Ali conta como desmoronou Foreman no Zaire há 40 anos

Lutadores subiram ao ringue no dia 30 de outubro de 1974 para escrever um dos principais capítulos de toda a história do boxe

Wilson Baldini Jr., O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2014 | 07h00

Há 40 anos, no Zaire, Muhammad Ali e George Foreman subiram ao ringue para escrever um dos principais capítulos da história do boxe. O duelo, válido pelo cinturão mundial dos pesos pesados, virou livro e documentário vencedor do Oscar. Aos 32 anos, Ali ficou com o título que lhe fora tirado sete anos antes por ter se recusado a servir o exército na Guerra do Vietnã.

Dessa forma, a lenda Ali ganhava mais força, afinal derrotara o "monstro" George Foreman, que, aos 25 anos, chegava com" grande favorito após destroçar mitos como Joe Frazier e Ken Norton. "Ali precisa de um milagre para sobreviver", estampou a manchete do Tribune de Chicago.

"Tomei a maior surra da minha vida", disse Foreman. No livro Sou o mais poderoso, de 1975, Ali conta como usou o psicológico para desestabilizar Foreman. A seguir, os pontos principais:

1.º ROUND

O juiz Zack Clayton dá instruções. Eu me aproximo de George e falo: "Você vai se ver hoje todo surrado diante de todos esse africano". O juiz me adverte: "Ali, nenhuma conversa." Falo baixo: "Vou atingi-lo por toda a parte exceto embaixo das solas de seus grandes pés assustados, campeão!" George morde os lábios. Seus olhos faíscam e vão de mim para o juiz.

"Você ouviu falar de mim durante anos, seu trouxa! Você tem ouvido desde quando você era um menininho com cocô nas calças. Esta noite vou bater em você como se fosse uma criança de colo." Clayton adverte: "Se você não parar de falar, eu te desqualifico."

A luta começa. "Venha, campeão! Mostre-me o que tem. Você tem esmurrado crianças do maternal. Eu não lhe disse que sou o pesado mais rápido que já existiu. Você ainda não acertou um bom golpe." Mas na segunda metade do round, George passa a atravessar o ringue e força-me a dar seis passos enquanto ele só dá dois. 

Mudo de estratégia e passo a lutar de costas para as cordas, o que para todos parecia um suicídio. "George colocará Muhammad no córner e o destruirá. George tem a força conjugada de Joe Louis e Rocky Marciano. Rezo pela vida de Ali", diz Eddie Futch, técnico de Joe Frazier e Ken Norton.

2.º ROUND

"Venha, paspalhão! Mostre-me alguma coisa. Dizem que você esmurra forte. É isso que você pode fazer de melhor?" George lança socos com uma tonelagem que nunca pensei que um punho pudesse carregar. Os socos explodem nos meus rins, nas costelas, na cabeça. Se agora paro de falar, ele fica sabendo que estou machucado. "Seu otário, isso é tudo?"

3.º ROUND

Saio rápido e lanço socos. George avança como um tanque. Eu volto às cordas. "Está bem bobalhão! É aqui que você me quer?" Todo soco é demolidor. Um uppercut parece arrancar meu maxilar. Estou machucado. A multidão é tudo o que eu ouço. "Ali, bomaye!" (Ali, mate-o).

7.º ROUND

"Você ainda tem oito rounds pela frente! E veja como você está cansado. Eu ainda nem comecei. Essas bonitas moças africanas sentadas ali olhando para o seu olho amassado."

8.º ROUND

Lanço um direto de direita no queixo dele com todo vigor e força. O juiz começa a contagem. George jamais teria perdido a coroa deitado no chão, enquanto nele houvesse uma gota de sangue. George está de pé, mas está terminado. Ele ainda pode vencer qualquer homem no mundo. Exceto a mim.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.