Saudades dos Jogos

Fazer os Jogos Olímpicos enriquece o Brasil

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2016 | 03h31

Entre os comentários a respeito dos Jogos Olímpicos no Rio, um em particular me chamou a atenção. É atribuído na internet ao ator americano Bill Murray, de quem sou fã, e sugere em cada prova dos jogos o acréscimo de um ser “normal”, um “civil”, ou seja, um competidor sem qualificações, para nos dar a medida da grandeza e habilidade dos atletas olímpicos. A inclusão deste “não atleta” serviria, enfim, para criar um termo de comparação entre eles, os deuses do Olimpo, e nós, os mortais. Há dúvidas se essa sugestão veio de fato do ator hollywoodiano. Se você não está lembrando, Murray fez Os Caça-Fantasmas, Encontros e Desencontros e Feitiço do Tempo. A sugestão traz, me parece, um pouco do seu senso de humor. Mas seja de Bill Murray, ou não, desde que li essa ideia não consigo assistir aos Jogos com o mesmo olhar.

Mal termina a majestosa corrida de 400 metros do sul-africano Wayde van Niekerk, em 43s03 , novo recorde mundial, dez metros à frente do segundo colocado, na noite de domingo, e me ocorre a pergunta: onde estaria o Bill Murray, se ele próprio fizesse este papel do corredor “civil”? Lá pela marca dos 110, 120 metros, imagino. Não seria justo com Wayde permitir a uma celebridade fazer o papel do “não-atleta”, concluí ali no sofá. Tiraria a atenção do seu marco mundial. Mas não está claro como escolher os hipotéticos “não-atletas”. Um bilhete premiado, talvez? Imagino algum torcedor sendo informado na chegada à piscina dos saltos ornamentais que ele foi o escolhido da plateia para competir. “Está aqui seu maiô e a toalha, pode se trocar no vestuário à esquerda... e boa sorte.” Seria emocionante, convenhamos.

E é provável que renderia muitos comentários e filmes divertidos para compartilhar na internet, depois, desde que não morresse ninguém. Um dos aspectos da Olimpíada que mais me atrai é este seu, digamos, existencialismo. A ideia de que nada neste mundo faz tanto sentido assim então vamos passar este nosso tempo na Terra vendo quem consegue correr mais rápido, jogar mais longe o dardo, acertar o alvo mais vezes com o arco e flecha. Em algum momento histórico estas habilidades tiveram utilidade. Serviam para caçar, levar informações, guerrear. Não mais. Continuamos curiosos para saber quem é o mais forte, o mais veloz, o melhor lutador. Gostamos, ao que tudo indica, de competir e de brincar uns com os outros.

Os esportes em geral e os Jogos Olímpicos em particular conseguem esta proeza de ser muito e pouco importantes ao mesmo tempo. Estimulam o nacionalismo das guerras, mas sem as matanças. Nenhum outro evento é mais eficaz na criação de mitos e histórias, nem mesmo a indústria de cinema de Hollywood. Pensei nisso, domingo à noite, ao assistir a corrida de 100 metros de Usain Bolt. Ele é o que há de mais próximo a um super-herói fora do universo da ficção, fora dos filmes arrasa-quarteirões de Hollywood. O mundo inteiro sabe quem é Bolt, e torce por ele, neste seu esforço para renovar a carteira de super-herói. É o homem mais rápido do mundo. Queremos que ele seja vitorioso, e sobretudo que exista. Ele satisfaz nosso desejo primitivo e profundo por mitos, como nenhum outro indivíduo, hoje, com a possível exceção do Papa.

Fazer a Olimpíada enriquece o Brasil, culturalmente. Forçou-nos a contar nossa história para o mundo na cerimônia de abertura. Está nos obrigando a definir se somos torcedores animados ou indisciplinados, se somos capazes de realizar um evento desse porte, se conseguimos ou não arrumar a casa suficientemente para receber o planeta todo e se somos tão bons nos esportes quanto gostaríamos de ser. Até o biscoito Globo está sendo submetido a questionamentos, e pelo New York Times, nada menos. Isso tudo acontece num momento de grande fragilidade política e econômica no País.

Até agora estamos nos saindo bem nessas provas culturais e logísticas, com diversas medalhas, diria eu. Vou sentir saudades dos Jogos Olímpicos.

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