Gabriela Biló/Estadão
Isaquias tem um simulador de remadas na concentração da equipe de canoagem Gabriela Biló/Estadão

Simulador faz Isaquias remar em casa pelo ouro

Craque da canoagem espera que modalidade ganhe notoriedade

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2015 | 05h00

Isaquias Queiroz tem dois sonhos. O primeiro é o mesmo da maioria dos brasileiros: ter uma casa própria. O segundo é mais específico: quer se consolidar como o maior atleta da história da canoagem brasileira. No primeiro caso, o problema não é propriamente financeiro. Ele é beneficiário do Bolsa Pódio, do governo federal, e tem apoio da confederação, que recebe verba da Lei Piva (R$ 2,9 milhões em 2014), além do patrocínio do BNDES.

O problema são os sacrifícios da carreira. Isaquias divide um chalé com os outros membros da equipe de canoagem em Lagoa Santa, município de 50 mil habitantes em Belo Horizonte (MG). É quase um internato, com horários rígidos para tudo: treinar, descansar, comer e dormir. Tudo é tão cronometrado que ele ficou bronqueado com o atraso da reportagem do Estado causado pela neblina que fechou o aeroporto de Congonhas semana passada.

O descanso acabou prejudicado, e ele ficou de mau humor. É tudo tão puxado que ele tem, na varanda desse chalé, um simulador de remadas. Com ele, o técnico Jesus Morlán corrige a posição do braço de seu pupilo de perto, o que não consegue fazer dentro da lagoa.

Nos raros momentos de descanso, Isaquias vai para Ubaiataba, no sul da Bahia, reencontrar a mãe, servente na rodoviária da cidade e que sustentou os seis filhos praticamente sozinha – o marido morreu de derrame em 1999. Foi no rio que corta a cidade, o das Contas, que ele deu as primeiras remadas. Na época das cheias, que impedem os treinos, o atleta leva o simulador para lá, para não perder tempo. No meio de tanto treino, o canoísta de 21 anos não tem um canto só seu. Esse é o 1º sonho.

O segundo está encaminhado, mas depende do carimbo de uma medalha olímpica. No Pan, ele acrescentou ao currículo três medalhas de ouro no C1 1000 metros, no C2 1000 metros e no C1200 metros. Antes, havia sido o primeiro brasileiro campeão mundial júnior. No Campeonato Mundial de Canoagem de 2013, ganhou o bronze na prova nos 1000 metros, a primeira do Brasil na história do torneio. Em tempo: o “c’ é canoa, o primeiro número indica os atletas na embarcação e o segundo, a distância da prova.

Com o passar da conversa, Isaquias fica mais manso e conta parte de sua lenda. Quando era criança, antes de começar a remar, caiu em cima de uma pedra. Foi ao hospital e acabou perdendo um rim. Para os amigos, virou o Sem-Rim. Os rivais dizem agora que ele ganhou um terceiro pulmão.

As histórias são remadas: ele fala de um jeito ritmado, pesando as palavras dentro de cada causo. Sem-Rim é direto e espontâneo. Já bateu de frente com a Confederação Brasileira de Canoagem por falta de reconhecimento e quase jogou tudo pro alto. “Chorei com vontade de ir embora. Achava o treino uma chatice porque a gente abre mão de tudo, mas é o nosso trabalho”, conta o campeão.

Isaquias quer acumular recordes e medalhas e levar consigo a modalidade inteira. Ele não pensa só na chance de medalha nos Jogos de 2016, mas já se prepara para Tóquio. Nessa trajetória, dá crédito ao treinador, que deu um impulso decisivo à canoagem do Brasil. Em 2016, se o rio seguir seu curso normal, ele deverá duelar com o alemão Sebastian Brendel, como em tantas provas anteriores. “Não me sinto pressionado. Estou treinando como me manter na ponta”.

Depois do Pan, Isaquias ficou mais perto do segundo sonho. Em sua terra natal, foi convidado para subir ao palco da banda de Binho Alves. Era um show de arrocha. Dançou, cantou e viu que era o profeta de sua terra. “Esse retorno foi diferente. Foi a primeira vez que me senti como uma celebridade”.

 

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