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Marca registrada, Yamasaki sempre manda corações antes das lutas Divulgação

À LUTA: YAMASAKI SUPERA DIFICULDADES E REALIZA SONHO NO UFC

Primeiro árbitro brasileiro no torneio americano, empresário conta sobre percalços e conquistas que superou até se tornar referência no MMA

Rafael Fiuza, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2014 | 07h00

Nem todos os atletas no octógono são referências por lutas e golpes memoráveis. Em uma profissão pouco improvável, o brasileiro Mário Yamasaki tornou-se um símbolo do UFC sem nenhuma disputa de cinturão, tampouco uma abertura de card. As batalhas em que travou foram atrás de um sonho. Árbitro do torneio americano há 17 anos, o faixa preta em judô e jiu-jítsu é um exemplo raro no mundo esportivo. Aproveitou a popularidade cedida e construiu diversas empresas, dentro e fora da área de atuação, para se tornar um empresário de sucesso.

Lembrado por uma decisão controversa ao desclassificar o brasileiro Erick Silva na luta contra o compatriota Carlo Prater em 2012, Yamasaki mostra que o caso foi superado e que mudaria a decisão se tivesse mais informações sobre o lutador antes do combate.

Mas até se tornar um dos maiores árbitros do UFC, enfrentou um árduo caminho. Yamasaki chegou aos Estados Unidos com US$ 1.000 (R$ 2.500) na carteira e sem falar inglês. Antes de abrir a primeira academia, o professor de artes marciais morou na capital americana e trabalhou como entregador de jornal, caminhoneiro, garçom, copeiro e até motorista. Após mais de dez anos, foi capa do mesmo jornal em que entregava, considerado uma das estrelas do MMA atual.

Em entrevista exclusiva ao Estado, o juiz brasileiro do torneio de artes marciais mistas americano compartilha uma carreira repleta de obstáculos e adversidades e fala sobre as dificuldades no início da carreira, nos Estados Unidos, da família, negócios, cursos e arbitragem nacional. Confira.

Início da carreira

Comecei a dar aulas de judô aos 15 anos, em um colégio de freiras, e só parei quando fui para os EUA, em 1988. Nos EUA, tentei dar aulas em uma academia de Karatê, em Virginia, mas como não falava inglês, ficou difícil, então resolvi trabalhar em outras coisas. Meu 1º emprego foi de entregador jornal Washington Post nas casas. Como falo em minhas palestras, sempre uso o que faço como uma escada para subir e melhorar. A partir dali, minha vida nos EUA começou. Foi muito difícil o começo para aprender uma nova língua e cultura. É um choque, mas com perseverança conseguimos alcançar o que quisermos. Em 1993, quando o UFC estreou na TV, eu falei: 'está aí a minha chance de abrir uma academia, pois todos queriam saber o que era esse tal de jiu-jitsu. Hoje, tenho 13 academias na área metropolitana de Washington, mas nunca parei de fazer outras coisas paralelas, e cheguei a ter uma construtora com 120 funcionários.

Estados Unidos

Foi excelente ter essa oportunidade. Eu acho que todo o mundo deveria morar pelo menos um ano fora de sua caixinha, da sua área de conforto, é uma experiência que não tem preço, aprendi a ser homem lá, honesto, ético. Ralei no começo, cheguei a trabalhar sete dias da semana, feriados, aniversários, natal e ano novo, pois na necessidade, você faz coisas que em seu próprio País, nunca faria. Mas quando se tem um objetivo e quer mesmo alguma coisa, não importa o esforço, elas virão, e então é só curtir e saborear as delícias da vida. Uma de minhas empresas chegou a faturar US$ 9 milhões por ano (R$ 22 milhões), e eu fui para lá com apenas US$ 1,000.00 no bolso.

Família

Era o mais difícil. Estar em um país que você não conhece ninguém, e a tecnologia ainda não existia. Facebook, Skype, Facetime nem pensar. Telefonia era um absurdo para ligar. Então, eu gravava uns recados e contava como estava a vida nos EUA, em vídeo VHS (creio que muita gente hoje nem sabe o que é). Enviava por correio que demorava quase um mês para chegar, e ai meus familiares gravavam os recados lá e enviavam de volta, ou por carta. Era sinistro. Deixa qualquer um louco, por isso sempre falo da força de vontade, consegui trazer meus pais depois de dois anos para me ver e demorei quatro anos para poder retornar ao Brasil pela 1ª vez. Foi emocionante.

