Phil Noble | Reuters
Phil Noble | Reuters

Rússia enfrenta seu maior adversário: a desconfiança

Escândalo do doping no atletismo preocupa Moscou na busca da terceira colocação no quadro de medalhas

Jamil Chade / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2016 | 07h00

Prioridade de estado para o presidente Vladimir Putin, a participação da Rússia no Rio de Janeiro tem uma meta clara: colocar o país de volta ao pódio e estar entre as três maiores potências do esporte mundial. Mas a eclosão do escândalo do doping no atletismo promete arranhar de uma forma profunda os planos iniciais e, até agosto, o objetivo dos dirigentes russos é o de evitar que as suspeitas no atletismo contaminem outras modalidades.

Em Pequim, em 2008, os russos terminaram com 73 medalhas e na terceira posição na contagem de geral. Naquele ano, os americanos terminaram o evento com 110 medalhas, contra 100 da China. Em 2012, a mesma ordem foi mantida, com 103 medalhas aos americanos, 88 para a China e 81 para os russos.

Mas é a classificação de medalhas de ouro que determina o lugar de um país no ranking final. Nesse caso, os russos perderam espaço. Em 2008, Moscou obteve 23 ouros, contra 36 dos EUA e 51 para a China.

Quatro anos depois, porém, os russos saíram da lista dos três maiores vencedores e somaram menos medalhas que em 2000 ou 2004. Com 24 ouros, a Rússia foi superada pela Grã-Bretanha, na terceira colocação. Empurrados pela torcida local, os donos da casa ficaram com 29 medalhas.

Os cálculos dos russos, agora, apontam que os britânicos não repetirão o mesmo padrão de medalhas e os anfitriões em 2016, o Brasil, não terá um salto suficiente para ameaçá-los.

Se em teoria os planos estavam caminhando em boa direção, tudo mudou em novembro quando a Agência Mundial Antidoping (Wada) revelou a corrupção e as manobras do governo russo para impedir que seus atletas, ainda que dopados, fossem pegos nos testes. A notícia tirou a Rússia das competições de atletismo e dificilmente o país conseguirá reformar seu sistema a tempo para competir.

Nas contas dos russos, portanto, o impacto pode ser profundo. Em 2012, foram 17 medalhas no atletismo. A esperança se transferiu para a natação, com os atletas Vlad Morozov, Yulia Efimova, Danila Izotov, Alexander Sukhorukov e Daria Ustinova. Mas a natação russa também está sob o olhar suspeito da Wada. Em poucos anos, mais de 20 nadadores foram pegos nos testes de doping.

Mas, para Putin, a ordem é a de não se deixar abalar pelos escândalos e blindar os demais atletas para que possam garantir resultados expressivos. Num discurso aos presidentes de federações nacionais de cada um dos esportes, feito em novembro, o chefe de Estado deu ordens para que cada modalidade fizesse um trabalho com as federações internacionais respectivas para evitar que o caso do atletismo contamine todo o esporte russo.

Ao Estado, um membro da delegação que estará no Rio confessou que a meta agora é a de minimizar a desconfiança que poderá haver sobre cada atleta russo que subir ao pódio, em qualquer competição. “Temos agora de enfrentar os adversários no campo de jogo e na mentalidade dos dirigentes”, admitiu, pedindo anonimato.

Putin, em seu discurso, também apontou para a mesma direção e tentou se desvencilhar de qualquer sugestão de que o doping sejam uma política de Estado. “A responsabilidade é sempre pessoal”, disse. “Está claro para mim que atletas que estão longe do doping, que nunca tocaram em drogas, não devem responder por aqueles que violam as regras”, afirmou Putin. “Portanto, estou pedindo a vocês (presidentes de federações nacionais) a tomar ações nessa linha e trabalharem nessa direção com nossos colegas de organizações internacionais”, completou o russo.

Em outras palavras, Moscou tentará convencer cada uma das entidades internacionais dos diferentes esportes que o doping no atletismo não significa que outros atletas russos também estejam dopados. Dick Pound, autor do informe da Wada, é de outra opinião. “Não existe motivo para pensar que o caso se limite ao atletismo.”

Além de blindar os demais atletas, os russos ainda sabem que terão menos de 200 dias para incrementar os trabalhos de suas equipes. Se nos esportes individuais os resultados têm sido positivo, no coletivo o Kremlin não está satisfeito.

Falando praticamente como um treinador, Putin deixou claro que, ainda que 2015 tenha sido “fundamental” na preparação dos atletas, “ainda há tempo para fazer ajustes”. Mas o movimento olímpico russo se mostra esperançoso. Em 2015, Moscou teria conseguido qualificar para o Rio mais de 215 atletas e estariam chegando ao Brasil com o terceiro maior contingente. Os russos ainda competirão por mais 181 lugares até agosto.

Aqueles já classificados começam a estudar formas de melhor se adaptar ao Brasil. Vivendo uma realidade bastante diferente dos trópicos, os atletas russos mudarão seus hábitos para chegar ao Rio ambientados. O time de natação, por exemplo, fará sua preparação final em Lisboa, em julho. Faltando poucos dias para o evento, os russos se mudarão para São Caetano, antes de finalmente desembarcar na Vila Olímpica.

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