Tocha olímpica passa com protestos pacíficos na Argentina

Sem incidentes, atletas como o brasileiro Emanuel participaram da festa na capital Buenos Aires

Ariel Palacios, Correspondente - O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2008 | 19h17

Pela primeira vez desde que saiu de Atenas, a tocha olímpica dos Jogos de Pequim 2008 conseguiu realizar um percurso sem incidentes relevantes, em Buenos Aires, na Argentina, ao contrário do ocorrido em Londres, Paris e São Francisco. Veja também: Emanuel: 'Pareceu que foi muito menos, foi rápido demais' Boicotes políticos prejudicariam atletas, não os Jogos, diz COI Vencedor do Nobel desiste do revezamento da tocha O trajeto completo do revezamento da tocha pelo mundo  Os protestos e a ligação histórica com os Jogos OlímpicosO percurso portenho transcorreu desde o extremo sul do bairro de Puerto Madero, passando pela Casa Rosada - o palácio presidencial - o Obelisco, a avenida 9 de Julio, a avenida Figueroa Alcorta, até chegar ao Clube Hípico, em Núñez, perto do estádio do River Plate. Os únicos incidentes registrados ocorreram nos primeiros quarteirões do trajeto quando, pouco depois de passar pela Catedral, um manifestante arremessou uma bexiga d'água contra a tocha. No entanto, a bexiga foi interceptada pelo braço de um dos guardas de segurança. Além disso, somente ocorreram breves trocas de insultos entre manifestantes pró-Tibete que gritavam palavras de ordem contra o governo de Pequim e cidadãos chineses residentes em Buenos Aires que foram ao centro da capital argentina defender a realização das olimpíadas. O esquema de segurança da tocha superou o que havia sido implementado para a proteção de diversos estadistas internacionais que visitaram a Argentina, incluindo a do então Secretário de Estados dos EUA, Alexander Haig, em 1982, em plena Guerra das Malvinas. A segurança também foi maior do que a aplicada para proteger o "papamóvel", veículo com o qual o papa João Paulo II visitou a Argentina duas vezes nos anos 80. Nesta sexta, no total, mais de 5.500 pessoas integravam o esquema de segurança, formado por homens da Guarda Costeira, polícia e civis voluntários. SÓ CARTAZESAo pé do Obelisco, o monumento símbolo da capital argentina, 300 manifestantes a favor da independência do Tibete, junto com integrantes da seita Falun Gong, seguravam cartazes com dizeres contra a realização das olimpíadas em Beijing. Os cartazes mostravam fotos de prisioneiros políticos e pessoas torturadas pelo Exército chinês. Os manifestantes pró-Tibete realizaram um "contra relevo" simbólico que consistiu em uma marcha até a prefeitura portenha, onde entregaram uma tocha "paralela", que simbolizava o pedido para que cessem as violações aos Direitos Humanos na China. Ao pé do Obelisco, em pleno centro portenho, mais de mil cidadãos chineses residentes na Argentina, agitando a bandeira de seu país, ignoravam os manifestantes pró-Tibete e esperavam a passagem da tocha para saudá-la. Diversos grupos pró-China espalharam-se por diversos pontos do trajeto com cartazes com os dizeres "Olimpíadas, te esperamos!". A tocha passou a noite da quinta para a sexta-feira em um lugar secreto, para evitar o risco de atentados. Feita de uma mistura polida de alumínio e magnésio, a tocha foi carregada ao longo de quase 14 quilômetros por 80 atletas, entre os quais Emanuel, o jogador brasileiro de vôlei de praia, que viajou à Buenos Aires acompanhado de seu parceiro Ricardo. O primeiro relevo da tocha, de acordo com a programação oficial, seria o ex-astro Diego Armando Maradona. Mas, o ex-jogador não chegou a tempo à Buenos Aires, pois estava no México, a trabalho. Segundo informações extra-oficiais, os representantes chineses respiraram aliviados, pois não apreciavam que Maradona fosse um dos destaques, já que há poucos anos, "El Diez" (O Dez) - como é chamado popularmente - foi à China e não cumpriu os contratos assinados para suas conferências e exibições públicas, preferindo ficar no hotel jogando golfe. Além disso, temiam-se eventuais declarações do ex-jogador, famoso por suas frases retumbantes e polêmicas. ESPÍRITO OLÍMPICONo lugar de Maradona, o primeiro atleta foi o ídolo do iatismo argentino, Carlos Espínola, que partiu com a tocha de Puerto Madero. Horas antes do início do relevo, Espínola deixou claro que, embora estivesse "contra aquilo que acontece na China" e que defende os Direitos Humanos, considerava que a tocha é uma "mensagem de fraternidade e de paz entre os povos. Não concordo que alguém tente sujar essa mensagem. Apagar a tocha é ir contra esses princípios de respeito". Emanuel tomou a tocha nas proximidades da esquina da rua Dorrego e a avenida Figueroa Alcorta. Pouco depois, a tocha foi depositada no ponto final pela tenista Gabriela Sabatini. A chegada do símbolo das olimpíadas ao ponto final no bairro de Núñez, foi seguida de um show musical com artistas argentinos. A escolha das personalidades locais que levaram a tocha foi alvo de críticas na imprensa argentina, já que do relevo participaram pessoas sem vínculos com o esporte ou os jogos olímpicos, tais como empresários e jornalistas. Diversas ONGs argentinas também criticaram a presidente Cristina Fernández de Kirchner por não opor-se à passagem da tocha pelo país e ironizaram sua forma de apresentar-se como "a presidente dos Direitos Humanos". No fim da noite, a tocha preparava-se para deixar Buenos Aires rumo a Dar es Salaam (Cidade da Paz), capital da Tanzânia, na costa oriental da África.  

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