Peter Power/ Reuters
Peter Power/ Reuters

Wada pede que COI exclua a Rússia de todas as competições na Olimpíada

Agência divulga lista com sete exigências ao Comitê Olímpico

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2016 | 14h52

Uma investigação independente liderada pela Agência Mundial Anti-Doping revela que o governo russo de Vladimir Putin, com a ajuda de espiões do Kremlin, fraudou os testes de laboratório em Moscou e antes e durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 em Sochi para beneficiar seus atletas. A revelação está sendo seguida por um apelo de dez países para que o COI agora exclua a Rússia do Rio de Janeiro em todas as modalidades, e não apenas no atletismo. 

"O Ministério dos Esportes dirigiu, controlou e coordenou a manipulação dos resultados de atletas, ajudados pelo FSB (o serviço secreto russo)", declarou a investigação. O levantamento também concluiu que o serviço secreto mantinha um freezer clandestino para ajudar na operação para trocar as amostras dos resultados.

A metodologia passou a ser conhecida como a de "fazer desaparecer testes positivos". "Todos os esportes foram afetados", alertou a investigação. Entre as modalidades identificadas estão atletismo, esportes de inverno e a maioria dos esportes da olimpíada de verão. Isso inclui futebol, canoagem, handball, remo, judo, boxe, volei de praia, vela, ciclismo, natação, esgrima e várias outras. 

Mergulhado em sua pior crise de doping, o esporte russo já foi alvo de um golpe ao ter todos os seus representantes no atletismo suspensos da Olimpíada. Apenas aqueles que conseguirem provar que passaram em controles de doping fora de Moscou é que poderão competir. 

Mas, por enquanto, essa lista se limita a apenas duas atletas e ambas terão de atuar sob um bandeira "neutra" no Rio. Uma delas, Yuliya Stepanova, fugiu da Rússia em 2014 e Putin a chamou de "Judas" por denunciar o sistema de doping no país. A equipe de levantamento de peso também pode ficar de fora, depois de suspeitas de doping.

Mas, agora, o informe produzido pelo advogado canadense, Richard McLaren, à pedido da WADA revela que a operação de doping foi conduzida pelo próprio governo. A investigação foi feita depois que o ex-diretor dos laboratórios de Moscou, Grigory Rodchenkov, revelou ao New York Times que, durante os Jogos de Sochi, recebeu ordens para trocar as amostras de sangue e urina de dezenas de atletas. Pelo menos 15 deles ganharam medalhas. 

Segundo Rodchenkov, isso ocorreu "em cooperação com o Ministério dos Esportes" e que a mesma prática foi realizada antes de Londres em 2012, e do campeonato mundial de Atletismo em Moscou em 2013. Em 2015, a troca de amostras também ocorreu no campeonato mundial de natação em Kazan. 

McLaren, em seu informe, confirmou a suspeita. "Acima de qualquer dúvida, chegamos à constatação de que o laboratório de Moscou criou um sistema de doping direcionado pelo estado" disse. "Isso não é apenas para atlestimo, mas para muitos esportes", insistiu. Segundo ele, a metodologia consistia "em trocar amostras e permitir que atletas pudessem competir, mesmo dopados ". 

A investigação ainda aponta que o governo de Putin "dirigiu e controlou » o esquema de doping, usando até mesmo os serviços de inteligência da ex-KGB. O especialista indicou que chegou a isso por meio de entrevistas, revisou milhares de páginas, análises laboratoriais e testes forênsicos.

A ordem vinha do Ministério dos Esportes, trocando as amostras de esportistas indicados pelo governo. "O governo estava envolvido nesse esquema", confirmou. 

Em Sochi, a manipulação também ocorreu. Mas, com a vistoria internacional, os russos tiveram de se adaptar para fazer desaparecer as amostras. O FSB foi acionado e nenhum teste positivo para atletas russos era feito sem o serviço secreto. Os testes eram colhidos regularmente. Mas pela noite era passado para um prédio ao lado, onde ficava uma operação ilegal fora da sala. Ali,  as amostras eram trocadas. 

"Assim, os atletas podiam competir sabendo que não seriam pegos"  disse McLaren. Segundo ele, Vitaly Mutko, ministro dos Esportes, não tinha como não saber.  Mas o centro da operaçäo também foi liderado pelo serviço secreto russo. 

O Comitê Olímpico Russo também foi implicado. Isso porque alguns dos membros do Ministério do Esporte e presidentes de federações esportivas também faziam parte do Conselho do Comitê Olímpico.  Segundo McLaren, atletas que não aceitavam participar do esquema não eram autorizados a ter os melhores treinadores e nem competir em torneios de alto escalão. 

Os investigadores também apontaram que as garrafas usadas para guardaras amostras podem ser abertas e com amostras trocadas. 

EXCLUSÃO

As revelações prometem colocar uma pressão extra sobre o COI para que tome uma decisão se deve barrar toda a delegação russa do Brasil ou apenas os atletas envolvidos. Nos últimos meses, o presidente do COI, Thomas Bach, indicou que precisaria encontrar "um equilíbrio entre responsabilidade coletiva e justiça individual". Ele ainda elogiou a cooperaçäo das autoridades russas.   

Mas agências anti-doping de dez países e mais de 20 grupos de atletas prometem pedir que o COI suspensa a delegação russa completa dos Jogos do Rio, e não apenas os atletas identificados. O argumento é de que o doping era generalizado e que, hoje, não há como saber quem está limpo. Os países incluem Alemanha, Espanha, Japão, Suíça, EUA e Canadá. 

Para a Associação de Agências Anti-Doping, a constatação da WADA é um "divisor de águas" na história do esporte. "A medida apropriada seria a de suspender a Rússia dos Jogos", disse Paul Melia, representante do Canadá. 

O governo russo admitiu que tem problemas com o doping. Mas, nos últimos meses, insiste que jamais promoveu o doping como política de estado. 

 

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