Vidas inteiras em olhares

Atletas, turistas e até mesmo autoridades mostram em expressões como sentem os Jogos Olímpicos do Rio

Marco Ricca, O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2016 | 03h00

Fico observando os atletas naquele espaço de tempo onde eles tomam suas posições para a largada. Os gestos, as mandingas, os tiques. E ainda mais, quando possível, seus olhares. Os olhos, estes que nunca mentem. São todos esportistas talhados, treinados, preparados psicologicamente para, após um longo processo, o fato. O instante único. Assustador.

E antes mesmo da largada avisto os primeiros deslizes. O momento em que se percebe, em alguns, um flutuar em seus olhos. Não são mais obstinados. Estão perplexos. E passam a ser observadores onde deveriam ser apenas observados. Engolidos pelo gigantismo do evento, olham tudo como se o tempo estivesse suspenso. E tudo é muito rápido. Anos e anos, e é do céu ao inferno em segundos, minutos. Que vida!

Parece que só os fortes sobrevivem. Que têm a capacidade de abstrair o entorno e focam numa mira treinada obsessivamente. O que pensam estes jovens, antes, durante e depois? Difícil decifrar.

Mas eis aí um esporte a que me dedico. Tentar fazer uma leitura do que se passa na mente, na cachola dos indivíduos em seus limites. Impossível? Talvez. Venho treinando permanentemente. Não é um esporte de resultados precisos. Não há recordistas nem medalhistas. Mas há uma satisfação em tentar compreender o outro. Olhar para o outro. Com complacência. Talvez tenha adquirido este vicio por força do ofício. É um pouco perigoso, diria, pois pode dar margem a prejulgamentos. E isso não serve apenas para os atletas nesta Olimpíada. Vários profissionais e voluntários sofreram o abuso do meu olhar. Devorei seus comportamentos, atitudes, emoções.

Estava no Rio de Janeiro durante a abertura dos Jogos. Decretaram feriado. Saí andando pelas ruas, olhando turistas felizes. Um aparato de segurança pronto para uma guerra. Jovens com farda do Exército com fuzis enormes, espalhados pelas esquinas, todos com cara de indefesos.

E à noite fui assistir à abertura pela TV. Ainda acompanhando os que ali se apresentavam e tentando formular as minha conclusões. Pude ver os olhos plácidos de Paulinho da Viola dignificando a nossa história. E sua revolucionária versão para o nosso Hino – que eu tinha esquecido como é bonito. A Gisele, o Caetano, o Gil, a Anitta, os bailarinos da Deborah Colker. Estavam todos ali entregues, eu li em seus olhos.

Mas eis que milhões ou bilhões de espectadores viram a imagem de nosso interino presidente, afundado numa cadeira. Sem mesmo ser anunciado. Olhos fixos. Um pouco assustado, mas muito bem treinado, sem esboçar nenhuma emoção. Nem mesmo quando decretou abertos os Jogos, numa velocidade de narrador de corrida de cavalos, e a vaia correu solta. Nada o abalou. Sentou e ficou ali, impávido. Por vezes aplaudiu. E deu pra ver o que se passava na cachola da autoridade.

O que Michel Temer pensava? Eu sei, pois venho treinando isso quase uma vida. E conheço bem estes personagens, encenei três Shakespeare na minha vida. Como se aprende com o Bardo. Mas não posso contar para vocês. Uma coisa posso adiantar: ele não vai para o encerramento. Ele, como sabemos é capaz de tudo, mas passar por isso de novo... O que vocês acham?

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