Mario Cilenti, o senhor das 60 mil chaves na Olimpíada

Argentino que pilota a Vila Olímpica revela os desafios para acomodar 206 delegações

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2016 | 17h00

Sobre uma mesa de reuniões no QG do Comitê Organizador dos Jogos, no bairro da Cidade Nova, Mario Cilenti saca de uma pasta o desenho de 31 prédios divididos em 7 condomínios. Serpenteando entre eles, árvores, espelhos d’água e piscinas recreativas. Salpicados: restaurantes, policlínica, posto policial, academia, área de recreação, “peluqueria”, McDonald’s, loja, Correios. Dentro dos prédios, 3.604 apartamentos de 70 a 170 m². Dentro dos apartamentos, 18 mil camas, 22 mil travesseiros, 672 mil toalhas, 700 mil lençóis, 60 mil cabides, 650 mil rolos de papel higiênico, 60 mil chaves. “Na Vila Olímpica, tudo é vezes milhares”, diz Cilenti, num sorriso largo.

Milhares, por enquanto, são as expectativas para que tudo isso vire uma Vila 3D. Previstos para serem entregues até março, os apartamentos estão lá, num terreno em formato de onda, na Barra da Tijuca. Mas muitos continuam no osso. “Alguns nem piso têm”, reconhece Cilenti. Diretor de Relações com Comitês Olímpicos e Paralímpicos Nacionais e Vila Olímpica, ele sabe que seu cargo quilométrico acumula milhas de cobranças. É dele o aval para questões que envolvem acomodação, transporte, alimentação e credenciamento de 18 mil pessoas vinculadas a 206 delegações que se hospedarão na Vila de 27/7 a 27/9.

De silente, Cilenti nada tem. É um homem loquaz de 45 anos que por vezes mescla português, inglês e espanhol na mesma frase, fruto da nascença argentina, da cidadania canadense e da residência no Brasil desde 2004. “De repente, nunca nadie pensou outside de box.” Queria explicar que, não raro, as pessoas têm dificuldade para pensar fora da caixa. Cilenti comparava o jeito de fazer Olimpíada aqui com o que viu em Sidney, Pequim e Londres, onde as regras foram seguidas ipsis litteris, muitas vezes sem o jogo de cintura necessário. “O COI está mais flexível porque a realidade mudou muito, e não foi só no Brasil”, afirma. “O Comitê não quer estar associado a bilhões e bilhões de gastos em coisas ‘inecessárias’”. A ideia, continua ele, é ser objetivo e simplificar. “Common sense: keep it simple.”

Um exemplo de common sense seria a altura dos prédios da Vila brasileira. Pelas regras do COI, era para serem mais baixos, mas os 17 andares casavam, diz Cilenti, com os interesses da empreiteira que toca a obra, com os interesses da cidade e com os das delegações. “Fizemos os estudos necessários de elevadores inteligentes, isso e aquilo, e o COI aprovou.” Ele acrescenta ao raciocínio o BRT e a rede de esgoto nova, que se converteriam num legado à Barra da Tijuca.

A Ilha Pura, nome do complexo, não é exatamente uma candura de consenso, especialmente no que toca aos interesses da cidade como um todo. Não são poucos os urbanistas e arquitetos que gostariam de ver os prédios em outro lugar – no centro, por exemplo –, convertidos em moradias populares depois dos Jogos, e não espichados até a Zona Oeste, onde se transformarão num condomínio de luxo.

“A Barra é uma planta que não vingou, um modelo urbanístico duro, que não agrega, não contribui para o convívio nem para o cotidiano das famílias”, diz a arquiteta Cêça Guimaraens, vice-presidente do IAB-RJ. O prefeito Eduardo Paes costuma afirmar que, embora a Vila não seja um legado de habitações populares por ter sido construída pela iniciativa privada em propriedade privada, seus dois mandatos entregaram 65 mil casas à população via Minha Casa Minha Vida.

Mario Cilenti está no seu primeiro mandato de prefeito de Vila Olímpica, vamos assim dizer. Mas seu histórico nesse mundo esportivo vem de certo tempo. Nascido na cidade argentina de Santa Fé, ele se mudou com os pais e o irmão para Toronto quando tinha 3 anos. Aos 14 dele, voltaram todos à Argentina, dessa vez para se estabelecerem em Mar del Plata.

Ali ele se inscreveu como voluntário para o Pan de 1995. Acabou chamado pelo Comitê Olímpico do Canadá para desempenhar o papel de “team attaché, aquele que faz liaison entre o comitê organizador que estava em Mar del Plata e o comitê olímpico, em Toronto”. Aos 24 anos, já casado com um vizinha de porta, foram para Winnipeg na cara e na coragem, mas muito bem agasalhados. Sob -40°C, ele se inscreveu no Pan de 1999. Virou assistente administrativo, “ganhando peanuts”, mas aos poucos se incorporou às relações internacionais.

Isso lhe abriu as portas para Sidney e então para os Commonwealth Games, em Manchester. Cilenti voltaria ao Canadá na direção do Comitê Olímpico antes de aceitar o convite de Carlos Arthur Nuzman para participar do Pan de 2007 como diretor de operações, “tipo um CEO”.

Do Pan a carreira tipo saltou para os eventos pró-candidatura da cidade aos Jogos Olímpicos. “Era a hora de contar a bela história do Rio, fazer lobby internacional”, diz, para logo trocar a expressão lobby por “trabalho de convencimento”. Em 15 meses, só Cilenti deu cinco voltas e meia no mundo. A vitória casava com outro cenário político e econômico. “Era o momento de acontecer.”

O que acontece hoje são decisões challenging, como alocar as delegações na Vila. “Onde o Brasil vai ficar? Aqui?”, perguntei, apontando um dos prédios maiores no desenho sobre a mesa. “Não posso dizer ainda”, respondeu, mas diz que começou com os top ten, depois com 25 delegações, agora 50. “Tem países que separam o feminino do masculino, outros separam por esportes, uns dizem que, se é para compartilhar andar ou térreo com outras equipes, que seja esta e aquela e, de preferência, longe daquela outra.”

A divisão geopolítica das equipes numa Vila Olímpica sempre foi um nó para os organizadores. O Brasil mesmo se meteu num potencial fogo cruzado em Barcelona-92, ao ficar entre Israel, a Comunidade dos Estados Independentes – antiga URSS, que reunia repúblicas em confronto com a Rússia – e os EUA.

Cilenti enfatiza que, fora o Maracanã no dia da cerimônia de abertura, quando ali sentarão vários chefes de Estado, a Vila é o lugar mais seguro do mundo para se estar. A varredura será extensiva. Ele mesmo será escaneado várias vezes, já que circulará no complexo nos 60 dias do megaevento, tal qual Jonathan Edwards, voz dos atletas no comitê organizador dos Jogos de Londres. Ouro no salto triplo em Sydney, ele passou pelas três Vilas anteriores e quis ser todo ouvidos na que ajudou a empreender. “Se o colchão for muito duro ou muito mole, se a comida estiver abaixo dos padrões, quero sentir isso e ouvir essa reclamação em alto e bom som”, declarou, antes do início dos jogos.

O argentino, que nunca foi atleta, mas gosta de dar suas braçadas, já havia negligenciado inúmeras ligações que recebeu no celular durante a entrevista. Além daquele gadget, tem mais dois, um deles pessoal, para atender os mais próximos. O filho, John Paul, está estudando no Canadá, mas será voluntário na Vila. “Vai ter que vir, senão não vai ver o pai. O pai vai morar ali”, finalizou, num sorriso de quem tem a expertise de fazer liaisons.

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