SONHO DO OURO OLÍMPICO MUDA PAISAGEM DO RIO

Obras de parques esportivos, acomodações de atletas e um inédito legado urbano de transportes movimentam R$ 37,6 bilhões

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2014 | 17h00

O sonho da conquista de uma medalha de ouro, momento maior na vida de atletas de alto rendimento, está mexendo com o cotidiano carioca e mudando paisagens do Rio, sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A menos de dois anos da cerimônia de abertura, prevista para 5 de agosto de 2016, é frenético o movimento de pelo menos 5 mil operários no canteiro de obras do Parque Olímpico da Barra da Tijuca. Há ainda as adaptações no Parque de Deodoro e as construções de um legado urbano inédito na cidade, como o Porto Maravilha, dois túneis que ligam a zona sul com a zona oeste na estrutura de transporte dos modernos ônibus BRTs e a linha 4 do metrô, num volume total de recursos de R$ 37,6 bilhões.

"A Olimpíada é transformadora", diz o prefeito do Rio, Eduardo Paes, principal tocador das obras dos Jogos no País. "Pequim, em 2008, gastou com os Jogos R$ 65 bilhões; Londres, em 2012, chegou a R$ 41,2 bilhões, dos quais o governo desembolsou R$ 33 bilhões", compara o prefeito. Paes diz ainda que do total movimentado (R$ 37,6 bilhões), 57% é recurso de Parceria Público Privada (PPP). "Dinheiro de governo é 43%”, ressalta. Segundo o prefeito do Rio, uma das marcas dos Jogos no Brasil “é que após a Olimpíada não haverá elefante branco". Os estádios permanentes vão virar centros de produção de atletas e algumas estruturas, como a handebol, da Barra, vão virar escolas.

Porém, no meio do formigueiro construtivo carioca, há um alerta vermelho. O velódromo, palco das provas de ciclismo, programado para estar pronto no final de 2015, ainda está no chão. Engenheiros do Parque Olímpico e o vice-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Aroldo Cedraz de Oliveira, que acompanham a construção, se dizem preocupados com o atraso. Além disso, o TCU aumentou a pressão sobre a empreitada e analisa recursos de empresas que perderam a licitação do velódromo, vencida pela construtora Tecnosolo em janeiro. O contrato é de R$ 118,8 milhões. Um parecer do ministro Raimundo Carreiro (TCU) aceitou parte da representação das empresas Construtora Damiani, Jota Elle Construções Civis e DM Construtora de Obras, argumentando que foram detectados "indícios de inabilitação indevida e de exigências editalícias restritivas à competitividade". E no documento Matriz de Responsabilidades do Ministério do Esporte e Prefeitura do Rio, painel geral de acompanhamento de todas as obras, o velódromo, projetado com um custo de R$ 112,9 milhões, mais R$ 5,9 milhões destinados à manutenção após a construção, está atrasado.

O prefeito do Rio discorda. E defende a Tecnosolo, a empresa que está sendo pressionada pela fiscalização por causa da dificuldade em acompanhar o ritmo das demais construções do parque da Barra da Tijuca. Paes afirma que o velódromo está em dia. "É uma obra que a gente olha com muita atenção. É uma construtora menor, que está em recuperação judicial", explica, emendando que "não há indício de irregularidades com a empresa" e garantindo que a situação da Tecnosolo não afetará a obra. "Impacto zero", diz Paes.

Para o prefeito, "é uma empresa que, aparentemente, não tem um caixa muito forte. Então, é uma empresa que você não pode ficar atrasando liquidação de faturas. Mas eu acompanho isso semanalmente, com curvas de atraso e curvas de adiantamento. Eu sei quando está uma semana atrasada, duas semanas adiantada", afirma. 

Na Tecnosolo, que está em recuperação judicial desde agosto de 2012, a informação é a de que não haverá atraso na entrega.

Visto no Ministério do Esporte como um parceiro exemplar na administração do canteiro olímpico no qual se transformou o Rio, o prefeito alega que no Parque de Deodoro também houve problemas. "A partir do momento em que iniciamos as obras, elas estão indo muito bem, com cronograma até um pouco antecipado. Mas vamos ficar atentos. As obras da prefeitura são 90% das coisas", declara.

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'Temos três gerações de atletas que podem ganhar medalhas', afirma dirigente

De acordo Ricardo Leyzer Gonçalves com principal legado dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Rio já pode ser vislumbrado

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2014 | 17h00

O secretário Nacional de Esportes de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Ricardo Leyzer Gonçalves, disse que o principal legado dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Rio já pode ser vislumbrado. “É o legado esportivo”, afirmou. De acordo com ele, pela primeira vez o Brasil terá um grupo de atletas com nível olímpico não só para os Jogos de 2016, em casa. “Temos três gerações de atletas, de várias modalidades, em condições de disputar medalhas também em 2020 e 2024”, declarou. Responsável pela caneta que autoriza gastos no valor de R$ 1,6 bilhão às construtoras, e comemorando um avanço de 46% para 71% na evolução da maturidade das obras, a régua que mede o ritmo do serviço nos canteiros, Leyzer disse que “em dez anos, o Brasil conseguiu sair da mais completa falência de estruturas esportivas para ter um dos melhores parques olímpicos do mundo”.

O secretário explicou que o Brasil espera conquistar entre 25 e 27 medalhas em 2016, “ficando entre os dez melhores nos Jogos Olímpicos e entre os cinco melhores nas competições paraolímpicas”. Mas, de acordo com Leyzer, “o foco brasileiro não é na medalha que vem da ultra especialização do atleta”. Para ele, o importante “é ter ampla base para produzir resultados a partir de uma condição nacional no esporte.”

