Chang W. Lee/The New York Times - 01/09/2019
Chang W. Lee/The New York Times - 01/09/2019

Tóquio anuncia que está pronta para a covid-19. Mas e os terremotos?

Eles são outra catástrofe em potencial na Olimpíada. Os organizadores esperam que os tremores sejam pequenos, mas caso ocorra, estão se preparados para tudo

John Branch e Motoko Rich, The New York Times

07 de julho de 2021 | 20h00

Muito antes da pandemia sobrecarregar os organizadores da Olimpíada com a tarefa monumental de prevenir que o evento se torne um superpropagador do vírus, outro cenário catastrófico pairava sobre os Jogos de Tóquio. Um terremoto.

O Japão sabe bem dos riscos: os terremotos, passados e futuros, raramente estão longe dos pensamentos dos japoneses. Departamentos inteiros do governo dedicam-se aos detalhes para uma resposta rápida no caso de terremotos, alunos de escolas e funcionários de escritórios realizam simulações rotineiramente, e arquitetos e construtores projetam edifícios altos que podem até balançar, mas não cair.

Prontidão é um exercício diário porque o inevitável pode chegar a qualquer dia. Os vários terremotos sentidos diariamente no centro de Tóquio, a maioria deles mal percebida, são um aviso constante. Em fevereiro, um forte sismo sacudiu o lado oriental de Tóquio, lembrando o país do 10º aniversário do terremoto devastador seguido por um tsunami que matou mais de 19 mil pessoas e ainda provocou um acidente nuclear em 2011.

A única certeza é que outro grande está para chegar. Mas quando? E se afetar a Olimpíada, ou a Paralimpíada que vem em seguida?

Nenhum lugar aprecia a dinâmica do “não-se-mas-quando” mais do que Tóquio. Mesmo sem espectadores estrangeiros, haverá milhares de atletas, treinadores, integrantes das equipes e a mídia concentrados em uma das maiores cidades, e das mais densamente povoadas, enquanto o mundo assiste a um evento feito para celebrar o esporte e a cultura japonesa.

Isto constitui um desafio para os organizadores de Tóquio 2020. Os governos locais, as escolas, as empresas e os militares do país se preparam constantemente para a ameaça de um terremoto, sem falar em tsunami ou tufão. Mas os visitantes da Olimpíada na megalópole - muitos dos quais nunca sentiram um sismo, e muito menos sabem o que fazer em um de grande magnitude - poderiam desencadear o caos e o pânico até mesmo na resposta mais bem planejada ao desastre.

“Os japoneses têm uma base de conhecimento a respeito de desastres”, disse Robin Takashi Lewis, especialista em desastres que trabalhou com grupos sem fins lucrativos logo após o terremoto de 2011 e do tsunami. Mas “as coisas se tornam dez vezes mais complicadas quando se acrescentam fatores como língua, falta de conhecimento cultural e as outras vulnerabilidades que as pessoas têm como visitantes”.

Todos os novos edifícios no Japão, inclusive os locais das competições, estão sujeitos a padrões rigorosos de prevenção. As novas construções precisam suportar um terremoto de 6,0 ou mais de magnitude na escala sísmica do Japão.

Em Tóquio, Akimori Fukao, diretor de resistência aos terremotos na divisão de edifícios urbanos da Prefeitura Metropolitana da capital, disse que o governo trabalhou com os proprietários dos edifícios para reforçar as estruturas mais antigas, particularmente ao longo das principais ruas da cidade onde os organizadores estavam preocupados com os escombros que poderiam atravancar as passagens usadas pelos veículos de emergência.

Muitos dos locais destinados aos Jogos são construídos sobre um antigo aterro na Baía de Tóquio, embora as autoridades do Ministério da Terra, Infraestrutura, Transportes e Turismo afirmem que foram protegidos contra a liquefação do solo - em que o solo perde força e consistência - no caso de um terremoto de grandes proporções.

Mas vários locais, inclusive um centro aquático, foram construídos sobre um terreno que está abaixo do nível do mar, o que os torna vulneráveis a um tsunami provocado por um terremoto, como ocorreu em 2011.

O formato da Baía de Tóquio, com uma enseada curva, estreita que se abre para uma baía ampla e extensa, não é propícia a tsunamis fortes, afirmam os especialistas. Mas nem todos os eventos se realizam ali. Por exemplo, o local do surfe fica ao longo de um trecho não protegido da costa leste do Japão.

