Clayton de Souza
Canoeiros fazem a travessia no rio de Contas Clayton de Souza

Ubaitaba forma atletas olímpicos e se torna a capital da canoagem

O pioneiro de 92 e a estrela de 2016 saíram do sul da Bahia

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 17h00

No mapa, o Rio de Contas é uma linha azul fininha que divide as cidades de Ubaitaba e Aurelino Leal, no sul da Bahia, distantes a 379 km de Salvador. De perto, essa linha vira uma avenida fluvial que define a vida na região. Anos atrás, meninos e adolescentes se ofereciam para remar as canoas que faziam a travessia do rio, pois não tinham o dinheiro da passagem – hoje, R$ 2. De canoeiros a canoístas, foi um pulo. Ou um mergulho. Dos cinco atletas que se preparam para os Jogos do Rio, três são da região, um deles é o bicampeão mundial Isaquias Queiroz. Dos últimos dez torneios nacionais por equipes, oito foram vencidos por ubaitabenses. Além disso, Jefferson Lacerda, o pioneiro da canoagem brasileira em Olimpíadas, também é de lá. Isso ainda não existe nos mapas, mas Ubaitaba é a capital brasileira da canoagem. 

Hoje, quase 60 alunos participam da escolinha gratuita da Associação Cacaueira de Canoagem. Existem dois pré-requisitos para entrar no curso: saber nadar e ir bem na escola. A cada trimestre, os professores da canoagem visitam a escola e também analisam o boletim de cada aluno. Se o aluno vai mal, é afastado por um período. “Tia, a gente já pode colocar o barco na água?”, pergunta Yuri Silva dos Santos, prata na categoria até 14 anos no Campeonato Brasileiro. 

Até chegar à margem, meninos e meninas a partir dos oito anos carregam nos ombros barcos de 10 quilos. Os corpinhos mirrados, rascunhos de atletas, envergam, mas não quebram. O sonho de ser como Isaquias vai no ombro também e ajuda a equilibrar o peso.

Docentes e alunos tiram leite de pedra. A atleta, professora e presidente da associação Camila Lima pergunta se o Estado esperava encontrar raias olímpicas para demarcar o espaço dos canoístas. Jefferson Lacerda, integrante da primeira delegação brasileira a disputar a canoagem em Olimpíada, em Barcelona/92, avisa que o projeto nunca teve uma lancha para facilitar o deslocamento da professora até o meio do rio. Coisa básica em outros países. 

Sem lancha, Camila tem de esgoelar na beira do rio para passar as instruções. Ou esperar que voltem. Aí, ela apoia o joelho em um dos degraus de pedra e dá seu recado. O apoio para os joelhos é feito com as borrachas dos tatames mais castigados pelo tempo – além da canoagem, a associação também ensina outras modalidades. Na sala de musculação, as anilhas e pesos trocaram de cor com a ferrugem dos anos. 

A própria sede é, na verdade, apenas um lugar para guardar os barcos. Mal cabe todo mundo. Todos os alunos usam embarcações de fibras de vidro enquanto os atletas de ponta já estão com os de fibra de carbono, mais leves e mais rápidos, há muito tempo. Aqui, o problema é econômico: os primeiros custam R$ 3 mil; os outros, R$ 12 mil.

A qualidade da água está no limite do tolerável. Durante anos, ecologistas alertavam para o risco da destruição das matas ciliares, do despejo de esgotos sem tratamento e dejetos químicos de indústrias. Não adiantou. As margens abrigam sacos de lixo, latas de cerveja e roupa velha a poucos metros do local onde os meninos ouvem a tia Camila. Grande parte dos detritos da cidade vai parar no rio.

A Prefeitura paga um salário mensal de R$ 880,00 para cada uma das duas professoras do curso – a outra, Luciana Costa, está em licença-maternidade. A Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (Sudesb) e o poder municipal dividem as despesas de cerca de R$ 12 mil com alimentação, hospedagem e transporte para o Campeonato Brasileiro. 

Na outra ponta, os atletas se viram para se manter com o Bolsa-Atleta, destinado aos três melhores colocados no torneio nacional. São R$ 925 por mês. O atleta Caíque Brito, de 23 anos, será um dos beneficiados. Enquanto a verba não é liberada, ele concilia os treinamentos com o serviço de mototáxi. Ele conta que dá para equilibrar o orçamento com as corridas diárias. Se o atleta conseguir se posicionar entre os três primeiros colocados no ranking mundial, o Bolsa-Pódio oferece 15 mil. 

