Marcelo Régua|Inovafoto|CBV
Após temporada na Turquia, Sheilla está em Saquarema com a seleção Marcelo Régua|Inovafoto|CBV

Um em cada quatro atletas do Brasil treina no exterior para Olimpíada

Busca por competitividade é o principal fator de imigração

Nathalia Garcia e Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2016 | 17h03

Em busca do sonho de se tornar campeão olímpico, um em cada quatro atletas decidiu ultrapassar a fronteira do Brasil. Levantamento feito pelo Estado mostra que a estratégia foi adotada por esportistas de 19 das 42 modalidades que serão disputadas nos Jogos do Rio. Apesar de alguns nomes ainda não terem sido confirmados, o mapeamento faz uma projeção dos esportistas que devem representar o País a partir do dia 5 de agosto. Os brasileiros estão distribuídos em 21 países, mas a maior concentração ocorre nos Estados Unidos e na Itália. A procura por competitividade é o principal fator para a ida ao exterior.

Esse é o caso do nadador Thiago Pereira, que se mudou para Los Angeles pela segunda vez em 2014. "Nos Estados Unidos é muito fácil ter oportunidade de nadar com (Michael) Phelps e com Ryan (Lochte). Pego um voo de uma ou duas horas e estou em uma competição que eles estarão", diz o medalhista olímpico do Minas Tênis Clube.

A escassez de competidores com resultados expressivos atinge principalmente esportes com menos tradição no Brasil, como a esgrima. Às vésperas de sua quarta Olimpíada, Renzo Agresta treina ao lado de representantes da seleção italiana, em Roma. "Se o Brasil tivesse alguns atletas com o mesmo nível dos adversários que tenho na Itália, não precisaria morar aqui", avisa.  A Confederação Brasileira de Esgrima possui um acordo de cooperação com a federação italiana da modalidade desde 2010. Além de Renzo, os esgrimistas Athos Schwantes e Guilherme Toldo vivem no país.

Nos Jogos do Rio, o Brasil voltará a ter um representante no ciclismo de pista depois de 24 anos. E Gideoni Monteiro se prepara para o desafio no Centro Mundial de Ciclismo, em Aigle, na Suíça. A decisão foi tomada em conjunto pela comissão técnica do atleta da categoria Omnium e pela Confederação Brasileira de Ciclismo, que possui uma parceria com a União Ciclística Internacional. "Aqui posso fazer as mesmas corridas que meus adversários. Posso testar minha evolução e ter um parâmetro em relação ao desempenho dos outros", explica Gideoni.

O ciclista acredita que a pacata cidade de Aigle permite que sua vida esteja totalmente voltada para a preparação para a Olimpíada. Essa "sumida" também é vista como positiva por Thiago Pereira. O nadador destaca que em Los Angeles consegue se manter concentrado apenas nos treinos. Para ele, a repercussão da Olimpíada é constante no Brasil e catalisa a ansiedade dos atletas. "A gente começa a viver os Jogos Olímpicos muito antes."

A bicampeã olímpica de vôlei Sheilla aceitou o desafio de atuar na Turquia e não se arrepende da escolha. "Foi uma temporada muito positiva na qual pude trabalhar o meu físico. Joguei por uma grande equipe e disputei um dos campeonatos mais fortes do mundo, que é a Champions League. A Turquia está crescendo muito no vôlei e hoje tem uma das ligas mais fortes. O intercâmbio entre jogadoras é muito grande nas ligas da Europa."

Difundido nas escolas, o handebol enfrenta dificuldade na profissionalização. Os resultados da modalidade começaram a aparecer depois da ida dos atletas aos países europeus. O desenvolvimento da seleção feminina só foi possível graças ao convênio entre a Confederação Brasileira de Handebol e o time austríaco Hypo, que durou três anos. O primeiro título mundial, conquistado em dezembro de 2013, coroou esse investimento.

Uma das pioneiras no processo migratório foi a pivô Dani Piedade. Depois de mais de dez anos na Áustria e dois anos na Eslovênia, ela disputa a segunda temporada no Siófok KC, da Hungria. "Temos uma estrutura muito melhor. Sinto falta de ter uma liga com mais equipes no Brasil, a gente ainda precisa de muito para chegar ao profissional", lamenta.

O polo aquático vive uma situação semelhante. A pedido do técnico croata Ratko Rudic, os atletas deixaram o País para ganhar bagagem. Com esse objetivo, Gustavo "Grummy" disputa a Liga Italiana pelo Trieste. A vida pessoal, entretanto, também pesa na escolha. Erica Sena, da marcha atlética, mudou-se ao Equador para viver ao lado do marido Andrés Chocho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Treinar fora do Brasil ajudou a organizar minha rotina', diz Scheidt

Dono de cinco medalhas olímpicas, velejador vive com a família na Itália

Entrevista com

Robert Scheidt

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2016 | 17h03

O velejador Robert Scheidt, dono de cinco medalhas olímpicas, sendo duas de ouro, vive na Itália desde 2008 com sua família. Foi na Europa onde encontrou o local ideal para treinar para os Jogos do Rio.

Por que você escolheu a Itália?

Eu e a Gintare mudamos para o Lago Di Garda logo depois do nosso casamento, após a Olimpíada de Pequim. Moramos em um vilarejo na província de Trento, a cidade conhecida mais próxima é Verona. O lago é um ponto de encontro de velejadores, bem fácil de viajar para qualquer ponto da Europa.

Como é seu treinamento?

Tenho uma boa programação de exercícios físicos e também da parte técnica, fisioterapia e acompanhamento nas competições. Me sinto muito bem, sem dor. Também precisei me reacostumar aos treinos na Laser, que é uma classe muito solitária e você não tem com quem conversar. Sempre que posso, convido outros velejadores para treinar comigo aqui.

O que você tem aí que não encontra no Brasil?

Moro bem próximo ao Lago Di Garda, o que facilita bastante meus treinamentos. Além disso, pelo fato de ser uma cidade pequena, também ajuda nos deslocamentos.

Acha que o fato de treinar fora do País o ajudou a ter melhores resultados?

Treinar fora do Brasil ajudou a organizar melhor minha rotina pelas facilidades do lugar onde moro. Não acredito que tenha, necessariamente, me ajudado a ter resultados melhores, tanto que já havia ganhado vários Mundiais e medalhas antes de me mudar para a Itália.

Pensa em morar em outro país no futuro? Ou pretende voltar a morar no Brasil?

Tracei como objetivo deixar a vela olímpica após os Jogos do Rio e vou continuar velejando em classes de barco que exijam menos do corpo e mais da cabeça. Mas não estou pensando em aposentadoria agora. Quando chegar a hora, vou definir o que fazer e isso inclui também onde morar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.