Tiago Queiroz|Estadão
Tiago Queiroz|Estadão

'Vai pesar para quem nadar muitas provas', diz Thiago Pereira

Atleta se preocupa com a programação noturna no Rio

Entrevista com

Thiago Pereira

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

30 de abril de 2016 | 07h01

Com a prata nos 400 metros medley nos Jogos de Londres, Thiago Pereira realizou o sonho da conquista da medalha olímpica. O desafio no Rio será buscar o pódio nos 200 m medley para "apagar o quase" do seu vocabulário. Em três participações, o nadador ficou em 5º lugar em Atenas, em 2004, e registrou a 4ª posição em Pequim-2008 e Londres-2012.

O tiro de Thiago nessa Olimpíada é único e, para ser certeiro, será preciso superar os principais nomes da natação mundial. Para o atleta, o nadador que cair muitas vezes na piscina no Rio terá dificuldade devido à programação noturna dos Jogos. Em entrevista ao Estado, em evento da P&G, ele explica a decisão de não disputar os 400 m medley, fala sobre o Estádio Aquático e comenta o seu papel na delegação na ausência de Cesar Cielo.

Como será participar de uma prova tão acirrada como os 200 metros medley?

Vai ser curiosa, está sendo uma das provas mais esperadas dos Jogos. Dos seis melhores tempos da história, cinco estarão presentes. Só o Eric Shanteau não nada mais. A gente está pegando a nata e juntando no Rio. Estou confiante de que todos estarão na final, e a prova será decidida no último momento. Já foram três finais de 200 m medley com o László (Cseh), o (Michael) Phelps e o Ryan (Lochte). Honestamente, estou bem tranquilo. Abri mão dos 400 m medley, foi uma decisão pessoal. É uma prova bem dura e o tipo de treinamento acaba sendo diferente, não daria para ter resistência e velocidade ao mesmo tempo. Vamos ver se a gente tira essa medalha no Rio.

É um desafio extra para você?

O fato de eu ter conquistado a medalha olímpica em 2012 mudou bastante a minha cabeça porque, querendo ou não, tem a pressão fora, a pressão dentro e a nossa pressão, que é a maior de todas. Era um sonho de criança e eu sabia muito bem que, se não conseguisse, teria de esperar mais quatro anos para tentar de novo. 

Cogita tentar o índice A da Fina nos 400 metros medley?

Não cogito. Partindo do ponto que estou me preparando para os 200 m medley, acho que é um risco muito grande. Essa Olimpíada vai ser diferente, as finais vão ser às dez horas da noite, a eliminatória começa uma da tarde, nosso corpo não está acostumado a fazer força depois das 22h, o corpo já está se preparando para dormir. Posso estar errado, mas acho que vai pesar para quem nadar muitas provas nesses Jogos. Se você pensar que começa às 22h, vamos colocar duas horas, vai acabar meia-noite, a pessoa que ganhou medalha vai ter premiação e coletiva, tem de passar no doping, tem de fazer recuperação na água depois, chegar na Vila, jantar, abaixar a adrenalina e ir dormir. Isso vai ser pelo menos quatro horas da manhã. Ficar nessa rotina muitos dias começa a dar uma pesada. 

Vocês falaram do calor no Estádio Aquático durante o Troféu Maria Lenk. Pode ser um problema?

Estava quente. É lógico que a gente conta que não vai estar tão quente em agosto, que o Rio vai estar um pouco mais tranquilo. Ao mesmo tempo, você vai colocar 13 mil pessoas lá dentro. Se estiver do jeito que está, sem mudar nada para os Jogos, a gente teria uma preocupação. Mas tinha muita coisa para acabar, via que faltavam alguns detalhes.

Com a ausência do Cesar Cielo, você acha que a sua responsabilidade aumenta na equipe?

Não acho que a minha responsabilidade aumenta. É claro que a gente sente muito, eu senti bastante, acreditei que ele estaria nos Jogos. Infelizmente não deu. O Cesar mostrou para muitos que o impossível era possível com aquela medalha de ouro em 2008. É um peso a mais que a gente teria, iríamos para os Jogos com dois medalhistas (olímpicos), hoje estamos indo com um. Mas tenho certeza que vamos contar com a torcida dele.

Os Estados Unidos fazem seletiva única. O que você acha do modelo adotado pelo Brasil com duas provas classificatórias?

A gente tem de esperar muito para ter uma seletiva única. Tem de usar os Estados Unidos como um exemplo, mas também tem de entender que estamos anos-luz atrás deles. Quantas pessoas estão praticando no Brasil e quantas praticam lá? Se não vai o primeiro e o segundo americano, te garanto que o terceiro e quarto vão estar na final e brigando por medalha. O que às vezes no Brasil não acontece de um modo geral. Não está na hora de ter uma seletiva só, duas estão de bom tamanho. Você acaba diminuindo um pouco o risco.

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