Os pilares da escolinha foram fundados simbolicamente muitas décadas atrás. A tradição da canoagem em Ubaitaba não se explica apenas com as canoas nativas – existem inúmeras cidades divididas por rios, mas que não formam atletas. O livro “Viagem pelo Brasil”, de Carl Friedrich Philipp von Martius e Johann Baptiste von Spix, aponta uma herança indígena. Os relatos de 1820 afirmam que aqueles habitantes já eram bons remadores. Em tupi, Ubaitaba reúne as palavras canoa pequena, rio e aldeia. “A canoa está no nosso sangue”, diz a professora Camila Lima.

Os registros mais recentes, guardados com esmero em uma pasta preta plastificada por Dijalma Medina, diretor técnico da associação, contam que a primeira competição esportiva foi disputada em 1985. No ano passado, uma grande festa marcou os 30 anos da canoagem na cidade. Ubaitaba é o polo principal, mas as cidades de Ubatã e Itacaré também deram sua contribuição. Erlon Souza, campeão mundial ao lado de Isaquias, é de Ubatã. 

Outra faísca importante foi lançada por Jefferson Lacerda. Trinta anos atrás, esse filho da terra deixou a mensagem “sim, é possível” ao levar sua canoa para os Jogos Olímpicos de Barcelona, na Espanha, em 1992. Hoje, um dos seus alunos, Figueroa Conceição, é técnico da seleção feminina sênior e da masculina cadete. 

Outro empurrão veio do projeto Segundo Tempo, do Ministério do Esporte e da Confederação Brasileira de Canoagem. A ideia era democratizar o acesso à prática do esporte. Em 2005, o projeto descobriu Isaquias Queiroz, principal esperança de medalha no Rio. O projeto acabou, mas a tradição continua com a escolinha.

Ficou faltando uma explicação importante: por que é tão importante atravessar o rio? O que existe do outro lado? Na cidade de Aurelino Leal, ficava uma estação de trem. Na cabeça dos moradores, além do trabalho e das compras, atravessar era um jeito simbólico de ganhar o mundo. Hoje, é no rio de Contas que estão ancorados os sonhos dos jovens de ganhar o mundo. 

CRISE

A Federação Baiana de Canoagem afirma que a crise política do País prejudicou a construção de um centro de treinamento da canoagem na cidade de Ubaitaba. De acordo com o presidente Figueroa Conceição, o projeto já havia sido aprovado pelo Ministério do Esporte, mas acabou paralisado com a saída de George Hilton da pasta. Com a posse de Ricardo Leyser, não existe prazo para a retomada do CT. Seriam investidos cerca de R$ 8 milhões na modernização da sede da associação de canoagem e a colocação de raias olímpicas no rio de Contas para as aulas, entre outras ações nas cidades próximas.

“A base tem de ser atendida. Precisamos de infraestrutura, mas não acho que estamos perdidos. Já vivemos situações muito piores”, diz Figueroa. “Temos de melhorar o que já temos, mas em Lagoa Santa (CT do time olímpico), tudo também é simples”, argumenta. 

Figueroa afirma que foram enviados 12 barcos de fibra de carbono para Ubaitaba e outros seis para Itacaré.

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Geração de 2020 traz medalhas do sul-americano

Brasileiros surgem como apostas para os próximos Jogos

O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 17h00

Beatriz Santos Ataíde não tem celular nem acesso à internet em casa. A mãe e o padrasto trabalham na agricultura de mandioca e cacau nas fazendas do sul da Bahia. Sua vida se divide entre a escola, onde cursa a 7ª série, e a canoagem, que virou seu lazer, esporte e projeto de vida. Os primeiros passos são promissores. Bia trouxe duas medalhas de bronze, nas provas de 1000 e 500 metros, do Campeonato Sul-Americano disputado em abril, no Chile. Foram suas primeiras internacionais. “Eu já havia conquistado medalhas no Brasil, mas tinha o sonho de conquistar uma medalha fora do País”, conta a atleta da categoria cadete (15 e 16 anos).

Especialistas apostam que ela será nome certo nas próximas convocações da seleção brasileira e deverá se consolidar como uma das promessas para os Jogos de 2020, que serão realizados em Tóquio. “Nossa vida tem muitas dificuldades e eu sinto uma alegria muito grande quando vejo a Bia com essas medalhas”, conta a mãe Patrícia Silva Santos.

