais de mil atletas do país foram beneficiados por esquemas de manipulação de resultados de doping iniciado em 2011.

A estratégia de Moscou para a Rio-2016 foi minada pela exclusão de mais de uma centena de seus atletas dos Jogos. Mas os dados levantam dúvidas sobre as mais de 50 medalhas que a Rússia obteve no Brasil. As conclusões fazem parte do relatório final preparado pelo investigador Richard McLaren, apresentados ontem. De um esquema inicialmente improvisado, a fraude ganhou contornos institucionais e com alto grau de sofisticação em 2015, na fase final de preparação para o Rio.

Uma das estratégias dos russos para mascarar o uso de alguns produtos ilegais era misturá-los com álcool, café ou sal. Mas, com base em trocas de e-mails entre autoridades de alto escalão do país, os investigadores da Wada que trabalham para desvendar o gigantesco esquema de doping desenvolvido, suspeitam que os cientistas já buscavam outras maneiras de ocultar as substâncias ilegais.

A desconfiança sobre o uso do álcool é sustentada, por exemplo, na troca de correspondências entre o chefe do laboratório russo, Grigory Rodchenkov, e o vice-ministro de Esportes, Alexei Velikodniy, em 10 de julho de 2015.

Em um deles, Rodchenkov alerta o vice-ministro: “Precisamos garantir que possamos mostrar progresso com peptídeos. De outro lado, é necessário entender que, sob as duras condições, dificilmente ir de bar em bar no Rio vai os matar (os atletas) se não estiverem com o objetivo de ser reconstruído. Mas não com a ajuda dos passaportes de esteroide.”

A alusão “de bar em bar’’ significaria recomendação para o uso de bebidas alcoólicas para esconder o doping. Mas o e-mail também mostra preocupação em encontrar outras alternativas, para que os atletas não tivessem de consumir álcool.

Em outros e-mails, o chefe do laboratório enviou a Velikodniy lista com nomes de dezenas de atletas de diferentes modalidades e a mensagem: “Limpeza dos estudantes, ao bar também”. Os investigadores suspeitam que se trata de atletas dopados que precisariam ser protegidos antes do Rio.

Ao Estado, pessoas envolvidas na investigação disseram que suspeitas apontam que o sistema estava montado para garantir que o Rio-2016 fosse o apogeu dessa manipulação. Mas o escândalo que eclodiu logo antes dos Jogos no Brasil, com a revelação de que o esquema de doping era patrocinado e organizado pelo Kremlin. 

O COI, porém, optou por não suspender toda a delegação russa, e sim pouco mais de cem atletas, aqueles que não conseguiram provar inocência. Às vésperas do evento no Rio, a delatora do esquema, a russa Yulia Stepanova, alertou em entrevista exclusiva ao Estado que atletas dopados estariam competindo no Brasil. Mesmo sem contar com um terço de sua equipe, o país ganhou 56 medalhas nos Jogos, numa impressionante quarta posição.

Havia outros artifícios usados no esquema montado a partir de 2011. Foram encontradas amostras de urinas “com níveis de sal fisicamente impossíveis” e mesmo “temperadas com café”. Isso ocorreu em exames feitos a partir de 2013, quando o esquema se sofisticou. 

Para o investigador McLaren, havia um “sistema disciplinado estabelecido para ganhar medalhas, principalmente nos Jogos de Sochi de 2014’’. A Rússia sediou naquele ano a Olimpíada de Inverno.

 

 

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