André Lessa|Estadão
André Lessa|Estadão

Surpreendente, Montanha conquista vaga no martelo

Atleta pernambucano, diversas vezes recordista brasileiro na modalidade, nunca havia chegadoperto do índice olímpico

Demétrio Vecchioli, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2016 | 07h00

Wagner Domingos, de 33 anos, superou um câncer, aprendeu a falar esloveno e bateu seu próprio recorde brasileiro mais vezes do que consegue se lembrar, mas não conseguia o índice para participar dos Jogos do Rio no lançamento do martelo.

Mas, no domingo, na Croácia, Montanha, como é conhecido, alcançou 78,63 m, marca que nunca havia conseguido nem sequer em treinamentos, e melhorou em 2,51 m o recorde brasileiro, que havia batido quatro dias antes. De quebra, conseguiu a terceira melhor marca do ano, com um resultado que o teria feito medalhista de prata no Mundial do ano passado.

Recifense de sotaque carregado, Montanha ganhou esse apelido ainda adolescente. O sonho de ser jogador de futebol já não cabia mais no garoto de 14 anos e 130 kg, 30 dos quais perdidos nos seis primeiros meses de treinos. Inicialmente atleta de arremesso de peso, Montanha arriscou-se pela primeira vez no martelo em uma competição nacional de base, aos 15 anos, porque a delegação de Pernambuco não tinha nenhum atleta nessa prova. Em 2001, três anos depois, já era campeão e recordista brasileiro juvenil na modalidade.

Em 2005, Montanha bateu pela primeira vez o recorde brasileiro. Lançou 67,78 m e superou uma marca de 27 anos. Um grande feito para o Brasil, mas irrelevante no cenário internacional. Desde então, foram 35 recordes brasileiros, mais de 12 metros de evolução em 11 anos. Em 2012, por exemplo, Montanha bateu o recorde brasileiro com 72,78 m. Longe do índice olímpico para os Jogos de Londres: 76,08 m.

"Sempre achei que, se eu não conseguir hoje, tinha de trabalhar muito mais para conseguir futuramente. Um dia minha hora ia chegar", diz Montanha que não tem dúvidas a quem agradecer pelo sucesso: "A mim mesmo por acreditar e estar focado no que eu tenho que fazer".

Para chegar tão longe, Montanha procurou seus caminhos. Conheceu o técnico Vladmir Kevo e pediu para treinar com ele na Eslovênia. Desde então, passa ao menos quatro meses do ano no país europeu.

Em maio de 2011, passando por exames de rotina, descobriu um tumor na bexiga. "Fiquei um dia muito mal. Mas logo em seguida resolvi que tinha de lutar", disse. Em setembro já estava em campo para o Pan de Guadalajara, no México.

Daqui a uma semana, é favorito a mais um título no Troféu Brasil. Dessa vez, dificilmente com um novo recorde. O foco está na Olimpíada, na qual a meta será chegar à final, de preferência entre os oito primeiros. "Se eu conseguir isso, já vou estar 100% feliz."

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