Michael Reaves/AFP
Michael Reaves/AFP

A ascensão do UFC: de espetáculo de bizarrices a um dos palcos mais sagrados do esporte

Antes de Conor McGregor e Ronda Rousey, tivemos Teila Tuli, um imenso havaiano lutador de sumô

Marissa Payne, The Washington Post

12 de novembro de 2016 | 07h39

No dia 12 de novembro de 1993, Tuli, de 185kg, usando um colorido saiote samoano, lutou contra um magro holandês de calça de agasalho branca chamado Gerard Gordeau, com metade do peso de Tuli. A ideia por trás do evento eliminatório na McNichols Arena, em Denver, era promover embates entre diferentes estilos de artes marciais para determinar “o melhor”, e os lentos movimentos da técnica de sumô de Tuli não tiveram chance contra os ágeis golpes do savate de Gordeau.

Depois que Tuli tombou feito um tronco, quase derrubando as paredes originais do octógono, na época fechadas por correntes, Gordeau finalizou o oponente com um chute no rosto. Foi então que o havaiano perdeu os dentes. Um deles foi parar na plateia; outro ficou no pé de Gordeau.

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“O público ficou em silêncio”, recordou Ken Shamrock, do hall da fama dos lutadores de UFC, em entrevista que acompanha o DVD do evento, lançado em 2006. “Naquele momento, todos perceberam qual era a ideia do UFC. Foi aquela luta que definiu o tom das coisas.”

As artes marciais mistas tinham anunciado sua chegada, mas anos se passariam até que o UFC se tornasse a empresa de US$ 4 bilhões que a agência de talentos WME-IMG comprou em julho. Nem o presidente atual do UFC, Dana White, se tornou fã logo no princípio, descrevendo o “espetáculo de bizarrices” como “loucura total”.

Exatamente 23 anos mais tarde, essa modalidade se aproxima de seu maior momento: o UFC 205, a ser disputado sábado no Madison Square Garden, o tão aguardado evento principal em um dos palcos mais sagrados do esporte.

“Trata-se de um edifício icônico onde ocorreram inúmeras lutas memoráveis e outros eventos”, disse White, ex-boxeador, a respeito do ringue que muitos consideram um santuário do pugilismo. “É importante.”

Mas, desde aquela primeira noite diante de aproximadamente 5 mil fãs em Denver, o caminho trilhado pelo UFC nada teve de tranquilo.

INÍCIO INTRIGANTE

Dependendo de quem responde a pergunta, o UFC 1 foi criado pelo executivo de publicidade Art Davie, do Brooklyn, pelo mestre do jiujitsu Rorian Gracie ou pelo empresário Bob Meyerowitz, do pay-per-view. Mas é provável que nada teria ocorrido se os três não tivessem se reunido meses antes do evento em 1993.

No livro de memórias escrito por Davie em 2014, Is this legal? The inside story of the first UFC from the man who created it (Algo como “Isso pode? Os bastidores do primeiro UFC nas palavras do homem que o criou”), ele descreveu a criação do Ultimate Fighting Championship, depois rebatizado de UFC 1: O Início, como “uma missão que consumiu toda a minha vida”. Depois de apresentar a ideia como campanha de marketing para uma importadora da cerveja Tecate no final dos anos 80, sem sucesso, Davie a trouxe de volta depois de se matricular em aulas de jiujitsu na academia de Gracie em Torrance, Califórnia, que abrigava o “Gracie Challenge”.

Adaptado a partir dos campeonatos brasileiros de “vale tudo”, que atraem combatentes de todo tipo para disputas desarmadas, o Gracie Challenge oferecia uma recompensa de US$ 100.000,00 a qualquer um que conseguisse vencer o anfitrião ou um de seus irmãos. Poucos tentaram, nenhum conseguiu, mas Gracie teve uma ideia.

“Percebi que tinha que deixar a garagem de casa se quisesse apresentar o jiujitsu ao mundo, e sabia que precisaria da TV para fazê-lo”, recordou Gracie em entrevista à MMA Fighting em 2013. “Foi então que tive a ideia de criar um campeonato em que todas as artes marciais competiriam entre si para revelar qual é a melhor.”

