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Vanderlei relembra agruras e emoções de sua maior conquista

Maratonista comemora aniversário do bronze olímpico de Atenas, que o tornou conhecido internacionalmente

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2014 | 16h09

Um mito que se renova. Dez anos depois da conquista da medalha de bronze na Olimpíada de Atenas, Vanderlei Cordeiro de Lima lembrou a importância do feito em coletiva concedida na sede da Bolsa de Valores de São Paulo. Em relato interrompido várias vezes por suas emoções, o maratonista lembrou aspectos não muito destacados em entrevista anteriores, e que reforçam sua proeza.

"O ano de 2004 foi de muita provação. Em janeiro eu ainda não tinha vaga garantida nos Jogos, e sofri um acidente de moto. Eu tinha que correr em abril para tentar garantir a vaga. Contei para o Ricardo (Ricardo D'Ângelo, treinador). Primeiro ele me deu uma bronca, e depois um voto de confiança. Acho que foi aí que partimos para a medalha, porque antes eu já havia jogado a toalha".

D'Ângelo também destaca a importância daquele momento. "Perguntei a ele se acreditava em mim, e disse que acreditava nele. A partir desse momento, reformulamos nossa programação. Ele ficou uma semana imobilizado por ter quebrado a clavícula, e na segunda semana, mesmo sem movimentos do braço esquerdo, foi treinar. Escolhemos a maratona de Hamburgo, mais para o final de abril, para ele fazer o índice. Ele treinou cinco semanas em Paipa (cidade localizada em meio à Cordilheira Oriental dos Andes, na Colômbia) e acabou ganhando em Hamburgo, o que nos deu muita confiança".

Em meio à alegria pela conquista do bronze, Vanderlei desenhou um coração com os dedos e simulou um voo de avião. Mas poucos sabiam por que aquele avião voava torto. "Uma das asas daquele avião, o meu braço esquerdo, estava encolhido, porque eu sentia muita dor. Mas a dor foi muito menor do que a alegria que eu estava sentindo".

Vanderlei absorveu rapidamente o ataque desferido pelo ex-padre irlandês Cornelius Horan, que o derrubou no chão. Àquela altura, depois do km30, o brasileiro levava vantagem de 50 segundos sobre o pelotão formado por Stefano Baldini, Meb Keflezighi e Paul Tergat. O italiano Baldini e o eritreu naturalizado norte-americano Keflezighi conseguiram ultrapassar Vanderlei e subiram aos degraus mais altos do pódio. O paranaense se esforçou e ainda conseguiu chegar 15 segundos à frente do britânico Jon Brown, assegurando a primeira e até hoje única medalha do Brasil na maratona olímpica. A Argentina tem dois ouros e uma prata, e o Chile tem uma prata.

Até hoje se pergunta a Vanderlei como ele conseguiu comemorar com tanta alegria o bronze depois de ter roubada a chance de obter um ouro. "Não me apego a coisas ruins. Não tenho raiva nem rancor daquele padre irlandês. Fui educado com esses valores pelos meus pais".

Vanderlei só não engole, até hoje, as declarações de Baldini, que disse, logo após a chegada, que venceria de qualquer modo, com ou sem o ataque de Horan, por ter ritmo superior ao do brasileiro. "Jamais vou dizer que seria o campeão, mas acho que o Stefano foi infeliz em suas declarações. Eu jamais subestimaria um adversário. A verdade é que me tiraram a grande oportunidade de ser campeão olímpico. Para se ter uma ideia, mesmo depois do ataque, demoraram quase dez minutos para me ultrapassar".

Ao final da coletiva, Vanderlei exibiu a bela medalha Pierre de Coubertin, oferecida pelo Comitê Olímpico Internacional a atletas que demonstram alto grau de esportividade e espírito olímpico. Apenas 11 atletas receberam a honraria, instituída em 1964.

Antes de falar sobre a medalha Pierre de Coubertin, Vanderlei mostrou uma peça bem mais simples, o ouro dos Jogos Pan-Americanos de 2003, em Santo Domingo, na República Dominicana. "Essa foi a medalha mais difícil da minha carreira. Não aguentava dar mais nenhum passo. Cruzei a linha de chegada e caí", recorda o atleta, que sofreu muito devido ao calor e à umidade caribenhos, apesar de a largada ter sido dada às 6h da manhã.

 

   

 

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