Eugene Hoshiko / AP
Eugene Hoshiko / AP

Conheça a história de um atleta dos EUA que perdeu a seletiva para Tóquio 2020 por causa da covid

Qualificar-se para a Olimpíada pode representar a conquista de toda uma vida. Na era do coronavírus, porém, essa oportunidade pode desaparecer sem aviso, como ocorreu com Nick Suriano

Matthew Futterman, The New York Times

06 de maio de 2021 | 10h00

Dois anos atrás, Nick Suriano colocou a vida em modo de espera e foi perseguir o sonho olímpico. Campeão de uma liga nacional de luta greco-romana, Suriano tirou um ano de folga das competições pela Universidade Rutgers para se preparar para a Olimpíada de 2020 em Tóquio. Depois de os jogos terem sido postergados em um ano por causa da pandemia,  Suriano dobrou o período de treino, faltando a mais um ano letivo e se mudando de sua casa, em Nova Jersey, para Phoenix, Arizona, onde se juntou a um grupo especial de treinamento.

Por oito meses, ele não pensou em quase mais nada, a não ser manter a boa saúde e conquistar um lugar no time dos EUA vencendo eliminatórias para a Olimpíada. Muitos o consideravam favorito na categoria até 55 quilos. “Eu nunca estive tão saudável na vida”, afirmou ele.

Mas poucos dias antes do início das competições, em 2 de abril, no Texas, um swab nasal mudou tudo. Suriano testou negativo para coronavírus antes de embarcar num voo para Fort Worth, mas testou positivo depois da viagem. Ele perdeu a chance de chegar ao tatame. Seu sonho olímpico, de anos, havia acabado. “Isso é demais para minha cabeça agora”, afirmou em uma entrevista por telefone, de sua casa.

A pandemia tem provocado caos no mundo dos esportes, particularmente na Olimpíada, há mais de um ano. Vidas e carreiras têm sido viradas para o ar, reimaginadas e recriadas. Mas com os jogos marcados para se iniciar em menos de três meses, o tempo para adaptação se esvaiu, e alguns obstáculos relacionados ao vírus podem se tornar intransponíveis agora.

Em março, oito esgrimistas de seis países testaram positivo em uma competição qualificatória em Budapeste, Hungria, onde foram colocados em quarentena e proibidos de competir. No início do mês passado, uma equipe de judô da Índia teve de se retirar de uma competição qualificatória no Quirguistão após dois de seus atletas testarem positivo. E autoridades esportivas tiveram de cancelar o evento panamericano de qualificação em canoagem de velocidade que deveria ter ocorrido no mês passado no Brasil, um dos países mais atingidos pela pandemia no mundo. Os canoístas olímpicos da região deverão agora ser selecionados a partir de rankings e resultados nas competições mundiais de 2019.

Para atletas de diferentes esportes, a perda de tempo de treinamento, de competições e de oportunidades de obter pontos para se qualificar mudaram o cálculo para os Jogos de Tóquio. Alguns ainda não sabem precisamente como - ou se - reservarão seus lugares nessa Olimpíada, que está marcada para começar em 23 de julho.

Atletas olímpicos lidam há muito com a pressão de permanecer saudáveis e evitar lesões durante as semanas e meses cruciais que antecedem os jogos, que para muitos deles são oportunidades únicas na vida. Mas, com as complicações do coronavírus, ao contrário de uma distensão muscular ou uma doença comum, enfrentar de frente a dor e a fadiga não é uma solução. Para um atleta infectado - e possivelmente para atletas saudáveis que tiveram contato próximo com doentes - mesmo um leve contato com o vírus representa um obstáculo insuperável.

Em alguns esportes, perder uma única competição qualificatória pode não acabar com a esperança do atleta. Em outros, não há segunda chance. “Nossa preocupação principal é criar um ambiente seguro, no qual os atletas possam competir”, afirmou Jonathan Finnoff, diretor médico do Comitê Olímpico e Paraolímpico dos EUA. “Isso significa não permitir a participação de ninguém com covid-19, trabalhar para evitar qualquer transmissão e proteger as comunidades.”

Autoridades esportivas nos Estados Unidos criaram elaborados protocolos para garantir que suas competições - incluindo as maiores qualificatórias para esportes de mais destaque, como natação e atletismo, que terão eliminatórias em junho - não se tornem eventos de superdisseminação.

Por enquanto, atletas americanos que competem nas qualificatórias olímpicas têm de testar negativo para o coronavírus uma vez antes de viajar para participar dos eventos e outra depois de chegar aos locais dos eventos. O segundo teste tem de ser realizado até 72 horas antes do início oficial das atividades.

A federação de atletismo dos EUA dará um passo além durante os 10 dias de classificatórias; requererá testes a cada dois dias ao longo da competição. “Queremos que as pessoas testem positivo? Claro que não”, afirmou Robert Chapman, diretor de ciência do esporte e medicina da federação. “Assim como não queremos que ninguém rompa algum tendão ou torça o tornozelo.”

Ainda que proibir de competir algum atleta que teste positivo seja algo simples, decidir eliminar da competição alguém que teve contato próximo com um indivíduo infectado é mais complicado. Considera-se em contato próximo um atleta que tenha estado junto a uma pessoa infectada por mais de 15 minutos, em um período de 24 horas, enquanto essa pessoa estava sintomática, ou em um período de 48 horas antes de um teste positivo ou a partir do surgimento de sintomas.

Não importa se o contato se dá ao ar livre ou em ambientes fechados, o que significa que não somente sessões de treinamento, mas também refeições e caronas, podem ser interações arriscadas. Uma autoridade de saúde apontada para as qualificatórias decidirá quando barrar algum competidor. Os atletas poderão recorrer a um painel mais amplo.

Mas atletas que foram vacinados possuem, essencialmente, um cartão verde. As regras que determinam o que são contatos próximos seguem a orientação dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, e a entidade estipula que pessoas que tomaram as duas doses das vacinas da Pfizer ou da Moderna ou a dose única da vacina da Johnson & Johnson não se qualificam para contatos próximos e não têm de cumprir quarentena.

Essas regras diferem das determinações atualmente em prática para os próximos jogos. Os organizadores no Japão anunciaram na quarta-feira que atletas considerados em contato próximo serão avaliados caso a caso. Os protocolos que as autoridades esportivas divulgaram não mencionam o processo de avaliação de pessoas totalmente vacinadas, e atletas vacinados terão de seguir as mesmas regras que os não vacinados.

Mas Chapman, o médico da federação de atletismo, afirmou recentemente em reuniões que tem falado aos atletas que as vacinas são capazes de reduzir significativamente o risco de eliminação durante as qualificatórias. Autoridades olímpicas nos EUA esperam que isso sirva de estímulo para qualquer atleta que tenha preocupações a respeito das vacinas. “A maioria dos atletas com quem conversei disse que já tomou a primeira dose”, afirmou Chapman. / Tradução de Augusto Calil

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