Meyerowitz, diretor do Semaphore Entertainment Group, disse que também vivia se indagando qual seria o estilo de luta supremo. Antes de sua cerimônia de ascensão ao hall da fama do UFC no semestre passado, ele lembrou de quando apresentou a ideia de um campeonato a seus funcionários.

“Todos gostaram da ideia”, disse Meyerowitz ao UFC.com. “É claro que, como eu era o diretor da empresa, essa reação já seria esperada. Na reunião seguinte, eles disseram, ‘E o jiujitsu, e a luta greco-romana?' Eu disse ‘Tudo bem, faremos com que todos lutem. Gostaria de ver o resultado’.”

Parece que um grande número de americanos pensava o mesmo. O espetáculo de Denver foi considerado um “sucesso" pelo Los Angeles Times, único veículo jornalístico de expressão a publicar algo a respeito do evento. De acordo com o jornal, o UFC 1 foi comprado por 65 mil lares americanos ao valor de US$ 14,95 cada. Atualmente, o valor do UFC no pay-per-view pode chegar a US$ 49,99 ou US$ 59,99, com mais de 1,5 milhão de pagantes.

“Foi muito intrigante”, disse Urijah Faber, um dos primeiros espectadores e alguém que se tornaria favorito na categoria peso galo do UFC. “Boxeadores (um deles usava apenas uma luva) competiam contra lutadores de sumô, havia um branco de penteado estranho com um dente faltando… Era o encontro mais louco que se pode imaginar."

Foi também um dos eventos mais desequilibrados da história do MMA. O “lutador de sumô” não venceu, e o kickboxer Kevin Rosier, descrito pelo crítico de TV do LA Times como “um gordinho de 120kg… que usava o calção sobre a pança como o personagem Ed Grimley, de Martin Short”. Gordeau, que cumprimentou o animado público com uma tradicional saudação das artes marciais, teve o melhor desempenho entre os derrotados, chegando às finais antes de sucumbir diante de um dos irmãos de Rorion Gracie.

“Organizar um campeonato nos moldes que usávamos no começo, com três ou quatro lutas numa noite, é muito difícil”, recordou o vencedor, Royce Gracie, no DVD do UFC 1.

Gracie usou sua superioridade no solo para subjugar seus três oponentes, incluindo Art Jimmerson, talentoso boxeador que teve a ideia de entrar no octógono com uma só luva.

O evento terminou com Rorion Gracie entregando a Royce Gracie um imenso cheque de US$ 50.000,00. Na descrição, as palavras: “Por ser o melhor”.

DE BIZARRICE A ESPORTE DE VERDADE

Basta sintonizar o evento de sábado para perceber que o UFC de antigamente se parece pouco com a versão atual. Não há lutadores de sumô combatendo especialistas num estilo francês de kickboxing. Nada de judocas nem boxeadores, nem especialistas em taekwondo ou luta greco-romana.

“Não há especialistas”, disse Faber, 37 anos, cuja última luta está marcada para dezembro. “Todos são praticantes de artes marciais mistas.”

Havia três regras no UFC 1 que eram seguidas sem muito rigor - nada de dedos nos olhos, nem mordidas, nem golpes na virilha. Os lutadores não podiam usar proteção nas mãos, provocando ferimentos. Os árbitros não podiam interromper as lutas: apenas o lutador, seu corner ou um médico poderiam fazê-lo. E ninguém pensava em categorias de peso. O estilo de luta deveria compensar o tamanho, como Gordeau mostrou a Tuli.

Não demorou até que as coisas começassem a mudar. Já no UFC 3 os árbitros podiam interromper as lutas. No UFC 9, os promotores extinguiram o formato por eliminação. No UFC 12, categorias de peso foram introduzidas. Outras regras foram acrescentadas até serem reunidas em 2001 nas chamadas Regras Unificadas do MMA, que agora regem todos os aspectos do esporte, desde o equipamento que os lutadores podem usar (foi-se a época do kimono usado por Gracie, que lhe dava vantagem sobre os oponentes, e a inútil luva de boxe de Jimmerson) até golpes considerados ilegais.

Dedos nos olhos, mordidas e golpes na virilha continuam proibidos, bem como cabeçadas, puxões de cabelo, dedos na boca, golpes contra as juntas menores, dedos em ferimentos abertos, golpes contra a coluna, agarrar a garganta e usar as unhas. O jornalista Dave Meltzer, que há anos cobre o MMA e voltou recentemente a assistir o UFC 1 alguns anos atrás, lembra de ter pensado, “Tudo que eles estão fazendo no vídeo é ilegal hoje em dia”.

