FABIO MOTTA/ESTADÃO
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A saga dos irmãos Igor e Jéssica em busca da Olimpíada

Criados no morro do Dendê, na Ilha do Governador, os dois miram o exemplo da campeã mundial do esporte, Rafaela Silva

Ronald Lincoln Jr., O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2015 | 08h00

Novatos na seleção brasileira principal de judô, os irmãos Igor e Jéssica Pereira correm por fora na luta por uma vaga na Olimpíada do Rio. Com o apoio da família, que tem outros três judocas, e inspirados na história de sucesso da campeã mundial Rafaela Silva, eles acreditam que podem alcançar o objetivo.

Em dezembro passado, Igor e Jéssica foram aprovados para integrar a seleção brasileira sênior durante o ano de 2015, quando ocorrem as principais competições classificatórias para os Jogos Olímpicos. É a primeira vez dele na elite nacional do judô. Ela estreou na seleção em 2014.

A caminhada até a seleção foi longa, começou no ano 2000. O esporte foi a maneira encontrada por Imara Pereira para ocupar os cinco filhos - Osvaldo, de 26 anos; Anderson, 24; Igor, 22; Jéssica, 20; e Carolina, 17 - e afastá-los da violência comum na favela onde foram criados no morro do Dendê, na Ilha do Governador, zona norte do Rio.

“Ela queria que os três mais velhos fizessem natação”, contou Igor. “Na época, estava aberta a inscrição para um curso de férias da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela passou a noite na fila para matricular a gente e, quando chegou a sua vez, acabou a vaga para natação. Sobrou jiu-jítsu e ela inscreveu a gente.”

Os meninos se destacaram no jiu-jítsu e receberam o convite de um treinador do Vasco, que frequentava os treinamentos, para ingressar no judô do clube. Em seguida, foram as meninas. Após o Vasco encerrar o projeto da modalidade, os irmãos peregrinaram por outras instituições, até conhecer o Instituto Reação, ONG criada pelo ex-judoca Flávio Canto, com sedes nas favelas da Rocinha (zona sul) e Cidade de Deus (zona oeste), onde treinam até hoje.

Foi lá que Igor e Jéssica ganharam projeção. “Estávamos quase formados, mas o que fez diferença para chegarmos à seleção foi o período de dois, três anos em que treinamos no Reação. Foi o que nos deu experiência e nos moldou. Temos a experiência de treinar com a Rafaela (Silva), com o professor Geraldo Bernardes (veterano treinador da especialidade). Gente que tem experiência internacional há algum tempo.”

O judô é a modalidade que mais rendeu medalhas ao País em Olimpíadas. A expectativa é que em 2016 não será diferente, uma vez que a equipe brasileira tem atletas bastante cotados ao pódio. Cientes da concorrência dentro da seleção para conseguir vaga para os Jogos, Jéssica e Igor precisarão superar atletas mais experientes.

“Jéssica está um pouco mais avançada. Fez uma grande temporada em 2013, conquistando a prata no Mundial Sub-21. Ela tem se destacado. Igor não teve desempenho como o da irmã, mas tem mostrado bons resultados. Posso dizer que os dois têm muito potencial”, afirmou Ney Wilson, gestor de alto rendimento da Confederação Brasileira de Judô (CBJ).

Ambos têm em quem se espelhar. Eles conheceram Rafaela Silva, campeã mundial em 2013, quando chegaram ao Instituto Reação, pelo qual ela compete. “A gente sente que ela se identifica com nossa história. Assim como ela, viemos da periferia. Para quem é de lá, tudo joga contra”, comentou Igor. “Mas, se ela conseguiu, a gente também consegue”, completou Jéssica.

Se depender do apoio de Rafaela, eles vão chegar lá. “Os dois são muito esforçados. Assim como eu, vieram de uma família que não tem muito dinheiro. Eles podem sonhar com os Jogos Olímpicos, mas vão precisar batalhar muito”, aconselhou.

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