JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Xeque da maior mesquita da América Latina diz que EI 'não é Estado e nem islâmico'

'Não tem nada a ver com a nossa religião', diz Xeque dr. Abdul Hamid Metwally

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2016 | 07h00

Xeque dr. Abdul Hamid Metwally, 45 anos, tira o celular do bolso e entra em sua página do Facebook. Nela, clica em um vídeo em que discursa sobre o Estado Islâmico. “Não é Estado, não é islâmico e não tem nada a ver com a nossa religião”, diz. Pensando em aproveitar a “deixa”, o repórter pergunta se as redes sociais não têm feito mais mal do que bem à comunidade muçulmana ou a difusão do islã ao redor do mundo. O xeque sorri e devolve a pergunta com outra questão. “Você diria que uma faca é um objeto bom ou ruim?” 

Sem deixar que o repórter responda, ele pede cinco minutos de paciência. O relógio marca 18h e, com outros nove homens (e seis mulheres que ficam no fundo do salão), ele se vira a Meca e inicia sua quarta oração do dia. O ritual é simples, mas realizado com seriedade e devoção. No fim, ele volta acompanhado de um intérprete. Embora o português dele seja bom, o religioso prefere não deixar nenhuma dúvida no ar. 

Como responsável pela Mesquita Brasil, a maior da América Latina, e presidente do Conselho Superior dos Teólogos dos Assuntos Islâmicos no Brasil, Metwally será um dos líderes religiosos a participar das Olimpíada do Rio. Na cidade dos Jogos, ele terá o papel de aconselhar e até advertir os atletas muçulmanos e outros praticantes da religião envolvidos com o evento. “A segurança do Brasil também é a nossa segurança”, diz o xeque. 

Assim, Metwally apoia a atitude do governo brasileiro e a detenção dos 11 suspeitos de supostamente tramarem ações violentas durante os jogos. “O que precisa ficar claro é que eles não são muçulmanos, não conhecem o islã, não podem se confundir com nosso povo”, diz. O xeque exemplifica sua posição com a própria história. “Fiz universidade no Egito, sou mestrado e doutorado em religião. Estudei 27 anos para estar aqui. Uma pessoa que passa seis meses no Egito (um dos suspeitos presos passou alguns meses no Egito) não pode voltar dizendo que conhece o Alcorão e pregar isso ou aquilo. Essa pessoa não tem conhecimento. Ou foi buscá-lo na fonte errada”, comenta. Bom de comparações, o xeque alerta: “É como se você estivesse doente e fosse ao barbeiro ao invés de procurar um médico. Esses meninos brasileiros estão doentes e foram procurar um barbeiro”, diz. “Eles acham que ser muçulmano é deixar a barba crescer e usar roupas diferentes”, completa.

O próprio xeque diz que eventualmente já recebeu em sua mesquita jovens com uma ideia distorcida do islã. Nesses casos, procura passar o verdadeiro sentido do que é seguir Alá. “Se não entendem, se preferem continuar na ignorância, nós os colocamos para fora. Não são aceitos em nossa comunidade. Ou mudam ou são expulsos.” Metwally recorda que o principal mal-entendido desses jovens radicalizados é em relação ao significado da palavra “Jihad”. “Jihad não é ataque, não é guerra. Significa defesa. Não tem nada a ver com o que prega o Estado Islâmico”. 

O religioso lembra que o Estado Islâmico tem em sua bandeira a frase “Deus é maior” e que isso é uma farsa. “Eles têm uma frase na bandeira e nada no coração. O coração não tem bandeira. Eles, os terroristas, são apenas aparência. Não têm essência nenhuma”.

Nesse ponto da conversa, um homem que acompanhava a conversa no interior da mesquita, tira o celular do bolso e começa a mostrar um vídeo de um ataque do EI contra crianças na Síria. “Mais de 200 crianças mortas. Você acha que isso é Deus? Acha que nós defendemos isso?”, diz. 

A reação do homem, um sírio, é fácil de entender. Infelizmente, as ações do EI e de outros grupos terroristas fez com que o preconceito religioso atingisse em cheio os muçulmanos no País. Não raro, frequentadores da mesquita, homens como aquele que mostrou o vídeo dos ataques contra as crianças, ouvem comentários do tipo “chegou o homem-bomba” ou percebem outras pessoas evitando permanecerem no mesmo espaço do que eles - provavelmente por medo de atentados. “Ignorância. Muita ignorância e falta de conhecimento básico sobre religião. As pessoas temem o que não conhecem”, afirma.

Para o religioso, os ataques têm um alvo claro: os próprios muçulmanos - e que eles seriam produzidos ou fomentados por americanos e europeus. “Hoje o nome é Estado Islâmico, mas já teve o nome de Osama Bin Laden, já foi Taleban e Al-Quaeda.São apenas nomes que criam com intenções veladas de atingir a verdadeira religião”. 

Metwally diz acreditar que os Jogos acontecerão sem incidente mais grave. “Estou disposto, assim como outros religiosos, a colaborar: a segurança do Brasil é a nossa segurança também. Estamos aqui para defender esse País de qualquer coisa”, avisa.

Egípcio de nascimento e há 10 anos aqui, com uma filha brasileira, se diz corintiano: “Sou brasileiro também. Minha mesquita é aberta para a comunidade, para pessoas de todas as raças e credos. Estamos aqui para fazer parte da sociedade, para dividir experiências com todos que estiverem dispostos a também nos conhecer melhor”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.