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Vazio na pista: Bolt se despede de Jogos Olímpicos como protagonista

Despedida do atleta deixa fãs – e até adversários – saudosos

Gonçalo Junior e Nathalia Garcia, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2016 | 05h24

A despedida olímpica de Usain Bolt no Rio-2016 deixa um vazio para os Jogos de Tóquio, em 2020. Não é só o atletismo que fica um pouco mais sem graça, o maior evento esportivo do mundo perde o protagonista de um espetáculo dentro e fora da pista.

No Rio, o jamaicano levou ao Engenhão milhares de fãs ávidos para registrar as suas últimas atuações memoráveis. Carismático, atrai multidões. Minutos antes de o astro passear pela pista, as arquibancadas ganham brilho. Tal luz até poderia ser dos olhos dos torcedores, mas a tecnologia tratou de ligar os flashes dos celulares. E os vídeos e fotos não param de chegar nas redes sociais. É esse tipo de idolatria que não se repetirá na próxima Olimpíada.

Dono de seis ouros olímpicos nas provas individuais, Bolt também deixa o esporte órfão. Sua ausência na próxima edição dos Jogos abre espaço para novos nomes mostrarem talento, mas alguns competidores preferem ter a honra de correr lado a lado da lenda do atletismo. É o caso do canadense Andre De Grasse, bronze nos 100 metros e prata nos 200 metros.

“Muitas pessoas perguntam se vai melhor para nós quando Bolt parar, mas eu vejo de outra forma. Quero sempre competir com os melhores. Ele vai fazer muita falta. Espero que não pare”, afirmou o atleta de 21 anos, que surpreendeu nos Jogos Olímpicos do Rio. E completou: “Eu realmente vou sentir falta daquele espírito competitivo. Estou tentando saborear todas as corridas contra ele.”

Foi com De Grasse que Bolt estrelou um momento curioso nas semifinais dos 200 m. Com o objetivo de quebrar o recorde mundial, o jamaicano tentava poupar energia antes da disputa de medalha. Até controlou o tempo, mas um pouco menos do que gostaria devido ao esforço do canadense. Não admitiria perder para um garoto. Trocou sorrisos com o rival ao cruzar a linha de chegada e apontou o indicador como quem diz “você está querendo aprontar”. De Grasse quebrou o recorde nacional, mas não desbancou o favorito nos 200 m.

O público no Rio também testemunhou o último embate olímpico entre Usain Bolt e Justin Gatlin e elegeu o bem e o mal da história. Queridinho da torcida, o jamaicano foi aplaudido a cada passo, enquanto o norte-americano foi alvo de vaias das arquibancadas do Engenhão. O “vilão” Gatlin garante que a rivalidade se restringe às competições. “Eu tenho todo o respeito por Usain fora da pista. Ele é divertido, um cara legal. Não tem rivalidade ou rixa. Eu sou um competidor, ele é um competidor e me impulsionou a ser o atleta que sou hoje.”

Bronze nos 200 metros, o francês Christophe Lemaitre também sublinha o legado que Bolt. “Os melhores competidores, como Bolt, são inspiração para os mais jovens. Mesmo que ele pare, sempre será um atleta a ser lembrado. É uma honra competir ao lado dele.”

Na Jamaica, todo jovem velocista quer seguir os passos de astro. Aos 21 anos, Jevaughn Minzie é um dos candidatos. O jamaicano perdeu a vaga no individual dos Jogos dos Rio para Bolt, que apresentou um atestado médico depois de sentir uma lesão na coxa esquerda na seletiva nacional de atletismo, e integrou apenas a equipe de revezamento 4 x 100 m. Não ficou chateado pela substituição – sabia que sua hora estava por vir.

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Nathalia Garcia, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2016 | 05h21

Responsável por um show particular na pista de atletismo, Usain Bolt preferiu a discrição fora dela. Chegou ao Rio de Janeiro no dia 27 de julho sob um forte esquema de segurança e dirigiu-se a um hotel afastado do burburinho dos Jogos Olímpicos. Permaneceu com a delegação jamaicana em esquema de concentração. A facilidade logística foi levada em consideração na escolha da hospedagem, próximo ao Cefan (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes). E ele aproveitou os treinos fechados para manter o silêncio.

A ida para a Vila Olímpica não alterou seu comportamento. Assediado por outros atletas, Bolt passava boa parte de seu tempo de descanso no quarto. Para o confinamento não se transformar em tédio, comprou uma televisão – com seu próprio dinheiro – e colocou o aparelho em seu apartamento.

A primeira aparição pública de Bolt ocorreu em uma entrevista coletiva onze dias depois, evento que saiu um pouco do protocolo. Brincadeiras com Asafa Powell, selfie com os jornalistas e até um rap feito por um norueguês deram um tom leve ao bate-papo, que abordou assuntos mais delicados.

Reafirmou a aposentadoria olímpica, evitou cutucar Justin Gatlin e analisou sua condição física, sem mostrar toda a confiança que lhe é característica. Em Londres-2012, se autodenominou “lenda”. Parecia mais contido dessa vez, muito por causa da lesão que atrapalhou sua classificação para a Olimpíada. Caiu no samba ao lado de algumas passistas, mas só voltou a dançar no Engenhão.

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