Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Agência antidoping pede exclusão da Rússia do atletismo nos Jogos

Estado russo promove o doping, afirma investigação da Wada

Jamil Chade, de Genebra, O EStado de S. Paulo

09 de novembro de 2015 | 16h49

A Agência Mundial de Contrôle de Doping recomenda que a Rússia seja banida nas modalidades de atletismo nos Jogos do Rio e de todas as demais competições. Isso depois que ela revelou nesta segunda-feura que o governo russo promoveu uma indústria para manipular resultados no atletismo, subornando dirigentes, comprando resultados, criando laboratórios secretos e mesmo destruindo mais de 1,4 mil amostras de sangue de atletas antes que fossem examinados.

Para os investigadores, o sistema criado pelos russos seria uma « herança da Guerra Fria» e apoiado pelo governo. O escândalo é considerado pelos investigadores como um dos maiores do esporte e, para a Wada, revela apenas "a ponta de um ice-berg ".

Para os investigadores, o uso de substâncias proibidas é "consistente e sistemático" na Rússia e que as autoridades teriam pago milhões de dólares para evitar que seus atletas fossem banidos por doping.

Eles teriam até mesmo construído um laboratório paralelo para onde as amostras seriam enviadas. Apenas aquelas que estivessem limpas seriam então repassadas para os laboratórios oficiais e com controle internacional.

Atletas ainda foram retirados de Londres nos Jogos Olímpicos de 2012 para realizar testes em Moscou e, com a comprovação de que estavam limpos, voltaram para o evento.

Na última olimpíada, os russos acumularam 17 medalhas no atletismo, superando a China e ficando apenas abaixo dos EUA.

Em dezembro de 2014, dias antes de uma visita dos inspetores da Wada, os russos ainda destruíram 1,4 mil amostras de sangue e urina. “Isso foi extremamente problemático”, disse Richard Pound, investigador-chefe.

“Nossa recomendação é que a Rússia seja suspensa de todas as competições de atletismo, incluindo os Jogos de 2016 no Rio”, disse, ao responder a uma pergunta do Estado. “Esse é o preço que se paga. Esperamos que eles tomem a decisão voluntária de não participar e que entendam que chegou o momento de parar. Mas se isso não ocorrer, algo precisa ser feito”, disse Pound, que insistiu que não haveria como garantir que a prática tenha sido abandonada e nem que o evento em Sochi em 2014 tenha sido limpo.

As descobertas prometem criar uma das maiores crises já vividas pelo esporte e coloca pressão sobre o COI para que suspenda a Rússia dos Jogos Olímpicos. Na entidade, Thomas Bach indicou que está “chocado” com as revelações e que vai estudar a punição.

SUBORNO

Segundo o informe, a Federação Internacional de Atletismo "fracassou" em evitar os casos na Rússia e os investigadores recomendam que todos os laboratórios russos sejam desacreditados. Na França, a polícia investiga pagamentos de mais de US$ 1 milhão entre a federação russa e Lamine Diack, o ex-presidente da Federação Internacional de Atletismo. O dinheiro seria para garantir que a entidade não testasse determinados atletas russos.

Na Interpol, uma operação também foi lançada ontem para investigar o doping no atletismo.

"A aceitação do doping em todos os níveis é generalizada", disse Pound. Isso envolve atletas, médicos e dirigentes. "Atitudes não éticas se transformaram em lei e os atletas que não aceitassem participar do programa russo seriam excluído das equipes”, disse.

Os investigadores insistem que muitos atletas se recusaram a participar da enquete. Mas alertam que os diretores dos laboratórios de testes na Rússia eram quem forneciam as substâncias. A WADA ainda apontou que o governo russo "interferiu diretamente" nas operações dos laboratórios e até mesmo colocou pessoas de suas forças de segurança para "intimidar" os profissionais em Moscou e Sochi. 

Os atletas russos ainda eram avisados dos testes, amostras eram escondidas e subornos foram pagos para que exames fossem evitados. “Só foi pego quem tinha um Q.I. muito baixo”, ironizou Pound,

Em 2012 em Londres, a investigação indicou que vários atletas teriam de ser suspensos. Mas « de forma inexplicável » foram autorizados a competir nos Jogos Olímpicos. "Os Jogos foram sabotados", disse Richard Pound. "O problema é pior que imaginávamos", afirmou.

Para ele, não há como o esquema ter ocorrido sem o conhecimento do governo. "O ministro dos Esportes, Vitaly Mutko, sabia e foi cúmplice", indicou Pound, revelando que houve um encontro entre os dois. "Esse foi um doping auxiliado pelo estado. Os treinadores são controlados pelo estado", insistiu.

Ironizando a atuação do governo russo, o investigador ainda apontou que "não entende o interesse do estado pela urina de atletas".

Em Moscou, Mutko negou todas as acusações e disse que a Wada "não tem direito" de suspender o país.

O caso veio à tona graças a uma reportagem da TV alemã ARD, que indicou que um terço das medalhas foram vencidas por atletas sob suspeita de doping. 

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