Telefonema da China transformou os Jogos de 1984

Participação do país oriental nas Olimpíadas de Los Angeles foi fundamental para a realização do evento

Lynn Zinser, The New York Times

14 de julho de 2008 | 15h59

Um telefonema que ele jamais esquecerá veio para Peter Ueberroth no meio da noite de 12 de maio de 1984 por uma linha telefônica precária de Pequim. Ela trazia a notícia que ele achava que poderia determinar o destino da Olimpíada, e não só dos Jogos em que ele estava trabalhando para organizar em Los Angeles naquele verão, mas de todos os que viriam depois.Na outra ponta da linha estava Charles Lee, o homem que ele havia enviado para persuadir os chineses a enviarem sua equipe à Olimpíada pela primeira vez. Ueberroth, chefe do comitê organizador de Los Angeles, pedia à China para desconsiderar um boicote liderado pela União Soviética que fora anunciado quatro dias antes. Os soviéticos afirmavam que tirariam 100 países dos Jogos de 84. Se tivessem sucesso, disse Ueberroth, "nós estaríamos acabados."A salvação veio quando Lee telefonou e disse a Ueberroth: "Eles virão."No momento em que o mundo se prepara para os Jogos de Pequim em agosto, aquele momento tem um significado especial na história das Olimpíadas, porque ali os ventos mudaram e levaram os jogos para longe da intimidação política da Guerra Fria para a combinação de sucessos atléticos e comerciais que aconteceu desde então.Ueberroth, hoje com 70 anos e presidindo o Comitê Olímpico dos Estados Unidos, chefiará a equipe americana na China com um sentimento de profunda gratidão. Ele acredita que a China salvou as Olimpíadas.Agora, sejam quais forem as questões políticas que surgirem – e com a China elas são muitas: direitos humanos, Tibete, sua relação com o governo do Sudão –, os boicotes em larga escala estão fora de discussão. As declarações políticas aparecem em formas menos contundentes: quais chefes de Estado comparecerão, se os atletas farão comentários políticos, coisas assim. Recentemente, o presidente George W. Bush anunciou que estará presente na cerimônia de abertura. O primeiro-ministro Gordon Brown da Grã-Bretanha e a chanceler Angela Merkel da Alemanha disseram que não estarão.Em 1984, as paradas eram mais altas. Os soviéticos estavam recrutando países para retaliar pela decisão dos EUA de não comparecer aos Jogos de Moscou em 1980, um boicote que teve a adesão de 61 países. Em 8 de maio de 1984, os soviéticos anunciaram que sua equipe não iria a Los Angeles por temer pela segurança dos atletas, alegando que havia acertos de 100 países para fazer o mesmo.Ueberroth disse que viu a lista e que no seu alto estava a China.Sua resposta foi reunir uma equipe de enviados para apelar às autoridades dos países indecisos e tentar persuadi-las a comparecer. Lee, um procurador federal em Los Angeles que não é chinês mas fala o mandarim fluentemente, chefiou um pequeno grupo à China. Ueberroth pediu a mulher de seu staff, Agnes Mura, que chefiasse um grupo à Romênia, onde ela nascera. Ueberroth foi a Cuba."As pessoas pensam na Olimpíada com uma estrutura corporativa", disse Bob Ctvrlik, que jogou na equipe de voleibol americana nos Jogos de 84 e atualmente integra o Comitê Olímpico Internacional. "Na verdade, não é. Ela se apóia em relações, se apóia na confiança, se apóia em pessoas que podem conviver com diferenças culturais e encontrar um terreno comum."Ueberroth não conseguiu influenciar Fidel Castro, mas a visita de Lee a Pequim foi um triunfo e a de Mura rendeu a notícia mais espantosa no fim de maio de que a pequena Romênia desafiaria o boicote soviético.Quando Mura voltou, Ueberroth pediu que ela organizasse um extenso programa de enviados com responsáveis por cada nação, que se encarregaria do bem-estar das equipes durante os jogos. Mura dormiu na Vila Olímpica junto à equipe romena, perto da porta de sua festejada estrela da ginástica, Nádia Comaneci. Para Ueberroth, porém, a façanha do grupo de Lee junto às autoridades chinesas foi mais decisiva para o futuro dos Jogos Olímpicos. 

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