A natureza de vale tudo também trouxe para esse esporte uma crise de marketing. “Se analisarmos a linguagem usada antigamente, ‘Sem limites’, ‘Dois homens entram na jaula e apenas um sai’, é como se fosse acontecer alguma loucura ou até uma morte”, disse White na semana passada. “O evento era anunciado com toda uma empolgação e dramaticidade que não eram necessariamente verdadeiras.”

“Repare nos meus dedos (estão bem juntos): eles representam o número de interessados em assistir a um espetáculo de bizarrices“, prosseguiu White. “Agora abra os braços o mais que puder: isso representa os interessados em assistir a um esporte de verdade.”

O UFC chegou a seu ponto mais baixo em meados dos anos 90, quando o senador John McCain descreveu o MMA como “briga de galos humanos” e escreveu cartas a cada governador estadual na tentativa de tornar o esporte ilegal. E quase teve sucesso, com dúzias de estados anunciando a proibição, incluindo Califórnia e Nova York. O UFC começou a perder dinheiro e tornou-se difícil agendar transmissões no pay-per-view. Após a decisão de banir o esporte adotada pelo estado de Nova York em 1997, um comunicado à imprensa de David Meyrowitz, advogado que representava a Semaphore, falou que se tratava de “censura, pura e simples”.

Mas White defende o senador republicano, dizendo que “McCain tinha razão e concordamos com ele”.

Em 2001, White teve sua oportunidade de implementar mudanças. Com dois irmãos e magnatas do ramo dos cassinos, Frank e Lorenzo Fertitta, ele formou a empresa Zuffa e comprou o UFC por US$ 2 milhões depois de descobrir que o campeonato estava à beira da falência.

“A grande jogada que fez o esporte avançar foi o envolvimento da Zuffa”, disse Faber, o lutador de carreira. “Foram eles que decidiram aumentar a popularidade.”

O esporte carecia de legitimidade, e White e seus sócios buscaram criá-la. Para começar, o UFC reside agora principalmente em Las Vegas, a “Capital Mundial das Lutas”, enquanto o UFC 1 foi realizado no Colorado, um dos três estados onde não há comissão de luta.

“Procuramos todas as comissões de atletas e buscamos a aprovação delas”, disse White. “Não tentamos evitar a regulamentação: queríamos ser aprovados pela regulamentação.”

A Zuffa também procurou uma autoridade superior para cuidar da política antidoping do UFC. Não havia exames médicos na época do UFC 1, a não ser por exames de sangue e um exame físico antes da luta. Agora supervisionado pela Agência Americana Antidoping, o UFC tem algumas das punições mais rigorosas do esporte profissional para os envolvidos em casos de doping. Aqueles flagrados pela primeira vez são sujeitos a um banimento automático de dois anos.

Até McCain disse aprovar agora a versão melhorada do UFC, que continua rompendo barreiras, incluindo a proibição de Nova York que até o início do ano impedia a promoção desses eventos no estado.

“É ótimo finalmente estar em Nova York, mas isso deveria ter ocorrido há muito tempo”, disse White.

Mesmo descrevendo o espetáculo de sábado do Madison Square Garden como “um marco”, ele disse que trata-se apenas de mais um passo. Destacando o apelo internacional do card do UFC 205, que terá três lutadores estrangeiros entre os seis lutadores participantes, White previu que o MMA acabará nas Olimpíadas.

“Para dizer a verdade, deveríamos ser um esporte olímpico a essa altura,” disse White, listando modalidades incorporadas pelo MMA que já são esportes olímpicos, como boxe, taekwondo, luta greco-romana e judô. “Basicamente tudo que fazemos já está em esportes olímpicos. Nós apenas os reunimos numa só modalidade.”

Com o UFC chegando ao solo sagrado do Madison Square Garden e buscando metas ainda maiores, Meltzer, o jornalista veterano, disse, “Em se tratando de estilo, produção e tudo mais, esse esporte evoluiu 200 anos em 23”.

E quanto a assistir novamente a primeira luta do UFC? “Foi como viajar para um mundo diferente”, disse ele.

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