Werther Santana
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Artes marciais facilitam inclusão de deficientes em São Paulo

Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural, que facilita inserção social de deficientes pelos esportes e pelas artes, traz sensei israelense ao País

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 16h18

O carateca Marcio Del Nero é instrutor do Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural (IOK), associação sem fins lucrativos que desenvolve projetos artísticos e esportivos para pessoas com deficiência intelectual e em situação de vulnerabilidade social. Marcio transmite os fundamentos do caratê do, uma das vertentes do esporte, que aprendeu ao longo de dez anos. O lutador é um símbolo da própria instituição. Aos 36 anos, ele tem síndrome de Down.

Nesta segunda-feira, Marcio participou de um evento internacional. Em parceria com o Consulado Geral de Israel, o instituto recebeu a visita do sensei israelense Eyal Nir, vice-presidente do World Traditional Karate Federation e fundador do programa Budo-way, outra vertente do caratê. Eyal proferiu uma palestra no CEU Curuçá, na zona leste de São Paulo, para os praticantes do instituto. O caratê será uma das modalidades estreantes nos Jogos de Tóquio

“O objetivo é trazer sabedoria e conhecimento para o desenvolvimento físico e mental das pessoas. Não é apenas autodefesa. É uma ferramenta para a vida”, diz ao Estado o autor do livro Budo-way - Breakthrough in business and life (Avanços nos negócios e na vida, em tradução livre). “Mostramos como é possível manter a concentração mesmo em situações de pressão e estresse. O caratê ajuda a manter as crianças focadas no esporte e longe das drogas”, diz Nir, que também é presidente do Dento Karatê Israel.

Wolf Kos, presidente do Instituto Olga Kos, afirma que a presença do sensei israelense ajuda a aprimorar a metodologia de ensino da entidade no País. “A troca de experiências e informações sobre práticas inclusivas traz o aprimoramento dos nossos conhecimentos”, diz Wolf Kos.

O evento permitiu que os caratecas interagissem com o mestre, fazendo exercícios e perguntas. Natane Serravallo Sena quis saber as motivações do sensei para praticar o caratê. Nir respirou fundo, elogiou a questão e disse que as artes marciais têm relação com a busca pelo aperfeiçoamento mental, físico e espiritual.

Aos 27 anos, Natane tem um tipo raro de nanismo. Além da baixa estatura – ele tem 98 cm de altura -, a doença provoca um processo de calcificação dos ossos. Seus punhos apresentam, por exemplo, ossos mais saltados, mais altos que o tradicional. Por conta do excesso de cálcio, ela sofre com pedras nos rins. Segundo a carateca, existem apenas nove casos no mundo – ela seria a única brasileira. A prática esportiva e uma dieta mais equilibrada estão ajudando no problema. Hoje, ela é faixa preta e também se tornou instrutora de caratê. Seu sonho é competir no modelo kata, modalidade baseada nos movimentos de exibição.

Fundado em 2007, o Instituto Olga Kos destina 80% de suas vagas para pessoas com defiência intelectual. Os outros 20% são dirigidos para crianças em situação de vulnerabilidade social. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), mais de um bilhão de pessoas vive com algum tipo de deficiência em todo o mundo. No Brasil, segundo o censo de 2010 do IBGE, eram 45,6 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, quase 24% da população nacional. 

As atividades esportivas do instituto são o caratê do e o taekwondo. O instituto tem parceria com escolas e a Prefeitura de São Paulo, onde atua nos Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), e também com os CEUs. A principal forma de captação de recursos é a associação com a iniciativa privada por meio das leis de incentivo (federal e estadual). Empresas e pessoas que declaram imposto de renda podem destinar parte desses valores para projetos selecionados. Hoje, o instituto beneficia cerca 3500 pessoas por ano.

Estreia na Olimpíada

O caratê vai estrear na Olimpíada em Tóquio. A disputa entre brasileiros por uma vaga começou fevereiro em uma seletiva nacional promovida pela CBK (Confederação Brasileira de Karatê), em São Paulo. O evento contou com os melhores ranqueados em diferentes categorias, divididas por gênero e peso, nas modalidades kumite, o combate em si, e kata, em que são avaliadas sequências de movimentos. Os vencedores irão ao Pré-Olímpico de Paris, em maio, para tentar cravar ida ao Japão.

Na França, os três primeiros de cada categoria terão vaga para Tóquio. Os caratecas ainda poderão se classificar pelo ranking da WFK (Federação Mundial de Karatê, em inglês), devido ao desempenho em competições continentais ou a convite das federações nacionais. Cada país poderá ter no máximo um atleta por categoria nos Jogos Olímpicos - serão oito no total, com dez lutadores em cada. O sensei israelense Eyal Nir afirma que essa primeira participação terá caráter demonstrativo. Ele espera um rápido crescimento nas próximas edições dos Jogos.

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