Bia é tímida, fala olhando para baixo e escolhe as palavras com cuidado. Sua matéria favorita é Geografia, porque “fala de lugares diferentes e distantes”. Ela exibe com orgulho o uniforme que usou no Chile, anda com ele para cima e para baixo. “Meu sonho é conquistar novas medalhas”, resume.

Bia renova a tradição de atletas formados em Ubaitaba, mas se insere em um novo momento da canoagem mundial: a discussão sobre a igualdade de gênero. A Federação Internacional de Canoagem anunciou recentemente a inclusão da canoagem feminina de velocidade nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Atualmente, apenas o slalom feminino, descida em corredeiras, faz parte do programa olímpico – e o Brasil tem grandes chances com o caiaque de Ana Sátila.

Parênteses: a canoagem tem duas modalidades na Olimpíada, velocidade e slalom. São usados dois tipos de barco: a canoa, com um ou dois atletas; e o caiaque com um, dois ou quatro competidores. As provas de velocidade são divididas pelo tipo de barco: K-1, K-2 e K-4 (sendo K do inglês kayak) e 1 o número de atletas. A mesma regra é utilizada na canoa: C-1, C-2 e C-4. A canoagem de velocidade é a mais popular com percursos de 500m e 1000m na Olimpíada. A canoagem slalom é praticada em percursos de 250 e 300 metros. Os canoístas devem passar por 18 a 25 portas, com o menor número de erros no menor tempo.

A professora Camila Lima, que dá aulas de canoagem para crianças e adolescentes em Ubaitaba, também está neste contexto. Diversas vezes campeã brasileira, sul-americana e pan-americana e medalhista de bronze nos mundiais de 2010 e 2012, ao lado de Luciana Costa na prova C2 500 m, a atleta também sonha com 2020. Mas ainda precisa superar um drama pessoal. “Disputar uma Olimpíada é o sonho de todo atleta. Fiquei um ano sem treinar, porque perdi minha mãe em um acidente de carro, mas estou retomando minha forma aos poucos”, conta. “Quem sabe em 2020...”

O masculino também tem uma nova fornada de campeões. Sávio Santana teve 100% de aproveitamento e conquistou o ouro na prova dos C1 500m e C1 1000m no Chile. Recentemente, ele saiu de Ubaitaba para integrar a equipe permanente que treina em Curitiba.

Yuri Silva dos Santos, outra promessa da modalidade, foi prata no Campeonato Brasileiro também entre os cadetes. “Eu me sinto alegre e realizada. Esse é o futuro dele”, diz Fabíola Silva dos Santos, balconista e mãe de Yuri.

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Mãe de Erlon ainda faz dengos, mas cobra o ouro

Erlon Souza da Silva é o filho pródigo de Ubatã

O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 17h00

Eliete de Souza ficou atarantada porque o Estado chegou em sua casa sem avisar. “A casa está uma bagunça. Não sabia que vocês vinham hoje”, desculpa-se arrumando o forro do sofá. “Caíque, por que você não falou?”, ralha com o atleta que conduziu a reportagem até sua casa em Ubatã, distante 30 km de Ubaitaba. “Eles vão embora amanhã”, encolhe-se o canoísta. “Ai, meu Deus. Não reparem a bagunça”, abre passagem.

A casa está arrumada, dona Eliete está preocupada à toa. Do lado direito, acima do sofá, um tapete foi transformado em um enorme mural colorido. Estão ali duas dezenas de medalhas e fotos, algumas originais, algumas reproduzidas do computador, tudo isso que está na foto.

Refeita do susto, Eliete conta sua história com bom humor e desembaraço. Ele é mãe de Erlon Souza da Silva, campeão mundial do C2 1000m em Milão ao lado de Isaquias Queiroz. A vitória garantiu a medalha de ouro e colocou o País na prova nos Jogos Olímpicos do Rio. Só um lembrete: C2 significa canoa com dois atletas.

“Ele fazia capoeira. Um dia, chegou em casa dizendo que queria fazer canoagem. Ele nem sabia nadar, mas disse que os meninos iam ajudá-lo. Fiquei com medo”, conta com os gestos largos e entusiasmados. “No dia seguinte, ele voltou com uma medalha e uma camiseta larga da canoagem, que ia até os joelhos. Eu dei um grito, não sabia que tinha um atleta dentro de casa. Foi ali que tudo começou. Apoiei desde o começo”, diz dona Eliete.