Uma detalhe de risco é o número de locais temporários que estão sendo construídos exclusivamente para as Olimpíadas, como amplas arquibancadas. Os engenheiros do governo insistem que obedeceram às rigorosas normas da construção no Japão, com reforços extras para enfrentar terremotos.

Se ocorrer um terremoto de 4 ou mais graus da escala sísmica japonesa - com um possível 7 - o Ministério da Terra ou o comitê organizador muito provavelmente pediria uma suspensão temporária dos Jogos para que os mais de 12 mil engenheiros da agência pudessem verificar as condições e a integridade estrutural dos edifícios.

Antes da pandemia, quando o Japão esperava receber centenas de milhares de visitantes estrangeiros, uma das principais preocupações era comunicar os protocolos no caso de terremoto a autoridades, atletas e membros da imprensa que poderiam não reagir de maneira tão calma como os japoneses. Imagine a corrida da multidão para a saída em qualquer um dos estádios. Embora os fãs só tenham sido limitados aos cidadãos japoneses e as arenas terão apenas metade da capacidade ocupada, haverá sempre milhares de atletas estrangeiros, treinadores, autoridades e membros da mídia presentes.

“Se fossem apenas japoneses, poderíamos informar ‘houve um terremoto’,” disse Kazuki Matsumoto, um dos funcionários do Ministério da Terra, falando do anúncio de um desastre comum. “Mas talvez para os estrangeiros tivéssemos de anunciar: ‘Houve um terremoto, mas está tudo bem, por favor não entrem em pânico’.”

Vários parques e edifícios de escritórios em Tóquio foram designados como centros de evacuação para os que não conseguirem chegar aos seus hotéis. Mas não se sabe ao certo como os visitantes saberão para aonde ir.

Tremores esperados

Com provas sendo realizadas em diversas regiões - maratona em Sapporo, beisebol em Fukushima e surfe em Chiba - os organizadores terão de considerar a retirada de visitantes do país rapidamente no caso de uma emergência.

“As pessoas vão se registrar nas suas embaixadas quando chegarem?” pergunta Lewis. “Há um sistema de rastreamento do lugar em que as pessoas se hospedaram?”

O Ministério da Terra montou um esquema de prontidão em caso de terremoto e aplicativos de resposta em 14 línguas, e planos para colocar cartazes com as informações nos aeroportos, estações ferroviárias e hotéis aconselhando os visitantes a baixá-lo. Mas as mensagens sobre os riscos na Olimpíada estão mais concentradas agora no coronavírus do que nos terremotos ou em outros desastres naturais.

O Japão costuma medir os sismos usando a Escala de Intensidade Sísmica da Agência Meteorológica do Japão, que vai de 0 a 7. Grau 1 significa que algumas pessoas em um quarto tranquilo poderão senti-lo; 3 é quando a maioria das pessoas no seu interior pode sentir o movimento, no 5 é esperado que pratos caiam das prateleiras e os móveis tombem.

Em média, nos últimos cinco anos, o centro de Tóquio registrou cerca de 60 terremotos (de 1 ou mais graus na escala de intensidade) todos os anos, segundo Naoshi Hirata, professor emérito da Universidade de Tóquio e presidente do comitê de pesquisas do Centro de Promoção de Pesquisas sobre Terremotos. Somente um dos 60 tremores do último ano atingiu uma intensidade de pelo menos 4. Um terremoto em fevereiro registrou cerca de 4 graus em Tóquio e 6 em Fukushima.

Historicamente, terremotos grandes que provocaram danos atingiram a área da grande Tóquio cerca de uma vez a cada geração, disse Hirata. Usando a escala Richter conhecida pelos americanos, o comitê de pesquisa de terremotos fixa em 70% as chances de um terremoto de magnitude 7 ou mais em Tóquio nos próximos 30 anos.

O último foi em 1988, há 33 anos, mas Hirata adverte que os terremotos não são eventos regulares. Tóquio não está necessariamente atrasada. O próximo grande terremoto tem tanta chance de acontecer amanhã como tinha na mesma data em 1988, ele disse.

“A chance de um terremoto muito forte no período dos Jogos Olímpicos é muito reduzida em comparação com a chance de o povo japonês ser atingido por um terremoto deste tipo em toda a sua vida”, prosseguiu Hirata. “Evidentemente, há ainda uma chance porque nós fomos atingidos muitas vezes aqui, e devemos estar preparados para um terremoto desta magnitude”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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