Primeiro trabalho na área

Em 1964, meus pais fizeram 14 academias em São Paulo, todas de judô, e aos três anos de idade eu já treinava a modalidade. Sempre competimos e treinamos com a seleção brasileira. Quando o jiu-jitsu começou a entrar na cidade, fui um dos primeiros a treinar com um mestre na área: Marcelo Behring. Achava que era bom no judô, mas nunca tinha apanhado de ninguém como apanhei dele no chão. Então, resolvi aprender uma arte que era um complemento do que já tinha. Acabei migrando do judô para o jiu-jitsu. Meu primo foi até para a Olimpíada de 92, pelo judô, mas foi então que focamos no jiu-jitsu. Nos tornamos uma das primeiras famílias no Brasil a focar na luta e logo depois veio o Hélio Gracie. Começamos a treinar em 86, quando o jiu retornou com força para o Brasil e em seguida montei minha academia nos EUA que está lá desde 1989. Hoje, sou faixa preta no judô, 3º DAN, e no jiu-jitsu 4º DAN. Pegarei 5º DAN ano que vem. 

Arbitragem

Meu pai e meu tio foram para cinco Olimpíadas como árbitros internacionais de judô. E eles eram os únicos árbitros que podiam ministrar cursos de arbitragem de judô no Brasil. Então,quando era garoto, eles me levavam para conhecer as pessoas que queriam aprender mais sobre o curso. Isto me deu muita claridade em termos de referência no movimento, a ética, a precisão, onde ficar posicionado no tatame. E quando apareceu a oportunidade de arbitrar no MMA, agarrei. Quando o UFC veio para o Brasil, em 1998, fui um dos responsáveis por trazer o evento e perguntei para o árbitro John McCarthy, um dos únicos árbitros do UFC na época, como fazia para entrar na equipe de arbitragem. Ele disse que estava procurando alguém e estou lá há 17 anos.

Requisitos

No Brasil, para ser árbitro, é necessário realizar o meu curso, o único habilitado pela Comissão Atlética Brasileira e Comissão Atlética Americana. O cara tem de ter alguma bagagem em uma arte marcial, recomendável faixa marrom ou preta e experiência.

Rentabilidade

A academia é nos EUA. Tenho meu sócio e irmão lá, mas ficou em um patamar médio. É bom e às vezes me ajuda um pouco, mas hoje é a arbitragem mesmo que abre mais portas. Não é possível mensurar porque elas se mesclam. O curso me traz arbitragem, a arbitragem me traz o curso, a academia leva aos dois. Dependendo do meio, um é mais forte que o outro.

Melhor luta

Uma luta que gostei de arbitrar foi a do Minotauro com o Randy Couture (2009). Foi uma  luta bem técnica. Achei que um ia finalizar primeiro, depois o outro escapou, ficou indo e voltando a luta inteira.

Erick Silva

Nos tornamos, não amigos, mas próximos por causa daquele incidente. Ele recebeu mais mídia por causa do acontecimento do que se tivesse ganho a luta. Aquele dia teve nocaute do Edson Barboza, que foi premiado como o nocaute do ano e a mídia em cima dele (Erick) foi maior do que no Edson. Ele até gostou e pediu que eu arbitrasse outra luta dele por causa da mídia. É um rapaz muito educado, muito bom, não temos problema nenhum. 

Voltar no tempo

É difícil falar, porque o que aconteceu antes e durante aquela luta. Ele me disse que não falava inglês e não entendia nada. E eu falo todas as regras em inglês. Se soubesse dessa informação antes da luta, talvez mudaria para no contest.

Dana White

A relação com o Dana é tranquila. Ele é o dono do evento, mas tem a opinião dele. Ele nunca fez o curso, mas tem profundo conhecimento da arte e tem uma visão do negócio. Por isso são três juízes e um árbitro para decidir a vida de um lutador. Para não ter controvérsias, são quatro analisando a luta. Mas, ali, na hora da decisão, tem de ir pela regra, não pode ir pela razão e pela emoção. 

Críticas

Foi uma lição de vida. Só conhecemos o homem quando ele começa a apanhar. E aquilo foi um dos piores momentos da minha vida. Coitada da minha mãe sendo nomeada de tudo quanto é jeito. Mas é um aprendizado. E depois dessa luta, ainda tive de arbitrar a final entre José Aldo e Chad Mendes. Perguntaram se entraria na final com todo mundo me vaiando e disse: 'vou entrar'. É o que sei fazer. E mesmo que as pessoas achem que eu errei, errar é humano e bola pra frente. Foi um aprendizado bem legal. 

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