Erlon e Isaquias têm chance de uma nova conquista na Olimpíada. “A gente torce pelo ouro, né? Qual é a mãe que fica torcendo para o filho ganhar a prata? Tenho certeza que o Brasil torce por ele.”

Quando chega o filho mais velho, Gildásio Pereira, dona Eliete destaca que tem orgulho dos três, tem também a Luciana. Gildásio é pedreiro, morou cinco anos em São Paulo, mas desistiu de lutar contra o aluguel de R$ 400.

Erlon é o filho pródigo de Ubatã. Esteve nos Jogos de Londres-2012 e terminou na 10ª colocação (2º lugar da final B) remando ao lado de Ronilson Oliveira. Tímido e introvertido, ele é oposto do midiático Isaquias. Jesús Morlan, técnico do time olímpico que treina em Lagoa Santa, já disse algumas vezes que Isaquias não teria sido campeão do mundo no C2 1000m se treinasse sozinho. Erlon é fundamental para tranquilizar e passar experiência aos companheiros.

Dona Eliete conta que o filho é carinhoso, mas tem vergonha. “Ele não gosta quando eu fico dengando ele na frente dos outros. Filho caçula, mesmo quando fica alto e forte continua sendo filho caçula”, diz.

Em tempo: antes de tirar a foto, Dona Eliete fez questão de ajeitar o cabelo e colocar esse belo vestido florido.

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Pioneiro da canoagem brasileira vendeu videocassete por seletiva olímpica

Jefferson Lacerda defendeu o Brasil nos Jogos de Barcelona em 92

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 17h00

Em 20 minutos de conversa com o ex-atleta Jefferson Lacerda pelas margens do rio de Contas, ele foi cumprimentado seis vezes. O integrante da primeira delegação brasileira da canoagem em uma Olimpíada (Barcelona-92) e responsável pelo pontapé inicial para colocar Ubaitaba no mapa da canoagem é uma celebridade na Bahia.

Aos 54 anos, Lacerda exibe com orgulho os “gominhos” da barriga, resultado de uma vida inteira dedicada ao esporte. Antes da canoagem, ele praticou handebol e caratê.

Nascido em Ubaitaba – hoje, ele vive em Itabuna, também no sul da Bahia –, ele tem todos os detalhes da aventura de 30 anos atrás na ponta da língua. Conta que, no começo, precisava usar remos remendados e toras de bananeira para aperfeiçoar o equilíbrio. Em 1987, os atletas treinavam no rio com caiaques de passeio, os chamados “surfinhos”. Destaque nas competições locais, Lacerda teve de vender um videocassete JVC, quatro cabeças, uma raridade na época, para financiar a viagem para a seletiva olímpica na raia da USP.

Com a vaga garantida, o baiano era um dos destaques do time. Disputou os Jogos no K2 (caiaque de dupla) nas provas de 500 e 1.000 metros, ao lado de Álvaro Kolowski, mas não se classificaram para as provas decisivas. Realizou o sonho, mas voltou frustrado. “O resultado poderia ter sido melhor, mas eu mostrei que era possível chegar à Olimpíada”.

Em 1996, quase conseguiu um repeteco. Em sua melhor fase, conseguiu a classificação para Atlanta e era uma esperança de medalha. Uma lesão no ombro impediu sua viagem.

A única coisa que faria diferente seria começar a canoagem mais cedo. Ele iniciou aos 27, chegou aos Jogos com 30 anos. Ao todo, são 70 medalhas de ouro em disputas individuais, duplas ou quádruplas. Ele participou de dois mundiais, conquistou seis sul-americanos e tem três medalhas de pan-americanos.

Foi técnico da seleção brasileira entre 1998 e 2006 e, por meio de cursos de intercâmbio, principalmente em Cuba, lançou as bases da modalidade na Bahia. Quando deixou o cargo, formou o técnico atual Figueroa Conceição, que foi seu aluno. Ele é um símbolo para os novos atletas e tem participação ativa na escolinha da Associação Cacaueira de Canoagem, entidade que ajudou a fundar lá atrás.

Por falta de incentivo e patrocínio – ele conta que não havia Bolsa-Atleta na época em que foi atleta –, ele sempre teve dois empregos. Há 28 anos, ele é avaliador judicial e oficial de justiça em Ubatã, cidade vizinha a Ubaitaba.

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