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Victoria Lovelady em ação no evento-teste no Rio Zeca Resendes|CBG

Victoria Lovelady dá suas tacadas movida ao som do violão

Golfista brasileira luta para ir aos Jogos Olímpicos do Rio em um esporte que volta à competição após 112 anos de ausência

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

19 de março de 2016 | 17h00

Depois de 112 anos o golfe volta ao programa olímpico e o Brasil tenta conquistar quatro vagas – duas já estão garantidas por ser país-sede, uma no masculino e outra no feminino. Quem está na disputa é Victoria Alimonda Lovelady, que está bem perto da zona de classificação para os Jogos do Rio. "Para que duas atletas do Brasil entrem, temos de subir 20 ou 30 posições, e isso é possível fazer em apenas um torneio. No ano passado subi 400 posições e o objetivo até julho é subir 150 posições, para passar o corte do ranking e também pensando na minha carreira", conta.

A atleta de 28 anos é 493ª do mundo e está atrás de outra brasileira, Mirian Nagl, que é 479ª e no ranking olímpico ocupa a 60ª e última posição. "A corrida olímpica está super positiva, não só para o meu lado mas também para o Brasil. A Mirian me passou no começo do ano, mas quero voltar a ser a brasileira mais bem colocada e ir além do nível de corte, para me classificar por mérito e não por convite de país-sede", diz, lembrando que se as duas melhorarem um pouco, ambas vão para os Jogos.

Por influência do pai, Victoria começou a jogar golfe aos 12 anos, depois de ter praticado handebol e futebol. "Sempre fui competitiva", confessa. Quatro anos depois ela percebeu que gostaria de ser atleta profissional e se comprometeu com isso. Então, foi para os Estados Unidos, jogava e estudava, enquanto morava com sua madrinha na Califórnia. "Foi um sacrifício, fiquei lá de 2003 a 2010, longe da família, da cultura do meu país, da minha língua, mas a paixão pelo golfe me ajudou a superar todos esses obstáculos."

Quando Victoria ficou sabendo que o golfe voltaria ao programa olímpico, após sua última aparição nos Jogos de 1904, em Saint Louis, nos EUA, a motivação para praticar a modalidade falou mais alto ainda. "Isso me fez querer virar profissional. Vi que era uma linda oportunidade de estar jogando o meu esporte no meu país, depois de tantos anos de ausência do golfe na Olimpíada. Estar lá é uma meta que tenho levado comigo nos últimos oito anos, diariamente. Estou chegando cada vez mais perto desse objetivo ser realizado."

A fim de conquistar os pontos que faltam para carimbar sua vaga, Victoria vem se preparando com afinco. Ela explica que no começo da temporada faz preparação para ganhar músculo e força, depois faz coisas mais sutis para manter o corpo, como pilates. De dezembro a janeiro, ela trabalha muito a parte técnica, com repetições do movimento. "O golfe tem muita torção e giro do quadril e ombros, é um movimento antinatural. Tem de se condicionar para não se machucar. Com o Tiger Woods virou um esporte mais atlético", explica.

Mente sã. Uma das coisas mais importantes no golfe é a concentração durante as partidas. Em um dia de competição, o atleta chega a ficar sete horas na disputa. "A mente tem de estar mais descansada que o corpo. Envolve boas horas de sono e alimentação saudável", conta a atleta.

Uma das coisas que ajuda Victoria a relaxar é a música. Neta de Heitor Alimonda, um mestre do piano, ela desde cedo teve contato com os instrumentos musicais. "Comecei no piano, por causa do histórico da nossa família na música clássica, mas aos 13 anos comecei a tocar violão, ficava horas no quarto tocando MPB. Comecei a compor e isso é uma coisa que foi muito importante na minha vida, traz um equilíbrio emocional, ajuda na parte criativa”, revela. Ela, inclusive, pensa em fazer algo ligado à música quando sua carreira no golfe chegar ao fim. “Tive uma oportunidade legal de tocar em uma competição na China, tinha umas 500 pessoas, foi no palco, foi bem legal."

Foi por causa do marido que ela abriu mão de usar o sobrenome Alimonda e passou a adotar o Lovelady dele. Tanto que acabou virando uma marca, que provoca reações das mais diversas. "É um sobrenome engraçadíssimo, que todas as culturas entendem. Até na China o pessoal brinca, faz graça. Tem piadinhas, falam ‘Dama do Amor’, mas é bom que a galera lembra, cria uma certa aproximação e é bom pois adoro interagir com o público. Só trouxe coisa boa para minha vida", conclui.

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Golfistas brasileiros têm que deixar País para crescer na carreira

Diretor técnico da CBG fala sobre falta de oportunidades no Brasil

Gustavo Zucchi, O Estado de S. Paulo

19 de março de 2016 | 17h00

O golfe volta aos Jogos Olímpicos em 2016 após mais de um século distante da competição. Entretanto, a modernidade que hoje predomina do esporte ainda engatinha no Brasil. Mesmo com os recentes investimentos feitos pelo Ministério do Esporte (que no final de 2015 cedeu R$ 3,1 milhão para a Confederação Brasileira de Golfe), jovens golfistas ainda tem enormes dificuldades. A solução, por enquanto, ainda é para poucos: deixar o Brasil e competir no exterior.

Pelo menos é essa a conclusão que Nico Barcellos, diretor técnico da CBG. Junto com a entidade, têm trabalhado para o desenvolvimento da modalidade em terras brasileiras, mas reconhece que não é fácil ser um golfista por aqui. "Acho que temos muito talento no Brasil, mas hoje em dia para conseguir excelentes jogadores você precisa sair do País", afirma. Ele explica que, ao chegar em um determinado ponto da carreira e não conseguir patrocinadores, muitos atletas acabam ou desistindo ou dando aulas.

"Temos por exemplo o Herik Machado (atual líder do ranking masculino amador da CBG), que é uma pessoa humilde, que veio de um projeto social, mas chega uma hora que ele precisa de um patrocinador. E se ele não conseguir vai ser um talento que vamos perder", diz Barcellos.

Além do maior incentivo ao esporte, em especial nos Estados Unidos, outro ponto positivo para deixar o Brasil é o nível da competição. Foi o que aconteceu com Adilson da Silva, golfista brasileiro que mora na África do Sul desde 1991. Lá, teve a oportunidade de aprender com Tim Price, irmão do Nick Price (ex-número um do mundo).

"Eu já estou fora do Brasil por um tempo grande, tive muita sorte e até agora aprendi muitas coisas no golfe. Tudo isto me ajudou a jogar melhor e fazer pontos pro ranking", explica Adilson, brasileiro melhor colocado no ranking mundial.

"Uma das metas nossas é colocar vários juvenis com bolsa de estudos no exterior para desenvolver melhor o golfe. Infelizmente não temos bolsa universitário no Brasil e nas competições amadoras aqui o nível não é tão alto", diz Barcellos.

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