Leyzer argumentou que, no quesito obras, os Jogos vão deixar para o Rio um legado importante. Mas destacou que o impacto de 2016 também pode ser encontrado em muitas outras cidades, como São Bernardo do Campo, Brasília, Salvador, Belo Horizonte e Fortaleza. “O PAC 2 prevê ginásios esportivos em todas as escolas brasileiras com mais de 500 alunos”, acrescentou. Leyzer lembrou que a ginástica tem 13 centros novos de preparação. Pelo plano do Ministério do Esporte, o País deve chegar a 285 ginásios construídos em 2015. “Já temos contratados 269”, declarou. Entre as obras mais avançadas para o ambiente esportivo de 2016, Leyzer citou o caso de Fortaleza.

A obra, em parceria com o governo do Ceará, está em fase de finalização e deve estar pronta até o fim do ano, segundo Leyzer. O Centro de Formação Olímpica (CFO) de Fortaleza tem capacidade para abrigar atletas de 26 modalidades, entre elas futsal e karatê, e será usado pelas delegações na preparação para os jogos olímpicos e paraolímpicos. Atualmente está recebendo as cerca de 17 mil cadeiras. O ginásio tem capacidade total de 21 mil espectadores com ar-condicionado, e um hotel para 248 atletas.

Documento do governo do Ceará informa que “o CFO é uma parceria do governo do Estado com o governo federal e faz parte do Plano Brasil Medalhas, com financiamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2)”. De acordo com o governo estadual, “o complexo vai integrar a Rede Nacional de Treinamento, principal projeto de legado dos Jogos de 2016 para a infraestrutura do esporte brasileiro, e foi a primeira obra no estado contratada sob o Regime Diferenciado de Contratações (RDC), modalidade de licitação criada para maior eficiência de contratações públicas e aumento de competitividade entre fornecedores”. Segundo o secretário, o RDC é um avanço. Ele disse que os Jogos vão deixar um legado adicional. “É o legado da gestão de grandes eventos”.

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'Atraso é preocupante', diz vice-presidente do TCU

Aroldo Cedraz de Oliveira confirma atrasos preocupantes nas obras e diz que é preciso marcação cerrada sobre os responsáveis

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2014 | 17h00

Para o ministro Aroldo Cedraz de Oliveira, vice-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), que acompanha de perto a construção do Parque Olímpico dos Jogos do Rio 2016, há atrasos preocupantes nas obras e é preciso marcação cerrada sobre os responsáveis. Abaixo, trechos da entrevista, concedida por e-mail.

Como o senhor analisa o estágio das obras? Casos como o do velódromo, que ainda está no chão, podem prejudicar os eventos-teste?

Há atrasos preocupantes, como aqueles verificados pelo TCU nas obras das instalações esportivas no Parque da Barra. A esta altura, a praticamente um ano e meio dos jogos, o ideal é que estivéssemos com os preparativos mais avançados. Mas a expectativa é de que os atores envolvidos realizem esforços concentrados para garantir que os Jogos ocorram sem maiores percalços.

Relatórios mencionam risco para o legado. Como eliminar este risco?

Houve demora por parte do Governo Federal para iniciar o planejamento em relação ao uso do legado olímpico, considerando que a escolha do Rio como cidade-sede dos Jogos ocorreu em 2009 e, apenas em agosto de 2013, os Grupos de Trabalho encarregados dessa matéria iniciaram formalmente suas atividades. Apesar dos avanços ocorridos desde então, a expectativa é de que, faltando menos de dois anos para o início das competições, a definição do uso dos equipamentos esportivos construídos com recursos federais no pós-Jogos já estivesse bem mais adiantada. Ainda há tempo para fazê-lo, mas essa definição não é algo simples, até pelo elevado custo envolvido na manutenção de equipamentos dessa natureza. Exige articulação e integração entre vários atores, de diferentes entes da Federação e de fora da administração pública, como as confederações nacionais de diversos esportes. Entretanto, o Tribunal, no cumprimento do seu papel pedagógico, tem expedido recomendações para que as instituições envolvidas, em especial o Ministério do Esporte, acelerem suas ações nesse sentido, de modo que, após os Jogos, essas instalações esportivas, que consumirão volume expressivo de recursos públicos, possam constituir efetivamente legado positivo para a sociedade.

Qual o principal legado dos Jogos?

Os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos são uma oportunidade ímpar para trazer ao País investimentos e acelerar a aplicação de recursos internos, no entanto, tem de ser bem aproveitada. Há exemplos emblemáticos de bom uso, como foram os Jogos de Barcelona, em 1992, mas há casos em que as chances não foram convertidas em benefícios esperados. Entendo que o principal legado, mais do que a construção de equipamentos esportivos, está na antecipação do Plano de Políticas Públicas na área de infraestrutura.

Um dos pontos críticos para os atletas é a poluição das águas de competição. Há acompanhamento da limpeza dessas áreas?

A competência do TCU é de fiscalizar a aplicação de recursos públicos federais. Porém, dada a grande importância do tema, constatei que a melhor forma de se promover uma ação de controle é por meio de um trabalho conjunto entre o TCU, o TCE-RJ e o TCM-RJ. Uma auditoria conjunta. Acredito que, pela relevância, essa fiscalização deverá ocorrer no próximo ano, apesar de ainda não ser possível a definição de um período exato.

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